Varejo concentra 21% das empresas em recuperação judicial no Brasil

Levantamento mostra 6.341 companhias em recuperação judicial ou extrajudicial no país.

Publicado em 29/08/2026 às 12:01h Publicado em 29/08/2026 às 12:01h por Wesley Santana
Tok&Stok é uma das empresas que pasan por recuperação judicial (Imagem: Shutterstock)
Tok&Stok é uma das empresas que pasan por recuperação judicial (Imagem: Shutterstock)

Um levantamento feito pela consultoria RGF mostra que o Brasil atingiu o total de 6.341 empresas em recuperação judicial ou extrajudicial. Deste total, 21% são companhias do setor varejista.

A lista de grandes empresas nesta condição é grande: Americanas, St Marché, Grupo Toki e, agora mais recentemente, Marabraz e Casas Bahia.

A recuperação é uma maneira que as empresas endividadas buscam para chegar a um acordo com seus credores. O objetivo é reorganizar os pagamentos sem deixar que a operação da empresa pare.

Embora seja uma situação que qualquer empresa possa passar, o atual cenário econômico contribui para que milhares delas estejam enfrentando a situação de forma conjunta. Um dos planos de fundo é o atual patamar de juros, que faz com que essas empresas vejam suas dívidas aumentarem de tamanho a cada dia que passa.

Depois do fim da pandemia, no intervalo de alguns meses, a Selic ganhou praticamente 13%. Na prática, significa que as empresas pagam 130% a mais pelos créditos que adquiriram no passado, já que cada ponto significa um custo adicional de 10% no preço da dívida.

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"A causa deste fenômeno de recuperações judiciais e extrajudiciais tem uma composição híbrida e parece longe do fim", diz Fabian Salum, professor titular e pesquisador líder de estratégias competitivas da FDC, a Fundação Dom Cabral, em entrevista à BBC News. "De um lado, estão fatores externos à companhia, como a dificuldade de acesso ao capital, os bancos restringindo cada vez mais as linhas de financiamento e de capital de giro, a alavancagem [peso dos empréstimos] que subiu muito no pós-pandemia, quando a Selic passou de 2% para 15%”.

Na outra ponta, os juros altos são uma estratégia monetária para diminuir o ritmo de compra da população. A ideia do Banco Central é que, com o crédito custando mais, as pessoas comprem menos e, consequentemente, a inflação caia.

O trabalho do Banco Central é justamente controlar as expectativas para que esse juro e a inflação recuem para níveis menos restritivos, permitindo que a economia volte a ganhar fôlego”, diz Eduardo Solamone, diretor de RI da Sol Agora.

Tempero especial

No caso de algumas empresas, a situação tem alguns contornos particulares, como é o caso da Marabraz. A varejista enfrenta uma briga familiar pelo seu controle, que aponta para um problema de má gestão.

"Assistimos a casos de fraude, como a da Americanas, ou de uma expansão mal calculada, como a da Raízen, o que chama a atenção para a necessidade de boa governança", diz Felipe Tanus, diretor de crédito da Allianz Trade Brasil.

Sem fim no curto prazo

Para diversos analistas, outras empresas podem passar a compor a lista de RE e RJ nos próximos meses. A projeção se dá porque, pelo menos no curto prazo, não há nenhum indicativo de que a Selic vai ser reduzida.

Nesta semana, depois que o IPCA-15 apresentou deflação, algumas casas de análise até saíram para projetar novos cortes no indicador. No entanto, é quase unanimidade no mercado que os juros devem ficar com dois dígitos pelo menos até o fim de 2027.

"A estrutura de capital das companhias vai continuar comprometida, com a previsão de juros em dois dígitos pelo menos até o final de 2028. Mesmo quando as empresas vendem mais e aumentam a receita, a despesa financeira [custos da dívida] cresce e consome o caixa. E se as vendas desaceleram, como estamos vendo agora, a situação se agrava", avalia Betania Tanure, especialista em comportamento organizacional e sócia da consultoria BTA Associados, à reportagem da BBC.