Com a chegada do Dia dos Namorados, o comércio brasileiro entra em uma das épocas mais movimentadas do ano.
Ao mesmo tempo em que vitrines e campanhas incentivam o consumo, especialistas em finanças pessoais reforçam o alerta para que a data não se transforme em um problema para o orçamento do casal, especialmente em um cenário de inflação acumulada de 4,39% em 12 meses.
Dados mais recentes da CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) apontam que o ticket médio previsto para o Dia dos Namorados em 2026 é de R$ 238. A expectativa é de que a data movimente cerca de R$ 22,14 bilhões na economia.
Planejamento financeiro entra no centro da relação
Para Jeff Patzlaff, planejador financeiro e especialista em finanças pessoais, organizar os gastos da comemoração deve ser encarado como um gesto de cuidado dentro da relação.
“Falar de dinheiro em datas românticas pode parecer, à primeira vista, algo frio ou calculista. No entanto, no cenário econômico que vivemos, em que a inflação continua exigindo cautela e os juros se mantêm em patamares desafiadores, o planejamento financeiro é, na verdade, o maior ato de cuidado que podemos ter com o conosco e com quem amamos”, afirma.
Segundo o especialista, antes de definir presentes, jantares ou viagens, o ideal é avaliar todo o orçamento do mês. A orientação é que os gastos da data sejam limitados à verba destinada ao lazer dentro das finanças familiares. Jeff Patzlaff recomenda o método 50/30/20, no qual 50% da renda vai para despesas essenciais, 30% para lazer e 20% para investimentos.
O risco de gastar pela emoção
Dentro dessa lógica, a comemoração deveria consumir entre 5% e 10% da parcela reservada ao lazer. “Estabelecer esse limite é fundamental para evitar o erro mais comum, agir pela emoção e gastar um dinheiro que não se tem”, ressalta.
O alerta ganha ainda mais peso diante do avanço da inadimplência no país. Segundo dados recentes da Serasa, mais de 83,3 milhões de brasileiros estavam negativados em abril de 2026. Para o especialista, transformar uma celebração em dívida pode gerar desgaste prolongado na relação.
Cartão de crédito e compras por impulso exigem atenção
Outro ponto de atenção é o uso do cartão de crédito. Embora seja uma das formas de pagamento mais utilizadas em datas comemorativas, o parcelamento impulsivo pode se tornar um problema em meio aos juros elevados. “Parcelar um presente de Dia dos Namorados cria uma armadilha perigosa, fazendo com que uma lembrança de junho continue pesando no orçamento até o Natal.".
Patzlaff lembra ainda que o crédito rotativo segue entre os mais caros do país, com taxas superiores a 428% ao ano, segundo o Banco Central. “Qualquer imprevisto que leve ao atraso da fatura transforma um simples mimo em uma verdadeira bola de neve”, pontua.
Para quem já enfrenta dificuldades financeiras, o especialista recomenda priorizar a reorganização das contas em vez de assumir novas despesas. “A paz financeira do casal vale muito mais do que o status de um jantar caro, e não há vergonha alguma em optar por um gasto zero, celebrando a data com um encontro caseiro e sincero”, diz.
Na hora de pagar, o PIX pode ajudar a reduzir custos. Segundo o planejador financeiro, muitos lojistas oferecem descontos maiores para pagamentos instantâneos devido à ausência de taxas das maquininhas de cartão. “Use isso a seu favor, pergunte se tem desconto pagando no pix, se a loja te der 5%, 10% ou mais de desconto, você já sai no lucro”, orienta.
Promoções podem esconder armadilhas
Caso o comerciante não ofereça vantagens no PIX, o cartão pode ser interessante para consumidores que utilizam programas de cashback, pontos ou milhas.
Ainda assim, Patzlaff alerta para os gatilhos emocionais. “A pressão comercial pode ser outro desafio dessa época, o varejo utiliza gatilhos de urgência para estimular compras por impulso, e é preciso cautela para não cair em falsas vantagens”, afirma.
Entre as estratégias mais comuns, o especialista cita a chamada “metade do dobro”, prática em que preços são elevados antes da data para simular descontos posteriormente. Por isso, a recomendação é acompanhar o histórico dos valores em plataformas como Zoom e Buscapé antes de concluir a compra.
Outra sugestão é aplicar a chamada “regra das 24 horas”, refletindo antes de finalizar a aquisição. “Se o presente não pudesse ser postado nas redes sociais, ele ainda teria o mesmo valor para você?”, questiona.
Além do controle financeiro, Patzlaff acredita que o Dia dos Namorados pode abrir espaço para conversas mais transparentes sobre dinheiro dentro da relação. “Conversar sobre o orçamento de forma honesta, alinhando expectativas e definindo limites de gastos juntos, fortalece a confiança e o trabalho em equipe”, afirma.
O especialista destaca ainda que alguns casais utilizam contas compartilhadas ou aplicativos de divisão de despesas para facilitar a organização financeira. “Cada casal tem a forma que melhor se entende, o importante é ser justo para que ambos tenham equilíbrio”, diz.
Criatividade pode valer mais que presentes caros
Para surpreender sem comprometer o orçamento, Patzlaff defende que criatividade pode ser mais importante do que presentes caros. “Preparar um jantar a dois, montar uma cesta de café da manhã ou organizar um piquenique substituem o alto custo por tempo e dedicação, entregando muito mais significado”, afirma.
Ao final, o especialista resume que a principal essência da data não deveria estar ligada ao consumo. “A verdadeira celebração está em mudar o foco do ter para o ser, lembrando que o dia 12 é apenas uma data no calendário comercial, enquanto o amor e a parceria são construídos na tranquilidade dos outros 364 dias do ano”.