SBT: Lula promete abrir sigilos e diz que não precisa aprender "com a Faria Lima"

Em sabatina no SBT nesta segunda (19), Lula desafiou Flávio a abrir sigilos e defendeu a tarifa zero financiada por emendas.

Publicado em 19/10/2026 às 21:22h - Atualizado em 19/10/2026 às 21:23h Publicado em 19/10/2026 às 21:22h Atualizado em 19/10/2026 às 21:23h por Matheus Silva
A emissora também convidou Flávio para uma sabatina na quarta-feira (21) (Imagem: Shutterstock)
A emissora também convidou Flávio para uma sabatina na quarta-feira (21) (Imagem: Shutterstock)
🚨 O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, foi sabatinado nesta segunda-feira (19) no SBT Brasil, a seis dias do segundo turno, quando enfrenta o senador Flávio Bolsonaro (PL). 
A entrevista foi conduzida pelas jornalistas Basília Rodrigues, Marina Demori e Simone Queiroz, com retransmissão pelo SBT News. A emissora também convidou Flávio para uma sabatina na quarta-feira (21), mas o senador ainda não confirmou presença.
A conversa foi a terceira grande exposição de Lula na reta final da campanha. Na quinta-feira (15), ele havia sido entrevistado pela TV Globo e, no domingo (18), participou do primeiro debate direto contra Flávio, promovido pela Band. 
Um novo confronto entre os dois está marcado para sexta-feira (23), também na Globo. Abaixo, você confere os principais assuntos tratados no SBT.

Lula diz que esperava vencer no 1º turno

Questionado sobre o desempenho nas urnas em 4 de outubro, Lula reconheceu que esperava um resultado mais favorável, diante das entregas do governo, mas negou ter subestimado a força de Flávio e da direita. Segundo ele, a mobilização popular cresceu depois da votação. 
"O povo está assumindo a responsabilidade da campanha, sobretudo porque o povo quer garantir a continuidade do processo democrático", declarou.
O presidente comparou o cenário atual com o de 2002, quando disputou o segundo turno contra José Serra e ficou frustrado por não vencer na primeira etapa. 
Naquela noite, contou, teve de discursar para levantar o ânimo da equipe. "Eu fui no meu comitê, tinha muita delegação estrangeira, todo mundo de cabeça baixa, eu fui obrigado a fazer um discurso para levantar a moral da minha tropa", relatou.
Desta vez, disse estar mais tranquilo. Lula reconheceu perdas de votos em estados onde a campanha esperava desempenho melhor e afirmou que trabalha para recuperar apoio no Sul, ampliar a mobilização de governadores do Nordeste, vencer em Minas Gerais e reduzir a vantagem de Flávio em São Paulo. 
"Nós podemos ganhar as eleições em Minas Gerais, nós podemos diminuir a diferença aqui em São Paulo e, se isso acontecer, nós ganhamos a eleição", disse.

Presidente nega que medidas recentes tenham objetivo eleitoral

Um dos pontos centrais da entrevista foi a acusação de que o governo anunciou e aprovou medidas populares perto da eleição. Lula rejeitou a leitura e afirmou que as iniciativas dependiam de espaço orçamentário e da tramitação no Congresso.
Sobre o reajuste do Bolsa Família, explicou que a equipe econômica encontrou espaço fiscal para repor a inflação acumulada do programa. 
Segundo ele, os adicionais pagos a famílias com crianças haviam levado o governo a adiar a correção do benefício. "Eu fiquei muito nervoso, porque reposição de inflação é obrigação em qualquer lugar do mundo", afirmou.
Em relação ao Desenrola MEI, Lula disse que o governo identificou quase R$ 15 bilhões em dívidas consideradas irrecuperáveis e decidiu perdoar os débitos de aproximadamente 4 milhões de microempreendedores. 
Também citou a aprovação do aumento do teto de faturamento da categoria. "Eu não vou deixar de dar um benefício que eu posso dar, porque tem eleição", declarou.
O presidente afirmou ainda que os projetos já tramitavam no Congresso e que ele havia pedido a votação antes de 4 de outubro. "Veja, independente do resultado eleitoral, o benefício vai continuar para o povo brasileiro", disse.

