Maior gestora do mundo aposta em renda fixa no Brasil, mas foge da Bolsa; entenda

A BlackRock vê mais oportunidade na renda fixa, impulsionada pela inflação e juros elevados em meio à IA e gargalos de oferta.

Publicado em 02/07/2026 às 15:59h Publicado em 02/07/2026 às 15:59h por Matheus Silva
Para a renda fixa, a gestora recomenda menor exposição aos prazos mais longos (Imagem: Shutterstock)
Para a renda fixa, a gestora recomenda menor exposição aos prazos mais longos (Imagem: Shutterstock)
💰 O Brasil entra no segundo semestre de 2026 entre as preferências da BlackRock na América Latina, mas não pela Bolsa. 
Em um cenário marcado pela abundância prometida pela inteligência artificial e pela escassez gerada pela demanda por produtos e serviços, a maior gestora de recursos do mundo enxerga mais oportunidade na renda fixa, favorecida por pressões inflacionárias e taxas de juros mais elevadas. 
A avaliação foi apresentada por Axel Christensen, estrategista-chefe da BlackRock para a região, nesta quinta-feira (2).
"Brasil e Colômbia oferecem alguns dos maiores retornos reais e possibilidade de uma breve normalização monetária, apesar de os desdobramentos fiscais continuarem críticos", afirmou Christensen. 
A gestora também declarou preferência por oportunidades específicas em cada país, com seleção ativa e exposição temática, em vez de alocações regionais amplas.

BlackRock indica renda fixa de curto prazo

Para a renda fixa, a gestora recomenda menor exposição aos prazos mais longos e maior diversificação entre classes de ativos. 
Além dos Treasuries americanos, a BlackRock cita títulos locais de países emergentes e crédito privado securitizado com garantias como alternativas relevantes. 
Sem mencionar diretamente a NTN-B brasileira, a gestora indica especificamente papéis corrigidos pela inflação em moeda local, descrição que se encaixa com precisão no título público indexado ao IPCA.
A região também é favorecida por um ambiente de desinflação gradual, políticas monetárias com maior credibilidade e uma reformulação das forças globais de crescimento e dos fluxos de capital. Mesmo assim, Christensen prega seletividade, diante da influência simultânea de fatores externos e internos sobre os países da região.

Eleição e credibilidade fiscal são os principais riscos

Entre os riscos locais, o estrategista destaca a eleição presidencial brasileira e a necessidade de demonstrar responsabilidade fiscal como fator decisivo para a atratividade do país junto a investidores externos. 
No campo externo, crescimento global mais fraco, tensões geopolíticas e eventuais apertos nas condições financeiras globais também aparecem como ameaças ao cenário.
Ainda assim, o profissional vê caminhos concretos de crescimento independentemente do resultado das urnas. 
"Independentemente de quem vença a eleição, vemos desafios e oportunidades para o Brasil, entre eles como aproveitar as oportunidades criadas pela maior demanda da IA ou mesmo energia e alimentos, para aumentar o crescimento da economia, e como reduzir o custo de financiamento, para tornar possíveis os investimentos em infraestrutura, que são muito sensíveis às taxas de juros", afirmou.

Infraestrutura e terras raras colocam Brasil no foco

A BlackRock enxerga no Brasil um conjunto de ativos estratégicos que ainda carecem de investimento pesado para gerar retorno. Christensen citou as reservas brasileiras de terras raras e outras matérias-primas como vetores de atração de capital externo. 
"Infraestrutura deve ter um papel crucial na atração de investimentos. Acreditamos que o Brasil deve estar no foco de interesse dos investidores, especialmente em infraestrutura", afirmou.

BlackRock reduz emergentes para neutro

A gestora reduziu nesta semana a recomendação para mercados emergentes de overweight (equivalente a compra) para neutra. 
Segundo Christensen, o movimento serviu para realizar parte dos lucros acumulados no ano passado e no início de 2026, especialmente em Coreia do Sul e Taiwan, países com grande exposição a fornecedores da cadeia de IA. O aumento da volatilidade global também contribuiu para a decisão. 
"Não significa que não gostamos de mercados emergentes, e podemos revisitar essa recomendação, dependendo do cenário", disse.
O estrategista alerta ainda para a concentração excessiva de risco em poucos nomes. Tanto o S&P 500 quanto os índices de mercados emergentes carregam hoje uma parcela relevante de seu peso em poucas companhias ligadas à inteligência artificial. 
📈 "Por isso, temos de mudar nossa abordagem, ir além do modelo tradicional de diversificação e buscar outros ativos. E a América Latina se destaca claramente nessa abordagem, por ser menos impactada pela IA e pelos conflitos geopolíticos, isso a faz ter mais sabor local", concluiu.