A medida foi adotada após o comando da varejista ser ameaçado por um dos gestores de fundos credores da empresa, em episódio apurado pelo Valor Econômico. A varejista não se manifestou quando procurada.
O gestor em questão, à frente de uma casa que acumula cerca de R$ 700 milhões em operações com a Casas Bahia, pressionou pela saída do veículo do processo de recuperação e disse diretamente à administração que, se a situação era ruim para o fundo, ficaria "muito pior" para a direção.
A reação foi vista internamente como "muito fora da medida", especialmente porque negociações com bancos e fornecedores em torno de um plano de reestruturação vinham avançando.
O Valor apurou que a varejista chegou a consultar executivos de outras empresas que passaram por processos semelhantes, e a recomendação foi buscar proteção privada, que deve ser suspensa quando essa fase crítica passar.
Fundo questiona se seus créditos estão sujeitos à RJ
O fundo que pressiona a varejista tem recursos aplicados por meio de FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) na modalidade risco sacado e outras dívidas financeiras.
A questão central é jurídica, já que parte desses fundos aparece na lista encaminhada à 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo como credores sujeitos à recuperação, mas o entendimento da gestora é que seus créditos seriam extraconcursais, ou seja, não enquadráveis no processo.
A definição final cabe à juíza do caso e depende não do rótulo FIDC, mas da natureza jurídica de cada crédito e das garantias constituídas em cada operação.
FIDCs agora são parte do problema
A Casas Bahia começou a recorrer a estruturas de FIDC no fim de 2023 como alternativa ao encolhimento das linhas tradicionais com seus principais bancos parceiros,
Bradesco (BBDC4) e
Banco do Brasil (BBAS3), apertadas pelos juros altos e pela recuperação extrajudicial de 2023.
Em fevereiro de 2025, um FIDC voltado ao crediário entrou em operação com R$ 300 milhões. Em setembro do mesmo ano, a rede estruturou o GCB Fornecedores FIDC, focado na cadeia de suprimentos, que captou R$ 755 milhões em duas emissões até março de 2026.
Na petição inicial da recuperação judicial, a empresa informou endividamento bancário de R$ 7,03 bilhões e R$ 2,016 bilhões em obrigações ligadas a cotas seniores de FIDCs. Também foram registrados contratos financeiros e comerciais somando mais de R$ 10 bilhões, com cláusulas de vencimento antecipado em casos de recuperação judicial, o que explica a urgência da proteção judicial requerida.
Casas Bahia ainda tenta injetar R$ 400 mi via Bradesco
Em paralelo, o Valor apurou que a varejista ainda negocia com o Bradesco a entrada de R$ 400 milhões em caixa para garantir liquidez imediata.
A recuperação judicial ainda não foi deferida pelo juízo. A empresa aguarda a troca de dados com o perito designado pela Justiça, para que as informações solicitadas pela 2ª Vara possam ser analisadas antes da decisão.
Analistas ouvidos pelo Valor apontam que a crise tem raízes mais profundas do que o cenário de restrição de liquidez recente. Contínuas trocas de diretoria e de conselho ao longo da última década, com mudanças sucessivas nos grupos de poder e uma governança ainda em construção, elevaram a percepção de risco da empresa entre bancos, investidores e gestoras ao longo dos anos.
💲 Esse desgaste dificultou o acesso a alternativas de capital mesmo quando a atual administração tentou montar um plano de reestruturação. A isso se soma o fato de o varejo físico ser um segmento historicamente menos atraente para investidores de longo prazo pelo maior risco inerente ao modelo de negócio.