Depois de se autodeclarar presidente, Flávio recua e diz que liderará oposição

Senador publicou novas cartas após contestar resultado eleitoral e afirmou que comandará oposição ao governo Lula.

Publicado em 29/10/2026 às 08:43h Publicado em 29/10/2026 às 08:43h por Wesley Santana
Flávio Bolsonaro diz que vai liderar oposição a partir dos EUA (Imagem: Shutterstock)
Flávio Bolsonaro diz que vai liderar oposição a partir dos EUA (Imagem: Shutterstock)

Horas depois de publicar uma carta na qual se autodeclarou presidente eleito do Brasil, o senador Flávio Bolsonaro (PL) recuou. Nas últimas horas desta quarta (28), ele publicou ao menos outros dois textos, sendo que, no último, voltou atrás e disse que vai liderar a oposição ao governo Lula (PT).

Os documentos dizem que ele sofreu um golpe e que teria vencido as eleições que ocorreram no último domingo (25), sem apresentar nenhuma prova. As urnas deram vitória a Lula (PT), que terminou o pleito com cerca de 4 milhões de votos a mais.

“Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos”, escreveu ele.

A primeira carta de Flávio também trazia alguns erros, conforme mostrou a imprensa. O brasão da República trazia o nome “Estados Unidos do Brazil”. Esse era o nome usado pelo país até 1967, quando a Constituição renomeou o país como República Federativa do Brasil.

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“Aos senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger, e em especial ao meu candidato à Presidência do Senado, Rogério Marinho: sei que hoje vocês não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política. Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês não podem dizer, assumirei os riscos que vocês não podem correr”, diz a última versão do texto.

As publicações de Flávio contrariam os próprios partidos da base de sua campanha, que já reconheceram a vitória de Lula. O PL, do qual é filiado, o fez na última segunda, depois que o senador se negou a reconhecer a derrota.

O filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro teria recebido uma autorização para ficar até 1 ano nos Estados Unidos. Ele foi admitido mesmo com seus passaportes cancelados pela Polícia Federal.

Aliados se pronunciam

Logo depois que Flávio publicou as cartas, seus próprios aliados saíram em defesa do resultado já confirmado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, disse que as eleições acabaram e agora é preciso seguir em frente. “O caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”, afirmou ele, reeleito no primeiro turno.

Também em São Paulo, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) ressaltou que é preciso ter serenidade diante do resultado. “A quem ganhou, cabe governar o país para melhorar a economia e a qualidade de vida da população. Assim como cabe à oposição, que teve quase 60 milhões de votos, o papel de fiscalizar”, pontuou.

O senador Rogério Marinho (PL), coordenador da campanha de Flávio, tentou suavizar a mensagem dizendo que houve “algum problema na confecção do texto”.

O ministro Kássio Nunes, presidente do TSE, indicado por Jair Bolsonaro para o STF, também emitiu uma nota sobre o assunto. Ele frisou que as eleições foram realizadas de forma inclusiva e com ampla participação popular.

“Mesmo diante da instabilidade na reta final de votação, graças às medidas adotadas e à competência dos técnicos do Tribunal, foi possível avançar com a apuração e entregar o pleito com segurança. Informo que todos os questionamentos feitos dentro do devido processo legal serão analisados e respondidos”, afirmou.

Houve reação também da oposição ao senador, com senadores e deputados classificando a mensagem de Flávio como golpista.

“O candidato derrotado nas eleições fugiu do Brasil para não enfrentar a Justiça brasileira. Não por acaso, ele buscou abrigo justamente junto a Trump, que atuou abertamente para interferir em nossas eleições”, afirmou uma nota conjunta dos partidos de esquerda.

Já o presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, classificou a mensagem e o comportamento de Flávio como “incompreensível”. “O exercício da oposição numa democracia é tão importante quanto o exercício dos próprios governos. E ele deve se dar em território nacional, fiscalizando os atos do governo e cobrando os compromissos por ele assumidos com a população.”

Trump diz que não vai se envolver

O presidente dos EUA foi quem deu autorização para que Flávio fosse admitido no país mesmo com os documentos cancelados. No entanto, questionado por jornalistas, ele destacou que não deve se envolver nesta questão.

“Não vou comentar isso. Nós demos a ele uma autorização para entrar no país, mas não vou me envolver”, pontuou.

Trump, porém, comentou sobre o dia seguinte às eleições e as repercussões na bolsa de valores. Na última segunda (26), os principais índices recuaram de forma importante, como foi o caso da bolsa de valores, que chegou a cair 16% no acumulado do dia.

“Acho que eles são boas pessoas”, afirmou, em referência à família Bolsonaro. “A eleição foi muito estranha, e achei que foi terrível. Ela tem recebido avaliações ruins. Veja o que aconteceu com o mercado deles”, disse.

Repercussão internacional

Jornais de todo o mundo repercutiram tanto a fuga quanto as cartas emitidas por Flávio. Alguns dos veículos de imprensa classificaram o tom do comunicado como “golpismo”.

No Reino Unido, o The Guardian lembrou que o PL já havia reconhecido a vitória de Lula, mesmo com as alegações de Flávio. “Uma alegação rejeitada pelo tribunal eleitoral, bem como pelos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado”, escreveram.

Nos Estados Unidos, o jornal The New York Times chamou a atenção para a ajuda de Trump. O tabloide destacou que a situação pode agravar as tensões entre os governos do Brasil e dos EUA, que já não estão no melhor momento.

Na Argentina, o Clarín destacou a citação do presidente Javier feita por Bolsonaro na carta. “O governo ajudou na saída de Flávio e sua família, que chegaram por terra em Puerto Iguazú e embarcaram de lá para Guayaquil, no Equador, com destino final em Miami”, disseram.