Para Miguel Reale Jr., ex-ministro da Justiça, os diálogos revelam uma "promiscuidade entre poderosos e o poder" que pode configurar advocacia administrativa, crime que ocorre quando um funcionário público patrocina interesse privado perante a administração pública valendo-se do cargo que ocupa. "Isso é que choca", afirmou.
Na leitura do jurista, a relação exposta pelas mensagens ultrapassa uma interlocução pontual. "Revela uma promiscuidade entre poderosos e o poder que comprometem a respeitabilidade da República", disse.
"O ministro atua de uma forma muito próxima, dando conselhos, fiscalizando ou revendo, fazendo uma revisão de contrato. Ou seja, tudo isto leva a uma descredibilidade da instituição junto à população", acrescentou.
Para Reale Jr., os fatos precisam ser formalmente apurados, seja por meio de sindicância interna no próprio Supremo, seja por investigação conduzida pela Procuradoria-Geral da República. "Só se mantém o respeito às instituições se houver apuração", afirmou.
O jurista e ex-desembargador do TJ-SP Wálter Maierovitch foi além ao sugerir uma medida ainda mais drástica. "Estou levantando a questão da necessidade do afastamento cautelar do Moraes", declarou, enquanto o caso é examinado pelas autoridades competentes.
OAB pede apuração "rigorosa e isenta"
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) também se manifestou, divulgando nota em defesa de uma "apuração rigorosa e isenta de todos os fatos, em relação a quem quer que seja".
O texto, assinado pelo presidente em exercício do Conselho Federal, Délio Lins e Silva Jr., afirma que a entidade acompanha "com atenção e extrema preocupação as notícias sobre a crise que atinge o Supremo Tribunal Federal e outras instituições da República".
A OAB ressaltou ainda que qualquer investigação deve respeitar as garantias constitucionais do devido processo legal, da ampla defesa e da presunção de inocência.
"Esses princípios garantem a legitimidade da apuração", destacou a nota, que também chamou atenção para os riscos do episódio ocorrer durante o período eleitoral, dada a relevância das instituições envolvidas para a democracia.
Mensagens mostram Vorcaro recorrendo a Moraes
O caso veio à tona após o Estadão divulgar mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro, mostrando o banqueiro recorrendo a Moraes em momentos críticos da apuração sobre o Banco Master, incluindo consultas sobre possíveis medidas judiciais e pedidos de ajuda diante do avanço das investigações, além de contato às vésperas de sua prisão.
O material foi extraído durante a Operação Compliance Zero, deflagrada em novembro de 2025 para investigar suspeitas de fraudes de aproximadamente R$ 12 bilhões em cessões de carteiras de crédito do Banco Master ao BRB.
O relatório da PF, enviado ao ministro André Mendonça em 27 de agosto, identificou o destinatário das mensagens como o contato salvo no celular sob o nome "Alexandre de Moraes BRASILIA".
O documento reconstrói uma relação que remonta ao fim de 2023, incluindo registros de encontros pessoais entre Vorcaro e Moraes.
A PF também verificou que a última modificação nas minutas do contrato firmado entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, foi feita por um usuário identificado nos metadados como "Ministro Alexandre de Moraes".
Mendonça tira sigilo do processo
Em decisão proferida nesta terça-feira (1º), o ministro André Mendonça determinou que os novos elementos trazidos pela PF sejam analisados pelo plenário do Supremo.
"Diante do teor das informações apresentadas pela autoridade policial, independentemente de qual venha a ser a manifestação exarada pela douta Procuradoria-Geral da República, o caminho inevitável dos presentes autos leva ao Plenário deste Supremo Tribunal Federal, instância soberana para analisar, de modo técnico e estritamente jurídico, os novos elementos trazidos pela autoridade policial", afirmou.
Mendonça determinou que a deliberação ocorra em sessão presencial, "de forma pública e transparente", em data ainda a ser definida pelo presidente do STF, Edson Fachin.
Na mesma decisão, o ministro retirou o sigilo do processo que trata dos diálogos entre Vorcaro e Moraes e solicitou parecer da PGR (Procuradoria-Geral da República) sobre o caso.
📊A partir da manifestação da Procuradoria, Mendonça deve decidir se abre ou não uma investigação formal contra Moraes.