"Não preciso aprender responsabilidade com a Faria Lima", diz Lula

Sobre o risco de uma crise fiscal em 2027, Lula rejeitou a avaliação de que o crescimento da dívida e os gastos anunciados possam levar o país a esse cenário. 
Segundo ele, todas as propostas cabem no orçamento. Para sustentar o argumento, citou a previsão de superávit primário de 0,1% e comparou com o déficit de 2,8% que, de acordo com ele, encontrou ao assumir.
O presidente também recorreu ao histórico de seus dois primeiros mandatos, entre 2003 e 2010, quando registrou superávits primários em todos os anos.
"Eu não preciso aprender responsabilidade com a Faria Lima. Responsabilidade eu tenho, porque eu sei, como pai de família, como trabalhador de fábrica que recebe salário, que a gente não pode gastar o que a gente não tem", declarou.
Lula aproveitou para criticar a autonomia do Banco Central, sob o argumento de que o governo precisa participar da discussão sobre política monetária.
"Quem discute? Quem discute? O sistema financeiro. É isso, que faz pressão todo santo dia", afirmou. Ele acusou o setor financeiro de concentrar as cobranças nos resultados fiscais sem debater os valores que o governo paga aos credores da dívida pública.

Fim da escala 6x1 e a resistência empresarial

Questionado sobre a alegação de que teria articulado a redução da jornada sem ouvir o setor produtivo, Lula defendeu o fim da escala 6x1 e disse que toda conquista histórica dos trabalhadores enfrentou resistência empresarial. 
"Toda vez que você teve uma conquista pro povo trabalhador, o mundo ia acabar", afirmou, citando a criação do salário mínimo, da CLT e do 13º salário.
O presidente também criticou a posição que atribuiu à Federação das Indústrias de São Paulo durante a Constituinte de 1946, quando, segundo ele, empresários resistiam à ampliação das férias sob o argumento de que o descanso estimularia o ócio e o consumo de álcool. 
"Eles querem ter 10 dias pra ir pra Paris. E, no caso do povo pobre, eles acham que vai beber", ironizou.

Tarifa zero será financiada com emendas

Lula reiterou que pretende usar recursos de emendas parlamentares para financiar o transporte público gratuito aos fins de semana, mesmo reconhecendo que a ideia deve enfrentar resistência. 
"Vai ser uma briguinha com o Congresso Nacional, mas isso é parte da democracia", declarou. Ele disse acreditar que deputados e senadores aceitarão destinar parte dos recursos ao programa.
O presidente voltou a apresentar a gratuidade como complemento ao fim da 6x1, aprovado pelo Congresso na semana passada. A ideia, segundo ele, é garantir que os trabalhadores possam aproveitar os dois dias de descanso com lazer e convivência familiar. 
"Não adianta você dar dois dias para descansar e não ter dinheiro para sequer ir visitar um parente", argumentou.
Pela estimativa do deputado Jilmar Tatto (PT-SP), presidente da Frente Parlamentar em Defesa da Tarifa Zero, a gratuidade custaria R$ 16 bilhões por ano, o equivalente a cerca de 26% dos R$ 61 bilhões previstos para emendas parlamentares no Orçamento de 2026.

Maioridade penal aos 16 anos e saídas temporárias

Na segurança pública, Lula repetiu o apoio à redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos, lembrando que adolescentes dessa idade já têm o direito ao voto. Disse que essa já era sua posição antes do pleito e negou ter mudado de ideia por causa do primeiro turno. 
"Primeiro, eu acho que nós, seres humanos, temos que ter a capacidade de mudar de opinião quando nós estamos convencidos de que é importante", afirmou.
Sobre as saídas temporárias de presos, defendeu o benefício para condenados por crimes sem violência que tenham bom comportamento, argumentando que a convivência familiar ajuda na ressocialização. 
"Você não pode, por causa de dois ou três, punir centenas ou milhares de pessoas. Nós acreditamos na possibilidade de recuperar", disse. Ressalvou que condenados por crimes graves, como estupro e violência contra a mulher, não devem receber autorização, e que cada caso precisa ser analisado individualmente.

