Petrobras (PETR4) ganha força no mercado mundial em meio à guerra, entenda

As maiores produtoras mundiais de petróleo tiveram perdas físicas no conflito e agora projetam quedas da produção, diferente da Petrobras.

Publicado em 14/04/2026 às 07:17h Publicado em 14/04/2026 às 07:17h por Marina Barbosa
Petrobras pode apresentar resultados melhores que seus pares globais no 1T26, segundo analistas (Imagem: Shutterstock)
Petrobras pode apresentar resultados melhores que seus pares globais no 1T26, segundo analistas (Imagem: Shutterstock)

Além de pressionar os preços do petróleo, a guerra no Oriente Médio afetou diretamente a operação de algumas das maiores empresas de petróleo do mundo. Por isso, pode favorecer aquelas empresas que estão longe, ao menos fisicamente, do conflito, como a Petrobras (PETR4).

💣 Diante da guerra, companhias como Saudi Aramco, TotalEnergies (TTE), Shell (SHEL), Exxon Mobil (XOM) e Chevron (CVX) precisaram reduzir suas atividades, seja porque não conseguem escoar a produção pelo Estreito de Ormuz ou porque tiveram instalações diretamente atingidas pelos ataques trocados entre Estados Unidos, Irã e Israel, como refinarias e oleodutos. A Petronas também foi afetada, já que boa parte do petróleo que refina é importado e ficou retido em Ormuz. 

O conflito no Oriente Médio pode, então, reconfigurar o mercado mundial de energia, fortalecendo a procura por fontes alternativas de abastecimento ou por produtores de petróleo que não se veem ameaçados pelo clima de tensão do Oriente Médio, nem pelas incertezas que agora rondam o Estreito de Ormuz.

É o caso da Petrobras, que não teve nenhum dos seus ativos danificados, nem precisou buscar novas rotas comerciais por causa da guerra, e ainda tem elevado a produção de petróleo, por meio do avanço no pré-sal e da exploração de novas fronteiras de exploração.

"Em um mercado global que voltou a precificar o risco geopolítico de forma abrupta, a principal vantagem da Petrobras é justamente aquilo que antes parecia neutro: a sua geografia", comentou a especialista em investimentos e relações internacionais, Maressa Campos.

⛽ Para ela, a Petrobras não se fortalece por ser mais eficiente que seus pares, mas por ser mais previsível em um ambiente onde a previsibilidade se tornou escassa e isso reposiciona o Brasil como um fornecedor alternativo de petróleo. 

Afinal, "em momentos assim, o prêmio não está apenas no preço do barril, mas na capacidade de entregar o barril" e, para a especialista, "poucos ativos combinam petróleo, escala relevante e distância do risco geopolítico como o Brasil".

"Nesse novo equilíbrio, produtores fora de zonas de conflito como Brasil e Estados Unidos passam a carregar um prêmio estratégico. A Petrobras, nesse sentido, ganha relevância como fornecedora confiável em um mundo mais fragmentado", afirmou Campos.

O analista Ilan Arbetman, da Ativa Investimentos, também vê o Brasil despontando como um fornecedor alternativo de petróleo diante das restrições no Estreito de Ormuz, com maior demanda vindo sobretudo da China e da Índia. “Isso melhora o posicionamento comercial da Petrobras no cenário global”, observou.

O impacto nos resultados…

📊 Além de obter uma relevância geopolítica crescente, a Petrobras tem chance de reportar resultados melhores que alguns dos seus pares globais na próxima temporada de balanços.

Afinal, não sofreu destruição de ativos, nem interrupções relevantes de produção, o que preserva sua capacidade de gerar caixa justamente em um momento de preços mais altos de petróleo, explicou Ilan Arbetman.

Companhias como a Shell, por outro lado, já admitiram a possibilidade de entregar resultados mais fracos no primeiro trimestre de 2026, devido aos transtornos trazidos pela guerra.

O analista da Ativa Investimentos lembra, contudo, que a política de preços da Petrobras pode limitar esses ganhos, já que busca amenizar o repasse da volatilidade dos preços internacionais do petróleo para o consumidor brasileiro.

"O ambiente de preços favorece a receita, mas a captura não é integral. A política de preços domésticos retém parte do repasse, o que limita o impacto no lucro. Ainda assim, a Petrobras pode ter desempenho relativamente melhor do que empresas com ativos afetados pelo conflito", explicou.

…e nos dividendos

💰 Por outro lado, um aumento dos dividendos da Petrobras não está garantido, segundo os analistas, já que a estatal também tem um plano de investimentos robusto para este ano eleitoral.

