Carros elétricos já derrubam vendas de combustível do mercado brasileiro

Segundo o Citi, os carros elétricos deixaram de consumir 700 milhões de litros de combustível no país em um ano.

Publicado em 04/09/2026 às 16:39h Publicado em 04/09/2026 às 16:39h por Matheus Silva
De acordo com o Citi, o volume de combustível deslocado pode chegar a 5 bilhões de litros (Imagem: Shutterstock)
De acordo com o Citi, o volume de combustível deslocado pode chegar a 5 bilhões de litros (Imagem: Shutterstock)
🚗 O avanço das vendas de veículos elétricos e híbridos no Brasil já começou a produzir efeitos mensuráveis sobre o consumo de combustíveis.
Estudo do Citi calcula que, no ano passado, 700 milhões de litros de gasolina e etanol deixaram de ser consumidos no país em razão do uso de veículos eletrificados, volume equivalente a 1% da demanda doméstica em 2025.
Para o banco, a mudança tem caráter estrutural. Considerando crescimento do PIB em torno de 1,8% no biênio 2025-2026, a projeção é de que o consumo de combustíveis do ciclo Otto, que engloba etanol e gasolina, avance a uma taxa próxima de 120% do PIB.
A partir de 2027, porém, a tendência se inverte, com a demanda encolhendo mesmo em um cenário de expansão econômica.

Volume deslocado deve chegar a 9 bilhões de litros em 2040

No cenário considerado mais provável pelo banco, o volume de combustível deslocado pela eletrificação alcança 5 bilhões de litros em 2030, o equivalente a 8% da demanda real. Em 2040, o percentual sobe para 14%, ou 9 bilhões de litros.
"Já tem um impacto no consumo de combustível vindo desses carros eletrificados", afirma Gabriel Barra, analista do Citi e autor do estudo ao lado de Pedro Gama e Pedro Ferreira de Mello. 
Segundo ele, o ponto central da análise é o ritmo atual de penetração dos eletrificados nas vendas brasileiras.

Eletrificados já são 21% das vendas

Os números do mercado dão suporte à tese. Em julho, os emplacamentos de veículos elétricos e híbridos somaram pouco mais de 56 mil unidades, quase o triplo do registrado no mesmo mês de 2025, segundo a ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico). Com isso, a fatia dos eletrificados no total de vendas atingiu 21,1% no mês.
Apesar da participação crescente nas vendas, a penetração na frota circulante ainda é pequena. Ao fim de 2025, os eletrificados representavam apenas 1,3% dos veículos leves em circulação, segundo a consultoria americana Integrate Data Facts.
A queda dos preços é o principal motor do crescimento. Em 2012, quando o primeiro eletrificado importado chegou ao Brasil, esse tipo de veículo custava cerca de 8,5 vezes mais que um modelo a combustão. Hoje, essa diferença caiu para aproximadamente 1,3 vez, segundo cálculos do Citi.
"Aqui no Brasil, o que importa é preço, né? Assim, o carro da mesma categoria, um pouquinho mais barato, vende. Então, isso é tudo que o chinês gosta", resume Edmar de Almeida, professor e pesquisador do Instituto de Energia da PUC-Rio.
O domínio chinês é evidente nos números. Entre os 15 modelos eletrificados mais vendidos em julho, 14 são de montadoras chinesas, respondendo por quase 62,5% das vendas da categoria, conforme dados da ABVE. 
Mesmo com a alta da alíquota do Imposto de Importação para 35% em julho, o Citi não vê a barreira tarifária como obstáculo relevante, dada a existência de cotas para veículos desmontados e semidesmontados e o início da produção local por montadoras chinesas.

Frotas de aplicativos amplificam o impacto por rodarem seis vezes mais

Outro fator que acelera a erosão da demanda é a adoção de eletrificados em frotas comerciais, como táxis e veículos de aplicativos de mobilidade. No modelo do Citi, esses motoristas rodam em média 48 mil quilômetros por ano, seis vezes mais que a média da frota.
"Quando você vê essa penetração pequena, mas numa fatia do consumidor que roda muito com esse carro, esse impacto é muito relevante. Você tem um fator multiplicador, por mais que o percentual da frota seja pequeno, ele acaba sendo amplificado por esse consumo muito maior do que o resto da frota", explica Barra.
Os analistas apontam ainda a estagnação da eficiência dos motores a combustão como elemento adicional. O modelo mais eficiente entre os dez mais vendidos no país fazia cerca de 16 km/l por volta de 2016. 
Atualmente, esse número está em torno de 15 km/l. Considerando a média ponderada dos dez líderes de mercado, a eficiência melhorou cerca de 16% nos sete anos até 2016, mas apenas 2% nos nove anos seguintes.
Estudo do ICCT Brasil sobre descarbonização do transporte rodoviário projeta redução expressiva no consumo de energia entre 2025 e 2050, com quedas de 14,5% em um cenário de eletrificação moderada e de 41,5% em um cenário ambicioso, mesmo com a frota crescendo 27% no período.
"Em todos os estudos que fizemos, a gente cai nesse lugar. Porque, quanto mais tiver penetração de elétrico, o consumo vai ser reduzido", afirma Marcel Martin, diretor-geral do ICCT Brasil. 
Ele pondera, porém, que a transição não representa risco imediato ao setor de combustíveis. "O uso de combustível, seja ele etanol, seja fóssil, ele ainda vai perdurar. Existe uma transição que não é da noite para o dia."

Etanol pode migrar para o mercado de combustível de aviação

Para Edmar de Almeida, da PUC-Rio, o etanol tem alternativas de destino caso o mercado automotivo encolha. "Não acredito que seja um problema a longo prazo porque o etanol tem outros mercados, principalmente o de SAF (combustível sustentável de aviação). Se tiver etanol sobrando, você pode converter isso em combustível de aviação", afirmou.
Procurados, o Sindicom e a Ipiranga preferiram não se manifestar sobre o tema. A Vibra informou acompanhar a evolução da mobilidade no país e reconhecer que a eletrificação terá papel crescente, mas destacou que a dinâmica brasileira deve ser marcada pela convivência entre diferentes tecnologias. 
🔋 "Na visão da companhia, a demanda por combustíveis líquidos continuará relevante nos próximos anos, refletindo as características da frota, da infraestrutura e da matriz energética do país", afirmou a distribuidora, que investe em eletromobilidade por meio da rede de eletropostos EZVolt.