"Vão tomar um susto": Dono da Cimed promete resultado forte em 2026 e mira futebol

João Adibe afirmou que os números da Cimed em 2026 vão assustar o mercado e descartou patrocinar o Morumbi e o Brasileirão.

Publicado em 08/10/2026 às 16:34h Publicado em 08/10/2026 às 16:34h por Matheus Silva
A Cimed completa 50 anos em 2027 (Imagem: Divulgação/Cimed)
A Cimed completa 50 anos em 2027 (Imagem: Divulgação/Cimed)
💊 Conhecida historicamente pelos medicamentos genéricos e isentos de prescrição, a Cimed decidiu acelerar uma transformação que a coloca na disputa por categorias de consumo dominadas por gigantes globais.
A estratégia levantou dúvidas sobre alavancagem e rentabilidade, mas o presidente e CEO da companhia, João Adibe, garante que os números do ano vão contar outra história.
"Na hora que forem olhar o nosso relatório desse ano, vão tomar um susto", afirmou o executivo em entrevista ao InfoMoney Entrevista, concedida durante a B55 Conference. A declaração foi a resposta a uma das questões que mais acompanharam a empresa nos últimos dois anos, o efeito da expansão para novos segmentos sobre a geração de caixa, as margens e o endividamento.
Na mesma conversa, Adibe também detalhou a ofensiva da Cimed sobre o futebol brasileiro e negou rumores de que a companhia assumiria os naming rights do Morumbi, estádio do São Paulo.

Da farmácia à prateleira de consumo

A mudança de rota da empresa foi profunda. Além dos medicamentos, a Cimed passou a apostar de forma agressiva em higiene pessoal, saúde bucal, suplementos, cuidados infantis, desodorantes e proteção solar. O objetivo é ampliar o mercado endereçável e reduzir a dependência do negócio farmacêutico tradicional.
Segundo Adibe, a decisão foi motivada por um limite estrutural do setor em que a empresa atuava. O mercado farmacêutico disputado pela companhia soma R$ 200 bilhões, mas a Cimed compete em apenas metade dele, cerca de R$ 100 bilhões, já que não trabalha com medicamentos que exigem receita.
"A indústria farmacêutica vive de quebra de patente e a patente não está na minha mão, então como eu cresço na velocidade que eu quero, sem ter mais molécula para desenvolver? Foi aí que decidimos criar essa nova empresa de consumo", explicou. 
O executivo projeta uma ambição de longo prazo para a companhia, que completa 50 anos em 2027. "Quando essa empresa for centenária, será que ela vai ser essa P&G brasileira? É a nossa nova narrativa."

Rebaixamento da Fitch e dívida de R$ 1,9 bilhão

A transformação não passou despercebida. Ao anunciar que disputaria espaço com nomes como Unilever (ULEV34)  e P&G (PGCO34), a Cimed passou a enfrentar questionamentos sobre sua capacidade de sustentar o ritmo de investimentos sem pressionar a estrutura financeira. 
No ano passado, ganhou repercussão a informação de que a companhia carregava uma dívida bruta de R$ 1,9 bilhão.
Na esteira desse movimento, a Fitch rebaixou a nota de crédito da empresa de AA+ para AA, citando o aumento da exposição a mercados mais competitivos e perspectivas de rentabilidade diferentes das registradas historicamente no negócio farmacêutico.
Para Adibe, parte da reação do mercado nasceu da dificuldade de avaliar uma companhia que deixou de ser apenas farmacêutica.
"Quando você se apresenta ao mercado como indústria farmacêutica, está comparando limão com limão. Quando vai comparar limão com Coca-Cola, a diferença é completamente diferente", disse. 
Segundo ele, a entrada em categorias com margens menores do que as dos medicamentos levou o mercado a construir uma visão própria sobre a empresa, que agora estaria sendo contestada pelo desempenho na prática.
O CEO justificou a escolha de enfrentar os gigantes globais pelo tamanho do mercado em jogo. Embora esses concorrentes concentrem 80% das vendas nas categorias em que a Cimed passou a atuar, o mercado total ainda é muito maior do que aquele em que a empresa competia antes.

