💊 O movimento visa ampliar a concorrência no setor e facilitar o acesso da população a remédios com preços mais acessíveis e é um reflexo da lei que também liberou a venda de remédios nos supermercados. Por isso, cria um desafio extra para as farmácias brasileiras. Ainda assim, analistas veem um impacto limitado para as
grandes redes farmacêuticas listadas na B3.
"A mudança aumenta a concorrência e deve acelerar a digitalização do varejo farmacêutico. Mas não vejo nesse primeiro momento uma ameaça capaz de provocar uma perda relevante de vendas para as grandes redes listadas na Bolsa", afirmou o especialista em renda variável da Davos, Marcelo Boragini.
A perspectiva se justifica pela cautela adotada pelos órgãos reguladores na abertura do segmento farmacêutico, que acabou mantendo as farmácias e drogarias em uma posição central nesse ecossistema.
O que mudou?
📦 A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)
revogou resoluções e medidas preventivas que proibiam a comercialização e a propaganda de medicamentos por plataformas digitais como o Mercado Livre, mas não permitiu que essas empresas vendessem os remédios diretamente.
A ideia é que farmácias e drogarias licenciadas contratem essas plataformas para fins de logística e entrega ao consumidor, desde que respeitadas as normas sanitárias vigentes.
"As plataformas digitais passam a ter papel maior na logística e na última milha, mas não assumem diretamente a comercialização dos medicamentos. Portanto, as grandes redes continuam preservando vantagens competitivas importantes, principalmente em escala, poder de negociação, capilaridade e relacionamento com o consumidor", explicou o especialista da Valor Investimentos, Pedro Henrique Carneiro.
Impacto nas farmácias da B3
🏥 Diante disso, os analistas acreditam que as grandes redes farmacêuticas não devem perder participação de mercado, mas terão que enfrentar uma concorrência maior, especialmente no que diz respeito a preço e conveniência.
É um movimento que, segundo o especialista da Valor Investimentos, pode pressionar as margens de algumas categorias de medicamentos, mas não deve ser o suficiente para alterar significativamente as projeções de resultados.
O especialista da Davos diz, porém, que essas empresas precisam agir para manter a relevância, o que inclui manter os investimentos em logística para garantir uma entrega própria rápida, utilizar melhor os dados dos clientes para personalizar ofertas e transformar as lojas físicas em pontos de atendimento e prestação de serviços.
"A perspectiva para o setor continua estruturalmente positiva, apoiada pelo envelhecimento da população, o aumento dos gatos com saúde e a expansão dos medicamentos de uso contínuo. Entretanto, a competição tende a ficar mais intensa e o setor tende a migrar para um modelo mais integrado de lojas físicas, aplicativos, programas de fidelidade e entrega rápida", afirmou.
O que o Mercado Livre ganha?
Ainda assim, os especialistas também veem ganhos para as plataformas digitais. Afinal, essas empresas tendem a ganhar espaço em um mercado de vendas recorrentes que segue em crescimento no Brasil.
No caso do Mercado Livre, a expectativa é de um aumento da frequência de vendas e da atração de novos consumidores, o que deve elevar o uso dos serviços de logística e pagamento.
Não à toa, a empresa já havia comprado uma farmácia para entrar nesse setor, por meio de uma operação piloto de venda direta em São Paulo, e agora avaliou positivamente a decisão da Anvisa.
"Implementar o modelo de venda indireta (third party - 3P) de marketplace de farmácias é um avanço significativo para ampliar o acesso a medicamentos para consumidores em todo o país, incluindo regiões com menor cobertura de estabelecimentos físicos", afirmou.
Além do Mercado Livre,
Americanas (AMER3), Shopee, iFood e Rappi Brasil foram beneficiados pela decisão da Anvisa. A medida, porém, ainda carece de uma regulamentação específica para entrar plenamente em vigor.
Na avaliação do BTG Pactual, o iFood é a plataforma que aparece mais bem posicionada para capturar os ganhos dessa novidade, devido à ampla base de usuários frequentes e à infraestrutura consolidada de entregas rápidas, que permite conectar consumidores a farmácias com agilidade e conveniência.
Em nota, o iFood destacou que não tem a intenção de substituir as farmácias, pois pretende apenas conectar estabelecimentos licenciados, consumidores e entregadores por meio de tecnologia especializada.
"A empresa não compra, não estoca nem revende medicamentos. A venda e a dispensação permanecem responsabilidade integral das farmácias parceiras, e o farmacêutico mantém seu papel insubstituível", afirmou o iFood.
E os supermercados?
No que diz respeito à venda de remédios nos supermercados, a exigência regulatória é ainda mais pesada.
A Lei 15.357/2026 exige a criação de um espaço específico para a venda dos medicamentos, além da presença obrigatória de um farmacêutico. Ou seja, não permite a oferta de medicamentos diretamente nas gôndolas.
Por isso, os analistas projetam ganhos para os supermercados que decidirem fazer os investimentos necessários para entrar nessa jogada, a exemplo do
Assaí (ASAI3). Porém, também não veem perda de participação das grandes redes farmacêuticas.
O head de renda variável da Faz Capital, Alexandre Pletes, avalia até que alguns supermercados podem terceirizar esse espaço para as grandes redes de farmácias devido a essas exigências, o que criaria um novo canal de vendas para essas empresas.