Do campo ao posto: Como a guerra entre EUA e Irã pressiona o agro no Brasil?

Conflito ameaça cadeia global de fertilizantes e acende alerta para custos e produtividade do agro nacional.

Publicado em 30/05/2026 às 16:29h Publicado em 30/05/2026 às 16:29h por Elanny Vlaxio
Alta do petróleo e risco logístico elevam tensão no campo brasileiro (Imagem: Shutterstock)
Alta do petróleo e risco logístico elevam tensão no campo brasileiro (Imagem: Shutterstock)
Com fertilizantes mais caros, petróleo em alta e risco de colapso em rotas estratégicas do comércio internacional, a escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã começa a gerar efeitos diretos sobre o agronegócio brasileiro
Embora o Brasil seja uma potência agrícola, especialistas apontam que a forte dependência externa de insumos coloca o setor em uma posição vulnerável diante da crise no Oriente Médio.

Dependência externa expõe fragilidade do agro

O principal ponto de pressão está nos fertilizantes. Atualmente, o Brasil importa mais de 80% dos insumos utilizados no campo, especialmente os nitrogenados, essenciais para a produção agrícola. Parte relevante desse comércio passa pelo Oriente Médio e pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do planeta para o transporte de petróleo e derivados.
Segundo o professor de Direito Empresarial, Henrique Araujo Torreira de Mattos, a ameaça vai muito além do aspecto militar. “A ameaça não é apenas militar ou diplomática; é uma ameaça econômica e logística”, afirmou. Ele destaca que o aumento das tensões eleva os custos de fertilizantes, combustíveis, frete marítimo, crédito e seguros.
Já o professor de Direito Internacional, Guilherme Antonio de Almeida Lopes Fernandes, avalia que o problema mais grave para o Brasil está justamente na dependência dos insumos importados. De acordo com ele, o Oriente Médio concentra cerca de 40% do comércio marítimo global de ureia, fertilizante essencial para o agro.
Com o risco de interrupções no Estreito de Hormuz, o preço do petróleo disparou, pressionando toda a cadeia produtiva. “Com o fechamento do estreito, por exemplo, a cotação do barril tipo Brent saiu de cerca de US$ 70 para algo por volta de US$ 100”, explicou Fernandes.

Guerra ameaça custos, produção e exportações

Além da alta dos insumos, especialistas alertam que o setor também pode sofrer com atrasos logísticos e perda de mercados consumidores. O Oriente Médio respondeu por cerca de US$ 12 bilhões em compras do agronegócio brasileiro em 2025, equivalente a 7,4% das exportações do setor.
Para Fernandes, o agro brasileiro não está preparado para enfrentar um choque dessa magnitude. “A resposta mais segura é que não: o agronegócio não está preparado para um choque desse”, disse. Segundo ele, o país ainda não conseguiu reduzir de forma significativa a dependência externa de fertilizantes, mesmo após os impactos provocados pela guerra na Ucrânia.
Na avaliação de Mattos, o pior cenário envolveria uma combinação de fatores simultâneos, como aumento expressivo dos fertilizantes, alta do diesel, encarecimento do frete e atrasos no recebimento de insumos. Nesse contexto, produtores poderiam reduzir o uso de tecnologia nas lavouras, diminuir o nível de adubação ou até trocar culturas, afetando diretamente a produtividade.
Os reflexos também podem atingir empresas brasileiras listadas na bolsa. Fernandes cita companhias exportadoras de grãos e carnes, como BrasilAgro (AGRO3), SLC Agrícola (SLCE3), Marfrig (MBRF3) e Minerva (BEEF3), devido à exposição comercial ao Oriente Médio.

Impacto chega ao consumidor e muda cenário econômico

Os efeitos da crise já começam a pressionar o bolso do consumidor. A alta do petróleo encarece o diesel e eleva os custos do transporte rodoviário, principal modal utilizado no Brasil para escoamento da produção agrícola.
“Os alimentos vão ficar mais caros”, resumiu Fernandes ao explicar que o aumento dos custos operacionais tende a ser repassado ao consumidor final. O impacto pode atingir carnes, grãos, alimentos processados, açúcar, etanol e outros produtos dependentes do transporte terrestre.
O cenário também pode prolongar o período de juros elevados no país, diante da pressão inflacionária causada pelos combustíveis e alimentos.
Apesar das perdas para o agro, alguns setores brasileiros podem sair beneficiados. Fernandes aponta que a Petrobras (PETR4) ganhou relevância com a alta global do petróleo, enquanto empresas ligadas à mineração e biocombustíveis também podem se favorecer do novo contexto energético.
Para os especialistas, a crise evidencia um problema estrutural do Brasil que é a dependência externa de insumos estratégicos para manter uma das maiores produções agrícolas do mundo.