🌍 O mercado global de títulos públicos viveu mais uma sessão de forte pressão vendedora nesta quinta-feira (1º). A combinação entre o
petróleo Brent mantido acima de US$ 100 por barril e a preocupação crescente com o endividamento das maiores economias do planeta levou os rendimentos da dívida soberana a níveis que não eram vistos há décadas, com reflexos que podem chegar de forma mais intensa ao Brasil.
O epicentro do movimento esteve nos Estados Unidos. Os rendimentos dos Treasuries, papéis considerados os mais seguros do mundo, renovaram máximas históricas ao longo da manhã.
O título de 10 anos, que serve de referência para financiamentos imobiliários, crédito para veículos e dívidas de cartão, chegou a 5,344%, maior patamar desde abril de 2002. O avanço veio logo depois de o papel registrar, nos três meses encerrados em setembro, a maior alta trimestral deste século.
Na ponta mais longa da curva, o rendimento do título de 30 anos, base para hipotecas de prazo estendido, alcançou 5,593%, também no nível mais elevado desde meados de 2002.
Venda de títulos se espalhou por Europa e Japão
A onda de vendas não ficou restrita ao mercado americano. Na França, o título de 10 anos encerrou o trimestre com o pior desempenho desde 1987, e o rendimento avançou mais 10 pontos-base nesta quinta, para 4,96%, aproximando-se da marca simbólica de 5%.
No Reino Unido, o rendimento dos títulos públicos de 30 anos ultrapassou 6%, o maior nível desde 1998. No Japão, o papel de 10 anos atingiu 3,126%, patamar mais alto em três décadas.
A dívida japonesa, que exerce influência relevante sobre os mercados globais, vem sendo pressionada pela desvalorização do iene e pelas sucessivas altas de juros promovidas pelo Banco do Japão.
Petróleo, Fed e gastos com inteligência artificial alimentaram a turbulência
Por trás da liquidação está o receio de uma nova rodada de pressão inflacionária global causada pela alta da energia, somado à expectativa de juros ainda mais altos nos Estados Unidos.
O barril voltou a rondar US$ 101 depois que a China suspendeu as exportações de derivados de petróleo, enquanto o impasse entre Estados Unidos e Irã segue sem solução para encerrar o conflito no Oriente Médio e reabrir o Estreito de Ormuz.
O mercado já precifica ao menos mais três elevações de juros pelo Federal Reserve até meados de 2027. Para Helen Anthony, gestora de portfólio da Janus Henderson, o tamanho da expansão fiscal americana e o fato de os investimentos ligados à
inteligência artificial parecerem pouco sensíveis ao custo do dinheiro tornam o cenário ainda mais difícil para os Treasuries.
"A onda de títulos globais continua sendo impulsionada em grande parte pelos movimentos dos títulos do Tesouro dos EUA, que mantêm pressão de alta sobre as taxas de rendimento globais e limitam a capacidade do mercado de sustentar qualquer recuperação", afirmou a gestora.
Na prática, juros mais elevados encarecem o financiamento para empresas e famílias e obrigam os governos a destinar uma fatia maior do orçamento ao pagamento de juros. Por isso, os títulos de países com dívida mais alta vêm sendo vendidos com maior intensidade.
Citi coloca Brasil e Colômbia entre os mais vulneráveis da América Latina
É nesse ponto que o movimento ganha relevância para o investidor brasileiro. Segundo o Citi, a disparada recente dos rendimentos de longo prazo nos Estados Unidos pode atingir o Brasil com mais força do que outros mercados latino-americanos. O banco aponta o país, ao lado da Colômbia, como um dos mais expostos à alta das taxas americanas.
Pelos cálculos de Ernesto Revilla, economista-chefe para a América Latina do Citi, México, Colômbia e Brasil apresentam o repasse mais forte e duradouro de um choque nos juros dos Estados Unidos para as taxas domésticas, em uma faixa estimada entre 100 e 170 pontos-base.
Em outras palavras, uma alta prolongada dos Treasuries tende a elevar os custos de financiamento, apertar as condições financeiras e aumentar a pressão sobre economias que já convivem com endividamento elevado e grandes necessidades de captação.
Curva de juros e câmbio sentem o efeito de forma direta
No Brasil, o impacto aparece primeiro na curva de juros futuros. Como os Treasuries funcionam como referência mundial para ativos considerados livres de risco, qualquer avanço nos seus rendimentos eleva o retorno exigido pelos investidores para aplicar em mercados emergentes. Assim, os títulos brasileiros precisam oferecer uma remuneração maior para compensar o risco adicional.
Para o Citi, essa dinâmica preocupa ainda mais no caso brasileiro porque o país combina alta sensibilidade às taxas americanas com desequilíbrios fiscais e externos expressivos.
"Para a América Latina, um aumento das taxas globais dos países centrais é sempre uma preocupação. Os soberanos da região captam recursos tanto no mercado doméstico, em moeda local, quanto internacionalmente, em dólares, e suas curvas de juros são precificadas com referência explícita ou implícita às taxas dos EUA", explicou Revilla.
O câmbio também entra no radar. Com os Treasuries pagando mais, parte dos fluxos internacionais pode migrar para os Estados Unidos, reduzindo a atratividade relativa de moedas e ativos emergentes.
💲 Para o real, esse movimento representa uma fonte adicional de volatilidade e pode dificultar uma eventual trajetória de valorização da moeda brasileira.