"Só com a persistência do choque de preços haveria margem real para revisão de distribuição [de dividendos]", avaliou Arbetman. "O potencial existe, mas não é automático", reforçou Campos, dizendo que agora tudo depende da governança da estatal.

O diretor financeiro da Petrobras, Fernando Melgarejo, já disse, por sua vez, que a companhia pode distribuir dividendos extraordinários caso os preços do petróleo continuem em patamares elevados.

"Se entendermos que temos um nível elevado de caixa, nós adoraríamos fazer distribuição de dividendos extraordinários, se entendermos que não tem impacto para nossos projetos", disse Melgarejo, no início de março.

Esta também é a expectativa de bancões como o BTG Pactual e o Citi, que revisaram as suas perspectivas para as ações da Petrobras em meio ao conflito. Veja aqui as projeções.

O impacto da guerra nas gigantes do petróleo

Enquanto a Petrobras faz as contas para saber se há espaço para dividendos extraordinários, muitos dos seus pares globais tentam saber se a alta dos preços do petróleo será suficiente para cobrir o prejuízo operacional deixado pela guerra.

Maior produtora mundial de petróleo, a Saudi Aramco foi duramente atingida pelo conflito, já que boa parte das suas instalações está na região bombardeada.

Os ataques atingiram, entre outras coisas, um oleoduto, um campo de petróleo e importantes unidades de refino da Saudi Aramco, como as refinarias de Ras Tanura e Satorp, umas das maiores do mundo.

Com capacidade para processar 550 mil barris por dia, a refinaria de Ras Tanura foi atacada por drones iranianos logo nos primeiros dias do confronto e ficou fechada por cerca de duas semanas.

Já a refinaria Satorp, que processa até 465 mil barris por dia, foi atacada na noite em que Estados Unidos e Irã anunciaram uma tentativa de cessar-fogo. O empreendimento, que é fruto de uma parceria entre a Saudi Aramco (62,5%) e a TotalEnergies (37,5%), teve uma das suas linhas de processamento danificadas e, por isso, foi paralisada.

A TotalEnergies ainda precisou suspender as atividades das instalações offshore mantidas no Qatar, no Iraque e nos Emirados Árabes Unidos. As unidades representam cerca de 15% da sua produção e foram paralisadas em meados de março.

Ainda assim, a TotalEnergies acredita que o aumento do preço do petróleo deve compensar as perdas sofridas na região e diz que o crescimento adicional projetado para este ano está concentrado principalmente fora do Oriente Médio.

Já a Shell admite o risco de produzir menos e apresentar resultados mais fracos no primeiro trimestre de 2026, em decorrência da guerra. Afinal, os ataques atingiram uma das suas principais unidades produtoras de gás -a Pearl GTL, situada no Catar.

A planta tem capacidade para produzir cerca de 140 mil boed (barris de óleo equivalente por dia), mas teve suas atividades reduzidas em meio ao bloqueio do Estreito de Ormuz e precisou ser totalmente paralisada depois de ser atingida por um míssil em 18 de março.

De acordo com a Shell, o incêndio foi rapidamente controlado, não deixou feridos e só atingiu um dos dois trens da refinaria. O equipamento, no entanto, deve levar cerca de um ano para ser totalmente reparado. Diante disso, a companhia já reviu suas metas de produção.

A Shell produziu 948 mil boed no quarto trimestre de 2025 e esperava produzir de 920 mil a 980 mil barris por dia no primeiro trimestre de 2026. Porém, agora prevê a produção de algo em torno de 880 mil a 920 mil barris no período e espera que a alta dos preços do petróleo ajude a compensar as perdas.

A Exxon Mobil também teve instalações danificadas no Catar e nos Emirados Árabes Unidos -região responsável por 20% de toda a sua produção. Por isso, vê a produção caindo 6% no primeiro trimestre, na comparação com os 5 milhões de barris registrados no quarto trimestre de 2025. 

Além disso, a Exxon indicou que algumas cargas ficaram retidas devido ao bloqueio no Estreito de Ormuz. Por isso, admite a possibilidade de resultados mais fracos no primeiro trimestre. Porém, espera lucrar mais nos trimestres seguintes, devido à alta dos preços do petróleo.

A Chevron também projeta um recuo de 6% da produção no primeiro trimestre, pois teve que pausar por mais de um mês a produção do maior campo de gás de Israel, o campo de Leviatã, e admitiu dificuldades no escoamento do petróleo.

O CEO da Chevron, Mike Wirth, disse no final de março que havia "manifestações físicas muito reais" da interrupção do fluxo de petróleo, diante do bloqueio de Ormuz e da consequente redução da produção no Oriente Médio. E alertou que pode levar tempo para essa situação voltar ao normal, mesmo depois da normalização do tráfego em Ormuz.

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