Enquanto as portas fechavam, os canais digitais e os marketplaces internacionais ganharam espaço na decisão de compra do consumidor.
O estudo comparou o número de lojas informado no fim de 2022 com o dado mais recente disponível em cada balanço, já considerando eventuais aberturas no período.
Casas Bahia lidera o corte com 298 lojas fechadas
A Casas Bahia responde pela maior parcela da redução. No fim de 2022, quando ainda operava como Via, a companhia tinha 1.133 lojas. Chegou a junho deste ano com 1.034 unidades e anunciou, em agosto, o fechamento de mais 298 lojas como parte da segunda etapa de sua reestruturação.
Se o plano for totalmente executado, a rede terá encolhido em cerca de 400 pontos em menos de quatro anos.
O corte reflete a situação financeira da companhia. Com R$ 17,3 bilhões em dívidas submetidas à
recuperação judicial, a Casas Bahia passou a priorizar geração de caixa e rentabilidade. O presidente Renato Franklin já afirmou não esperar retomada do crescimento nos próximos dois anos.
Americanas, Carrefour e Marisa também reduziram suas redes
A Americanas seguiu trajetória parecida após a crise contábil revelada em janeiro de 2023.
Entre o fim de 2022 e dezembro de 2025, a rede passou de 1.803 para 1.470 lojas, uma redução de 333 unidades em meio ao processo de recuperação judicial e à concentração em pontos de maior retorno.
No Carrefour, o enxugamento acompanhou a integração do Grupo BIG. A rede caiu de 1.203 lojas no fim de 2022 para mil em março de 2025, último dado detalhado antes do fechamento de capital, somando fechamentos, vendas e mudanças de bandeira, incluindo 123 lojas definitivamente encerradas.
A Marisa registrou o fechamento mais simbólico ao encerrar uma de suas principais lojas na Avenida Paulista, após 15 anos de operação.
A rede terminou 2025 com 230 lojas, ante 334 três anos antes, redução de 104 unidades na tentativa de construir uma operação menor e mais rentável.
Magazine Luiza já planeja retomar expansão física
O Magazine Luiza fechou junho deste ano com 1.246 lojas, 93 a menos que as 1.339 registradas no fim de 2022. Diferente das demais, o movimento não representa abandono do espaço físico. Depois de três anos sem inaugurações, a companhia já anunciou retomada da expansão a partir do segundo semestre.
No segundo trimestre, as vendas em lojas físicas cresceram 10,3%, enquanto o e-commerce recuou 11,9%.
Para Ana Paula Tozzi, especialista em varejo e CEO da AGR Consultores, o crescimento das vendas online apenas acelerou a exposição de problemas estruturais que essas empresas já carregavam.
"O digital não matou a loja. Ele expôs mais rapidamente as fragilidades das cadeias com problemas", afirma.
Segundo ela, cada rede encolheu por razões específicas. Casas Bahia e Americanas foram pressionadas pelo endividamento e por crises de confiança, a Marisa lidava com lojas deficitárias, o Carrefour aproveitou a integração do Grupo BIG para eliminar sobreposições, e o Magalu reduziu a rede em um período de maior disciplina financeira.
"É uma medida de eficiência, não uma estratégia de recuperação por si só", pondera Tozzi, lembrando que dívidas excessivas e margens baixas não desaparecem apenas com o fechamento de lojas.
Mercado Livre e Shopee na liderança
As vendas online somaram R$ 423 bilhões em 2025, alta de 21%, passando a representar 14,4% do varejo brasileiro, segundo o UBS BB.
Os quatro maiores players concentravam 82% desse mercado:
Mercado Livre (43%), Shopee (18%),
Amazon (11%) e Magazine Luiza (10%). Enquanto os dois primeiros ganharam participação, o Magalu perdeu 2,7 pontos percentuais e caiu para a quarta posição.
Para este ano, o UBS BB projeta vendas online de R$ 518 bilhões, equivalentes a 16,7% do varejo total.
O BTG Pactual destaca que a pressão das plataformas internacionais se intensificou justamente em categorias onde as grandes redes nacionais tinham presença mais forte, como acessórios eletrônicos, beleza, decoração e artigos esportivos.
Assaí, Grupo Mateus, C&A e Renner seguem expandindo lojas físicas
Segundo Tozzi, o crescimento dessas empresas não significa que ocuparam os espaços deixados pelas redes que encolheram.
A diferença está na seleção criteriosa de mercados e no retorno individual de cada unidade. "Uma companhia pode ficar melhor com 500 lojas excelentes do que com 800 unidades, sendo 300 delas destruidoras de valor", afirma.
A dinâmica varia por segmento: alimentação e atacarejo se beneficiam da frequência e proximidade, enquanto móveis, eletrodomésticos e lojas de departamento exigem mais espaço físico e estoque.
📊 "As lojas físicas seguem sendo um diferencial competitivo relevante, especialmente em categorias onde a venda assistida e o crédito são essenciais para conversão", afirmou o analista do BTG Pactual, Luiz Guanais.