Como Flávio pode frustrar os investidores? Veja o que dizem especialistas

Controle de gastos, trajetória da dívida e detalhamento das propostas serão decisivos para sustentar a confiança dos investidores.

Publicado em 16/10/2026 às 08:17h Publicado em 16/10/2026 às 08:17h por Elanny Vlaxio
O 2º turno das eleições é dia 25 de outubro (Valter Campanato/Agência Brasil)
O 2º turno das eleições é dia 25 de outubro (Valter Campanato/Agência Brasil)
A falta de medidas concretas para equilibrar as contas públicas pode comprometer o otimismo dos investidores em relação a Flávio Bolsonaro e provocar uma correção nos preços dos ativos. 
Para especialistas do mercado financeiro, a sustentação dessa confiança dependerá do detalhamento das propostas econômicas, especialmente em relação à trajetória da dívida pública, ao controle de despesas e à viabilidade das medidas anunciadas.

Propostas fiscais precisam de detalhamento

André Bobek, consultor financeiro e CEO da Mhydas Planejamento Financeiro, avalia que Flávio e sua equipe já apresentaram iniciativas que dão fundamento às expectativas de mudança.
Entre elas estão a reformulação das regras fiscais, a busca por superávits primários, o controle de despesas discricionárias dos Três Poderes e a limitação do crédito subsidiado com recursos do Tesouro.
A agenda também prevê reforma administrativa, redução da estrutura ministerial, revisão de gastos e avaliação permanente dos resultados dos programas públicos. Na área tributária e regulatória, inclui simplificação de regras, redução de obrigações acessórias e revisão de tributos, com a proposta de reduzir o IOF aos patamares de 2022.
Na avaliação de Bobek, essas iniciativas podem diminuir os custos financeiros e burocráticos das empresas, favorecendo o empreendedorismo e os investimentos privados.
Ele também considera que a limitação dos subsídios creditícios financiados pelo Tesouro pode reduzir despesas fiscais e distorções na distribuição do crédito, a depender de como a medida for estruturada.
O consultor ressalta, contudo, que as propostas ainda precisam apresentar impactos, cronogramas e condições de aprovação. A redução de impostos, em particular, deve ser compatível com a economia de despesas e os demais compromissos assumidos.
“Quanto mais previsível e consistente for essa resposta, melhores serão as condições para reduzir o prêmio de risco exigido para financiar o país”, afirma Bobek, ao destacar a importância de colocar a trajetória da dívida no centro da política fiscal.
Segundo ele, a redução do custo de capital pode tornar viáveis projetos que antes não ofereciam retorno suficiente, como expansões industriais, abertura de unidades e investimentos em tecnologia. A simplificação regulatória também pode contribuir para elevar a produtividade das empresas.

Ausência de plano pode acelerar correção

Enrico Cozzolino, CEO e estrategista de investimentos da Zermatt Partners, considera que a falta de medidas concretas representa um risco para o mercado porque a valorização recente estaria apoiada principalmente em expectativas, e não em um plano fiscal detalhado.
Segundo o especialista, há declarações e informações extraoficiais sobre cortes de gastos, enquanto algumas iniciativas, como a renegociação de dívidas por meio da Caixa, ainda não têm custo definido. Nesse contexto, a ausência de confirmação das expectativas pode provocar uma correção mais rápida do que o movimento de alta.
“Quando o mercado compra uma tese com essa intensidade e ela não se confirma, a correção costuma ser mais rápida que a alta”, afirma Cozzolino.
O estrategista também aponta que o capital estrangeiro pode entrar e sair rapidamente diante de mudanças na percepção de risco. Para reduzir essa incerteza, ele considera importante que, após a eleição, sejam apresentados nomes e números que deem maior clareza à condução da política econômica.

Pressão política por responsabilidade fiscal

Rodolfo Oliveira, fundador e presidente do conselho da XR Advisor, também avalia que a frustração das expectativas pode levar a uma revisão do risco percebido pelos investidores e à queda dos preços dos ativos.
Na avaliação do executivo, Flávio Bolsonaro deverá enfrentar pressão de sua própria base de apoio para apresentar propostas que demonstrem compromisso com o equilíbrio das contas públicas. Oliveira lembra que o governo precisa administrar receitas e despesas, mas enfrenta desafios adicionais em razão dos gastos rígidos e dos compromissos permanentes do Estado.
Por isso, mudanças na política fiscal exigem planejamento, negociação e cautela na implementação. O executivo afirma que manifestações e posicionamentos recentes indicam a existência de caminhos em discussão, embora reconheça que o risco de frustração permanece.
Apesar dessa possibilidade, Oliveira considera relativamente baixa, neste momento, a probabilidade de uma reversão mais acentuada, diante da pressão política e econômica por uma agenda fiscal consistente.

Plano econômico ainda tem pontos em aberto

O plano de governo de Flávio Bolsonaro prevê substituir o atual marco fiscal por novas regras para controlar as despesas e estabilizar a relação entre a dívida pública e o PIB (Produto Interno Bruto). 
O documento também contempla a redução de pelo menos dez ministérios, a retomada do programa de desestatização e investimentos de R$ 900 bilhões em infraestrutura ao longo de quatro anos, com participação da iniciativa privada. 
Apesar das diretrizes, o programa não apresenta uma estimativa consolidada da economia gerada pelos cortes nem detalha a origem de todos os recursos previstos para os investimentos. Outro ponto ainda sem definição é a proposta de uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que poderia viabilizar cortes de até R$ 250 bilhões no Orçamento.
Também permanecem questões sobre quais despesas seriam reduzidas, como eventuais desonerações seriam compensadas e quais mudanças dependeriam de aprovação do Congresso.