Caixa forte e capacidade produtiva no limite

Mesmo prometendo surpreender, Adibe reconheceu que 2026 não foi um ano de expansão da rentabilidade. A explicação, segundo ele, está em dois fatores. Do lado farmacêutico, a capacidade produtiva de medicamentos chegou ao limite. Do lado do consumo, o cliente vem priorizando produtos mais acessíveis.
"Geração de caixa muito forte, mas com pouco crescimento. Porque a minha capacidade produtiva de medicamento está no talo, não consigo crescer", afirmou.
"E, nas áreas de consumo, o consumidor busca o produto mais acessível. Então aumenta a unidade, muita volumetria, consigo manter a margem, mas não consigo ter produtos de alta margem para comprovar o crescimento."
Para o executivo, o cenário reflete as dificuldades da economia brasileira, mas também abre espaço para quem conseguir inovar nos momentos de aperto. Ele afirmou ainda que os investimentos realizados nos últimos anos foram executados conforme o planejado, incluindo a compra de uma empresa no ano passado, assumida em 2026.

Uma marca nova por ano, com "DNA do acessível"

A estratégia de consumo da Cimed se apoia no lançamento constante de marcas. Em 2025, a empresa lançou a João & Maria. Em 2026, foi a vez da Super, voltada a cuidados bucais e desodorantes. O próximo passo é a Bronzy, primeira linha de bronzeador com proteção solar da companhia.
"O brasileiro é do protetor solar, o brasileiro não é do bronzeador", brincou Adibe, reforçando que o posicionamento de preço segue um meio-termo. "Não quero ser o primeiro preço, mas também não quero ser o último. Quero ser aquele preço que é a fast fashion do setor."
O CEO citou referências variadas para o modelo de negócio, da cadeia de distribuição da Ambev (ABEV3) ao caráter disruptivo da Virgin, de Richard Branson, passando pela força de marca de Natura (NATU3) e O Boticário.

Futebol vira plataforma de crescimento

A Super está no centro de outra frente estratégica da Cimed, o futebol. Adibe quer transformar a marca no "produto oficial de bens de consumo do futebol brasileiro" e afirma que a companhia já tem relacionamento com Palmeiras, Cruzeiro e Botafogo, além de conversas com outras equipes de grande porte.
"Não tem nada melhor do que a gente estar com todos os clubes dentro desse ecossistema", disse. O plano vai além da exposição nas camisas e prevê o desenvolvimento de produtos licenciados para as torcidas, com divisão de receitas entre a empresa e os times parceiros.
"Queremos criar produtos com os clubes e, por meio deles, os clubes serem remunerados pela torcida, que é tão apaixonada."
Na visão do executivo, poucas plataformas oferecem o nível de fidelidade do futebol. "Você nasce e não muda de clube. Acredito que a fidelidade a um clube no Brasil talvez seja maior até que à religião."
Questionado sobre os rumores envolvendo os naming rights do Morumbi, Adibe negou de forma categórica e classificou esse tipo de investimento como "totalmente fora do objetivo".
O contrato atual do estádio, que leva o nome MorumBis, foi firmado com a Mondelez, dona da marca Bis, em dezembro de 2023, com validade de três anos. O CEO também descartou o patrocínio de campeonatos.

Bets "bateram no bolso" da Cimed, admite o CEO

A estratégia ganhou visibilidade em meio ao debate sobre o espaço que poderia ser deixado pelas empresas de apostas no futebol, mas Adibe nega oportunismo. "Não foi um momento de oportunismo. A gente já estava falando sobre isso", afirmou.
Ao mesmo tempo, o executivo reconhece que as bets afetaram o consumo e os resultados da companhia. "É muito dinheiro. Isso bateu no bolso da Cimed", disse, citando ainda os juros elevados e as mudanças de comportamento provocadas pelas canetas para emagrecimento como fatores de pressão. Embora se declare contrário ao jogo, ele evita críticas diretas ao setor.
"Não sou um cara de jogo. Mas a partir do momento que está regulamentado e é direito de todos, eu não tenho controle."
💰 Sobre fusões e aquisições, Adibe avalia que o momento é complexo, com valuations deprimidos no Brasil, mas enxerga oportunidades justamente nesse cenário. "Na hora que o Brasil decolar de novo, eu já estou em outro patamar. Não vou ficar esperando", concluiu.