Como fazer o dinheiro trabalhar para você?
Publicado em 31/03/2024
A marcação a mercado é um dos conceitos mais importantes para qualquer investidor que aplica em renda fixa, mas também é um dos mais mal compreendidos.
Muitos investidores se assustam ao perceber que um título de renda fixa pode apresentar rentabilidade negativa em determinados momentos, mesmo quando o emissor continua sólido e os pagamentos estão em dia.
Afinal, como um investimento considerado "seguro" pode perder valor?
A resposta está justamente na marcação a mercado. Esse mecanismo atualiza diariamente o preço dos ativos financeiros para refletir as condições atuais do mercado, especialmente as expectativas relacionadas aos juros, inflação e risco de crédito.
Compreender esse conceito é fundamental para evitar decisões precipitadas, interpretar corretamente o extrato da corretora e até mesmo identificar oportunidades de ganho.
A marcação a mercado é o processo de atualização diária do preço de um ativo financeiro com base nas condições vigentes do mercado.
Em outras palavras, ela mostra quanto aquele investimento vale naquele exato momento caso o investidor decida vendê-lo.
Muitos investidores acreditam que a rentabilidade de um título de renda fixa segue sempre uma linha reta até o vencimento. Na prática, isso nem sempre acontece.
Mesmo que um título tenha uma remuneração previamente definida, seu preço oscila diariamente conforme as expectativas dos participantes do mercado.
Essas oscilações refletem fatores como:
Assim, o valor exibido no extrato da corretora representa o preço atual de negociação do ativo e não necessariamente o valor que será recebido no vencimento.
Imagine que você comprou um título prefixado pagando 14% ao ano. Alguns meses depois, os juros da economia caem e novos títulos semelhantes passam a oferecer apenas 11% ao ano.
Nesse cenário, o seu título se torna mais valioso, afinal ele paga uma taxa maior que os novos papéis disponíveis. Naturalmente, investidores estariam dispostos a pagar mais por ele.
O mercado ajusta esse preço diariamente, refletindo essa nova realidade. O mesmo raciocínio funciona no sentido contrário.
Se os juros sobem e novos títulos passam a oferecer taxas mais altas, os títulos antigos ficam menos atrativos e precisam se desvalorizar para continuarem competitivos.
É exatamente essa atualização constante que chamamos de marcação a mercado.
Para entender melhor, imagine a seguinte situação:
Um investidor compra um Tesouro Prefixado com vencimento em cinco anos pagando uma taxa de 13% ao ano.
Após alguns meses, o Banco Central aumenta a Selic e novos títulos semelhantes passam a pagar 15% ao ano. Nesse momento, o título antigo perde atratividade.
Para que ele possa ser negociado no mercado secundário, seu preço precisa cair. O investidor verá essa desvalorização no extrato da corretora.
Entretanto, se ele mantiver o investimento até o vencimento, continuará recebendo exatamente a remuneração contratada originalmente.
A oscilação intermediária não altera a rentabilidade final acordada. É justamente esse ponto que gera confusão para muitos investidores.
Sempre que ocorrem mudanças nas expectativas para a taxa Selic, a inflação ou o risco de crédito, os preços de diversos ativos financeiros são ajustados.
Os preços são atualizados diariamente com base nas negociações realizadas no mercado e em metodologias adotadas por entidades responsáveis pela precificação dos ativos.
No caso de diversos títulos privados, por exemplo, as referências são divulgadas pela Anbima, enquanto os títulos públicos negociados no Tesouro Direto seguem a metodologia de precificação utilizada pelo Tesouro Nacional.
Embora seja frequentemente associada aos investimentos de renda fixa, a marcação a mercado também é aplicada em diversos outros ativos financeiros, como ações, ETFs, debêntures, fundos de investimento e derivativos.
Essa talvez seja a principal dúvida de quem investe em renda fixa, e a resposta depende de uma pergunta simples:
Você pretende vender o título antes do vencimento?
Se a resposta for não, a marcação a mercado representa apenas uma oscilação temporária.
Ao chegar ao vencimento, o investidor receberá a remuneração prevista no momento da aplicação, desde que o emissor honre seus compromissos.
Por outro lado, se houver necessidade de venda antecipada, a situação muda. Nesse caso, o investidor receberá o valor de mercado daquele dia.