Ministério da Segurança sai do papel após a PEC

Lula defendeu a aprovação da PEC da Segurança Pública para ampliar a participação da União no combate ao crime e integrar as polícias federais, estaduais e municipais. 
Segundo ele, a divisão de responsabilidades da Constituição de 1988 dificulta a coordenação das operações. "Porque você tem polícia que não se conecta, que não conversa", apontou.
O presidente confirmou que criará o Ministério da Segurança Pública logo após a aprovação da proposta, mesmo em caso de derrota no segundo turno. "Qualquer que seja o resultado das eleições, aprovada a PEC, eu vou criar o ministério", garantiu. 
Ele explicou que desistiu de instalar a pasta no início do mandato por ter sido alertado sobre a necessidade de definir antes suas atribuições, e não citou nomes para o cargo.
Lula também anunciou a intenção de dobrar os efetivos da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal para reforçar o patrulhamento das fronteiras e rejeitou o uso das Forças Armadas nessa tarefa. "Quem tem que cuidar é uma polícia especializada", argumentou. 
Outra prioridade é transformar 138 presídios estaduais em unidades de segurança máxima, para impedir que lideranças do Comando Vermelho e do PCC continuem comandando o crime de dentro das cadeias. Segundo o presidente, a medida exigirá recursos adicionais, e a equipe econômica já foi avisada.

Reforma do Judiciário, mandatos para o STF e o caso Messias

Lula voltou a defender uma reforma do Judiciário para mudar os critérios de escolha dos ministros do STF, com mandatos e maior participação da sociedade nas indicações. 
"Para ser ministro da Suprema Corte, a gente vai ter que discutir outro critério para escolher, não pode ser só o presidente da República, eu quero ver se a sociedade participa disso, eu quero que tenha mandato", declarou.
Sobre a indicação de Jorge Messias ao Supremo, negou ter sofrido desgaste político com a resistência ao nome do advogado-geral da União. "Quem teve desgaste foi quem não aprovou, não fui eu", respondeu. 
Lula defendeu a qualificação jurídica de Messias, mas não confirmou se insistirá na indicação e disse que decidirá depois da eleição. 
O presidente afirmou que adotará competência profissional e conhecimento jurídico como requisitos para as próximas escolhas e negou ter pedido favores aos ministros que nomeou. "Nunca pedi um favor ao ministro da Suprema Corte. Nunca pedi e não vou pedir."

Lula reforça desafio a Flávio sobre sigilos bancário e telefônico

No fim da entrevista, o presidente retomou a proposta feita no debate da Band e desafiou Flávio a autorizar a quebra dos sigilos bancário e telefônico dos dois candidatos e de seus familiares. 
Lula disse que as informações devem ser entregues à Justiça para que as acusações de corrupção feitas durante a campanha sejam apuradas. "Estou cansado de falar em corrupção e, terminada a eleição, nada é apurado", declarou.
Segundo o petista, ele e seus familiares estão preparando procurações para entregar ao STF e ao TSE, com autorização de acesso aos dados. "Eu quero que você faça o mesmo, da sua família, você e seus irmãos, e vamos entregar. Vamos deixar investigar para saber aonde é que está a corrupção nesse país", cobrou.
Lula também voltou a acusar Flávio de ter mentido 43 vezes sobre a relação com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, citando encontros entre o senador e o banqueiro. 
No debate de domingo, Flávio disse não ter nada a esconder, mas não confirmou se aceitaria abrir os sigilos nos termos propostos pelo presidente.
📊 A sabatina no SBT encerra mais um dia de forte atividade na campanha. O segundo turno está marcado para o próximo domingo (25), e o último debate antes da votação será na sexta-feira (23), na TV Globo.