Quais ações ganham e perdem se o Brasil retaliar as tarifas de Trump?

A Lei da Reciprocidade permite que o Brasil adote ações equivalentes diante de barreiras comerciais impostas por outros países.

Publicado em 27/07/2026 às 16:04h Publicado em 27/07/2026 às 16:04h por Elanny Vlaxio
O impacto dependerá da lista de produtos do governo brasileiro (Imagem: Shutterstock)
O impacto dependerá da lista de produtos do governo brasileiro (Imagem: Shutterstock)
A possível aplicação da Lei da Reciprocidade pelo Brasil, em resposta às novas tarifas impostas pelos Estados Unidos, pode redesenhar o cenário para empresas listadas na B3. 
Enquanto companhias com produção no mercado americano ou atuação global tendem a ser mais resilientes, exportadoras dependentes dos EUA, empresas que utilizam insumos norte-americanos e setores sensíveis à inflação e aos juros podem enfrentar um ambiente mais desafiador. 
O impacto, no entanto, dependerá da lista de produtos que o governo brasileiro decidir incluir em uma eventual retaliação.
O debate ganhou força após os Estados Unidos confirmarem uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros e, posteriormente, anunciarem uma nova alíquota de 12,5% para determinados produtos, levando o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a acionar a Lei da Reciprocidade. 
A medida permite que o Brasil adote ações equivalentes diante de barreiras comerciais impostas por outros países. Ao mesmo tempo, parte dos produtos brasileiros ficou de fora das novas tarifas, reduzindo o impacto sobre alguns setores.
Na avaliação da Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil), a aplicação das novas tarifas compromete ainda mais a competitividade das exportações brasileiras para os EUA.  A entidade também defende que medidas de reciprocidade não contribuem para solucionar as divergências e avalia que elas elevam o risco de uma escalada política e comercial.

Quem pode sair ganhando?

Para Gabriel Eisner, consultor financeiro e sócio da Mhydas Planejamento Financeiro, as companhias com operações nos Estados Unidos ou menor dependência do mercado americano tendem a atravessar esse cenário com mais segurança. 
"Os maiores beneficiados tendem a ser empresas com produção local nos Estados Unidos, negócios globais diversificados ou capacidade de substituir produtos norte-americanos no mercado brasileiro." 
Segundo o especialista, Gerdau (GGBR4), JBS (JBSS32), Petrobras (PETR3; PETR4), Suzano (SUZB3) e Vale (VALE3) estão entre as empresas mais protegidas. A Gerdau pode ser beneficiada por possuir produção em território americano e também por uma eventual proteção ao aço nacional. 
Já a JBS tem menor exposição por operar diretamente nos Estados Unidos, enquanto Petrobras, Suzano e Vale contam com produtos relevantes preservados pelas exceções tarifárias ou com operações globalmente diversificadas.
Também podem ser favorecidas empresas que concorrem com produtos importados dos Estados Unidos, caso o governo brasileiro aumente tarifas sobre bens finais.
Nesse grupo estão Usiminas (USIM5), CSN (CSNA3), Braskem (BRKM5), Kepler Weber (KEPL3), Marcopolo (POMO4) e Randon (RAPT4). "Essas empresas poderiam ganhar competitividade no mercado brasileiro com a substituição de importações."

Quem pode perder com a reciprocidade?

Na avaliação de Eisner, as empresas mais expostas ao mercado norte-americano ou dependentes de insumos e tecnologia dos Estados Unidos tendem a enfrentar um cenário mais desafiador.
"Os maiores prejudicados seriam exportadores dependentes dos Estados Unidos, empresas que utilizam insumos e tecnologia norte-americana e companhias domésticas sensíveis à inflação, ao dólar e aos juros."
Entre elas estão WEG (WEGE3), Romi (ROMI3), Tupy (TUPY3) e Alpargatas (ALPA4), que podem sofrer com perda de competitividade, queda das exportações e aumento dos custos.
A Embraer (EMBJ3) apresenta uma situação intermediária já que embora suas aeronaves tenham sido preservadas das tarifas americanas, uma eventual retaliação brasileira sobre motores, peças, softwares ou propriedade intelectual dos Estados Unidos pode elevar seus custos de produção.
Na visão de Bruno Corano, economista da Corano Capital, o principal efeito das medidas comerciais é o aumento da incerteza para os investidores.  Segundo ele, as empresas mais afetadas tendem a ser as exportadoras industriais. 
Corano acrescenta que o setor financeiro deve sentir efeitos indiretos, embora em menor intensidade. "Quem vai sofrer menos o 'impacto direto' é a parte financeira. Mas o mercado acaba tendo menos negócios para fazer; se há menos negócios para fazer, há menos dinheiro girando e gera menos lucro."
Além disso, o economista avalia que os segmentos de consumo e utilities tendem a sofrer menos impactos imediatos. "O que não tem um impacto direto é o consumo e o 'utilities': o que menos tem impacto, como saneamento (não tem impacto nenhum)", disse.
Para ele, um dos principais riscos está na possibilidade de uma resposta mais ampla do Brasil às medidas americanas. "Caso seja uma retaliação total do Brasil, podemos ter um impacto direto no câmbio e um câmbio mais alto começa a impactar uma série de negócios no Brasil e, provavelmente, as empresas da B3."
Nesse contexto, Magazine Luiza (MGLU3), Lojas Renner (LREN3), MRV (MRVE3), Cyrela (CYRE3) e bancos domésticos também podem sentir os efeitos, diante do risco de desaceleração da atividade econômica, inflação mais pressionada e juros elevados.