De acordo com especialistas, é uma medida que eleva a segurança do mercado e do investidor, mas também pode reduzir a oferta de títulos bancários com taxas super agressivas.
O Banco Master, por exemplo, ficou conhecido por oferecer CDBs com taxas superiores à média do mercado, que por vezes chegavam a 140% do CDI. Porém, colocou boa parte do dinheiro captado dessa forma em ativos de alto risco e ainda liderou o maior esquema de fraude bancária do país.
Resultado: o Master foi liquidado pelo BC (Banco Central) e o FGC teve que desembolsar mais de R$ 40 bilhões para ressarcir os seus investidores, que, ainda assim, ficaram com o dinheiro parado, sem render nada, por quase dois meses. Por isso, as novas regras do FGC tentam evitar que essa história se repita.
O que muda no FGC?
Para garantir que os bancos usem a garantia do FGC de forma prudente, o governo criou um indicador para medir a saúde das instituições financeiras e exigir mudanças caso haja indícios de dificuldades.
💲 É o AR (Ativo de Referência), uma métrica que promete refletir a qualidade, a diversificação e a transparência dos ativos mantidos por essas instituições e, assim, avaliar se elas de fato têm condições de sustentar os retornos oferecidos aos investidores.
Caso usem a garantia do FGC para captar recursos que vão além do seu AR, os bancos terão que direcionar parte desse capital para títulos públicos federais do
Tesouro Direto. Ou seja, acessar um investimento de baixo risco, para ampliar a segurança e a liquidez do seu portfólio.
"Na prática, isso vai fazer com que aquele modelo de crescimento baseado em CDBs sem lastro de qualidade acabe e que o FGC passe a cumprir o seu papel, que é de ser um seguro sistêmico e não um meio de absorver a volatilidade da marcação a mercado de títulos de baixa qualidade", afirmou o planejador financeiro CFP pela Planejar, Carlos Castro.
O impacto no mercado de renda fixa
⚠️ Segundo o planejador financeiro, a mudança vai pôr fim à oferta de CDBs descolados de fundamentos, que tentam atrair os investidores por meio de altas taxas de retorno e garantia do FGC.
"As novas regras aumentam o custo regulatório para os bancos cujas captações crescem de forma desproporcional ao seu patrimônio. Em consequência, pode haver uma redução nos títulos que ofereciam taxas muito acima da média do mercado", acrescentou a especialista em renda fixa da Valor Investimentos, Viviane Las Casas.
Para ela, a medida deve afetar sobretudo
CDBs,
LCIs e
LCAs de instituições que usavam o FGC como principal mecanismo de crescimento, abrindo mais espaço para títulos privados, como
debêntures,
CRIs e
CRAs.
Os especialistas ressaltam, por sua vez, que os bancos de balanço mais robusto devem ser pouco afetados.
"O que sai de cena são casos como o do Banco Master, mas os CDBs de bancos médios bem geridos vão continuar existindo e sendo competitivos. E, quando houver um CDB a 120% ou 130% do CDI, terá lastro real", afirmou Castro.
Recomendações para o investidor
De acordo com especialistas, a mudança aumenta a segurança do investidor, ainda que a cobertura individual do FGC continue a mesma: R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, com um limite de R$ 1 milhão a cada quatro anos.
Ainda assim, a recomendação é de que o investidor siga atento à qualidade dos emissores dos títulos de renda fixa que coloca na sua carteira.
"Mais do que buscar a maior taxa, o investidor deve avaliar a qualidade do banco, a liquidez do investimento e a diversificação da carteira, porque não necessariamente o melhor investimento é o que paga a maior taxa, mas o que oferece o melhor risco retorno", afirmou Las Casas.
"Não é simplesmente sair investindo às cegas porque está respaldado pelo FGC. O investidor precisa olhar se os CDBs que pagam um prêmio de risco maior de fato têm fundamento, qual a instituição emissora e o lastro", reforçou Castro.