Portanto, a marcação a mercado só gera ganho ou perda efetiva quando o ativo é vendido antes do vencimento.
Muitos investidores associam esse mecanismo apenas ao Tesouro Direto, mas a verdade é que diversos ativos são impactados, dentre eles:
Tesouro Prefixado: É um dos títulos mais sensíveis às oscilações de juros. Quanto maior o prazo, maior tende a ser a volatilidade.
Tesouro IPCA+: Além da inflação, esse título também responde às variações das taxas de juros reais da economia. Por isso, costuma apresentar oscilações relevantes.
Debêntures: As debêntures costumam ser bastante sensíveis às mudanças de juros e risco de crédito.
CRIs e CRAs: Esses títulos do mercado imobiliário e do agronegócio também são atualizados diariamente conforme as condições do mercado.
Fundos de investimento: Diversos fundos carregam títulos marcados a mercado em suas carteiras. Consequentemente, o valor das cotas também oscila diariamente.
A Selic é um dos principais fatores que impactam a marcação a mercado no Brasil. Isso acontece porque ela serve como referência para praticamente todos os ativos de renda fixa.
Quando a Selic sobe:
Quando a Selic cai:
Esse movimento é particularmente intenso nos títulos de prazo mais longo.
Por isso, investidores que acompanham ciclos econômicos costumam monitorar atentamente as decisões do Banco Central.
Esse é outro conceito que costuma gerar dúvidas.
Marcação na curva: Na marcação na curva, o investimento é acompanhado considerando apenas a taxa contratada. O rendimento cresce de forma previsível e constante.
Marcação a mercado: Na marcação a mercado, o preço reflete quanto aquele ativo vale hoje para negociação. Ele incorpora expectativas futuras de juros, inflação e risco.
Na prática, a marcação na curva mostra o caminho esperado até o vencimento, já a marcação a mercado mostra a realidade atual do mercado.
No vencimento, ambas convergem para o mesmo resultado, desde que não exista inadimplência ou evento de crédito.
Muitos investidores observam oscilações em fundos de renda fixa sem entender a razão.
Na maioria das vezes, o motivo está na marcação a mercado dos ativos presentes na carteira.
Se o fundo possui:
Os preços desses ativos são atualizados diariamente, e consequentemente, o valor da cota do fundo também varia.
Isso explica por que alguns fundos de renda fixa podem apresentar rentabilidade negativa em determinados dias ou semanas.
Sim. Embora muitos investidores enxerguem apenas os riscos, a marcação a mercado também cria oportunidades.
Imagine que você adquiriu um Tesouro Prefixado pagando 15% ao ano.
Meses depois, a Selic cai significativamente e novos títulos passam a pagar apenas 11%.
Seu título se valoriza. Nesse cenário, pode ser interessante vender antes do vencimento e realizar um ganho relevante.
Muitos investidores utilizam exatamente essa estratégia em ciclos de queda de juros. É uma forma de capturar ganhos adicionais além da remuneração originalmente contratada.
Quando o assunto é marcação a mercado, existem alguns erros clássicos, que precisam ser evitados, dentre eles:
Depende do seu perfil e horizonte de investimento.
Se você pretende manter os títulos até o vencimento e possui uma reserva de emergência adequada, as oscilações temporárias tendem a ser pouco relevantes.
Por outro lado, investidores que podem precisar resgatar recursos antes do prazo devem prestar bastante atenção à marcação a mercado.
Afinal, ela influencia diretamente o valor que será recebido em uma venda antecipada.
Portanto, o segredo não está em evitar a marcação a mercado, mas em compreender como ela funciona e alinhar os investimentos aos seus objetivos financeiros.
A marcação a mercado é um mecanismo fundamental para o funcionamento do mercado financeiro e influencia diretamente a forma como alguns investimentos de renda fixa são precificados diariamente.
Embora possa causar preocupação em momentos de volatilidade, ela não representa necessariamente prejuízo.
Na maioria das vezes, trata-se apenas de uma atualização do valor de mercado dos ativos.
Investidores que compreendem esse conceito conseguem interpretar melhor as oscilações do extrato, evitam decisões emocionais e aproveitam oportunidades criadas pelos movimentos de juros.
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