O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda poderia adotar medidas econômicas capazes de melhorar a percepção do mercado financeiro antes do segundo turno das eleições, mas recuperar a confiança dos investidores exigiria mais do que anúncios de última hora.
Compromissos verificáveis com o controle dos gastos públicos, uma sinalização clara sobre o comando da política econômica e maior previsibilidade fiscal estão entre as iniciativas apontadas por especialistas como caminhos para melhorar o humor do mercado.
Para André Bobek, consultor financeiro e CEO da Mhydas Planejamento Financeiro, o governo precisaria demonstrar disposição para rever subsídios, controlar despesas e apresentar um orçamento mais consistente. Na avaliação do executivo, entretanto, a principal dificuldade está no desgaste da credibilidade fiscal de Lula após quase quatro anos de mandato.
“Existem medidas que poderiam ser bem recebidas, como compromissos verificáveis de controle de despesas, revisão de subsídios e uma proposta orçamentária mais consistente”, afirma Bobek.
O consultor pondera que uma mudança de discurso às vésperas da votação pode ser recebida com desconfiança por investidores que esperavam avanços estruturais durante o mandato. Por isso, ele considera que medidas efetivamente implementadas e propostas com apoio político para aprovação teriam mais peso do que novas promessas.
Controle fiscal e comando da Fazenda no radar
Na avaliação de Enrico Cozzolino, CEO e estrategista de investimentos da Zermatt Partners, um dos sinais mais relevantes seria a apresentação de um compromisso fiscal concreto para o próximo mandato.
Entre as possibilidades, ele cita a antecipação do nome de um ministro da Fazenda bem avaliado pelo mercado, uma meta clara de controle de gastos e a explicação de como o governo pretende compensar cerca de R$ 42 bilhões em medidas anunciadas recentemente, como o reajuste do Bolsa Família e o Desenrola.
Cozzolino também aponta que evitar acelerar votações com impacto econômico relevante durante a campanha, como a PEC do fim da escala 6x1, poderia contribuir para reduzir as incertezas dos investidores.
O prazo, contudo, representa um obstáculo. Com pouco mais de duas semanas até a eleição, um anúncio econômico pode ser interpretado como uma tentativa de conquistar votos, em vez de um compromisso duradouro com a condução das contas públicas.
Por que uma promessa de última hora pode não funcionar?
O mercado não avalia apenas o conteúdo de uma medida, mas também a possibilidade de que ela seja executada e mantida depois das eleições. Esse é o principal ponto levantado por Rodolfo Oliveira, fundador e presidente do conselho da XR Advisor.
Na visão do executivo, uma iniciativa isolada dificilmente mudaria de maneira significativa a percepção dos investidores, sobretudo porque a confiança depende da coerência entre o discurso e as decisões efetivamente adotadas pelo governo.
“O investidor precisa acreditar que determinada política será mantida e executada, e não apenas anunciada para produzir um efeito positivo momentâneo”, afirma Oliveira.
O executivo avalia que uma sinalização consistente de responsabilidade fiscal exigiria uma mudança mais ampla de direcionamento, acompanhada de compromissos claros e capacidade de execução. Ele também considera que uma eventual guinada nessa área representaria uma inflexão em relação à orientação econômica que tem caracterizado os governos de Lula e de seu campo político.
Credibilidade fiscal influencia juros, câmbio e investimentos
O debate sobre as contas públicas tem consequências que vão além da reação imediata da Bolsa. Segundo Bobek, dúvidas sobre a capacidade do governo de equilibrar receitas e despesas podem aumentar as preocupações com novos impostos, pressionar os juros e gerar instabilidade cambial.
Esse cenário também pode elevar o retorno exigido pelos investidores para aplicar recursos no país e encarecer o financiamento das empresas. Para negócios que dependem de planejamento de longo prazo, a previsibilidade das regras econômicas é especialmente importante.
Bobek ressalta que a análise da Instituição Fiscal Independente (IFI) sobre o orçamento de 2027 continua apontando dificuldades para o cumprimento da meta fiscal e uma perspectiva de aumento do endividamento. Na avaliação do consultor, isso reforça a necessidade de medidas estruturais que coloquem a dívida pública em uma trajetória sustentável.
Embora um anúncio possa provocar uma reação favorável no curto prazo, a continuidade desse movimento dependeria da confiança de que os compromissos serão mantidos após a disputa eleitoral.
O que poderia mudar o humor do mercado?
As avaliações dos três especialistas convergem em um ponto: a recuperação da confiança dependeria de sinais concretos de responsabilidade fiscal, previsibilidade e capacidade de execução.
Antecipar o nome do ministro da Fazenda, estabelecer metas para as despesas e explicar como serão financiadas as medidas anunciadas são alternativas que poderiam contribuir para essa sinalização.
Ainda assim, a possibilidade de uma reação positiva não significa que o mercado passaria automaticamente a apostar em Lula. Para Bobek, o histórico de decisões pesa na avaliação dos investidores, enquanto Oliveira destaca que uma mudança consistente exige mais do que uma iniciativa pontual.
Assim, o desafio do presidente seria demonstrar que eventuais compromissos econômicos não se limitariam à reta final da campanha, mas fariam parte de uma estratégia duradoura para as contas públicas. Em um ambiente de incerteza eleitoral, a credibilidade das medidas pode ser tão importante quanto o conteúdo dos anúncios.