"Parece uma zona de guerra": Paris volta a ter confrontos após dia de fúria

Os protestos contra o custo de vida deixaram um morto e mais de 2.000 presos na França, e Macron marcou pronunciamento à nação.

Publicado em 18/10/2026 às 17:04h Publicado em 18/10/2026 às 17:04h por Matheus Silva
O Carrefour teve 50 lojas danificadas, 20 delas saqueadas, nos protestos (Imagem: Shutterstock)
O Carrefour teve 50 lojas danificadas, 20 delas saqueadas, nos protestos (Imagem: Shutterstock)
🚨 A tensão voltou às ruas de Paris neste domingo (18), um dia depois de a França enfrentar uma das jornadas de agitação mais violentas dos últimos anos. 
Os protestos contra o alto custo de vida, que no sábado (17) se transformaram em tumultos em diversas cidades, deixaram um manifestante morto, levaram mais de 2.000 pessoas à prisão e resultaram em centenas de lojas saqueadas ou danificadas em todo o país.
Na tarde deste domingo, a polícia voltou a usar gás lacrimogêneo contra manifestantes na Place de la République, um dos pontos mais conflagrados da capital, e bicicletas foram incendiadas na região, sinal de que os ânimos ainda não haviam se acalmado.

Um morto, mais de 2.000 presos e 600 policiais feridos

O balanço do sábado dá a dimensão da crise. Segundo o ministro do Interior, Laurent Nuñez, as forças de segurança realizaram mais de 2.000 prisões em todo o território francês, e mais de 600 policiais ficaram feridos durante os confrontos. 
Em Paris, um manifestante morreu após sofrer uma parada cardíaca em meio aos protestos.
As manifestações reuniram mais de meio milhão de pessoas em dezenas de cidades. A maior parte dos participantes protestou de forma pacífica, mas grupos violentos atacaram prédios públicos, saquearam butiques de luxo e supermercados e investiram contra veículos e policiais.
O cenário impressionou até quem estava apenas de passagem pela capital. "Aqui parece uma zona de guerra", afirmou o empresário holandês Tije De Boer, que viajou a Paris com os filhos para visitar um amigo e precisou deixar o hotel onde estava hospedado, na Place de la République.

Residência de prefeito é invadida

A violência se espalhou por diferentes regiões do país. Em Limoges, no sudoeste, a prefeitura da cidade, um prédio de 143 anos, foi incendiada e amplamente destruída em um ataque criminoso, episódio que gerou comparações com o incêndio que devastou a Catedral de Notre-Dame, em Paris, em 2019.
"Houve uma intenção clara e premeditada de incendiar a prefeitura, e as pessoas que estavam lá dentro temeram por suas vidas", afirmou o prefeito Guillaume Guerin, que ameaçou renunciar caso a cidade não receba os recursos necessários para reconstruir o prédio.
Em Bordeaux, uma multidão mascarada invadiu a residência do prefeito local, Thomas Cazenave, que relatou o saque de até 100 lojas na cidade. 
Em Marselha, o prefeito Benoit Payan anunciou ajuda financeira emergencial às empresas atingidas. Uma grande operação de limpeza teve início em cidades que vão de Lille, no norte, a Marselha, no sul, e de Estrasburgo, no leste, a Bordeaux, no sudoeste.

Carrefour contabiliza prejuízo de milhões de euros

O comércio foi um dos setores mais atingidos. Segundo Nuñez, várias centenas de lojas foram danificadas no sábado. O presidente-executivo do Carrefour, Alexandre Bompard, afirmou à emissora BFMTV que 50 unidades da rede foram atingidas, das quais 20 foram saqueadas, com prejuízos estimados em dezenas de milhões de euros.
O ministro da Economia, Roland Lescure, prometeu apoio aos empresários prejudicados e endureceu o discurso contra os responsáveis. "Quem destruir coisas vai pagar, reparar os danos e ser responsabilizado por sua intenção de semear o caos", declarou.

Governo culpa extrema esquerda

O governo francês atribuiu a violência a grupos de extrema esquerda e de ultraesquerda, além de criminosos que, segundo as autoridades, instigaram os saques. O primeiro-ministro Sébastien Lecornu seguiu a mesma linha.
Na oposição, o líder da extrema direita, Jordan Bardella, afirmou que a França foi "humilhada" e pediu a renúncia do presidente Emmanuel Macron. 
"Estamos pagando por décadas de negligência, perda de autoridade e pelo desarmamento moral, psicológico e material de nossas forças de segurança interna", disse, durante visita a uma delegacia em Paris.
Pressionado, Macron fará um pronunciamento à nação às 20h, no horário local, deste domingo, segundo informou seu gabinete.

Movimento começou nas escolas

Os protestos tiveram origem há cerca de um mês, motivados pelas condições das escolas e pela falta de professores nos subúrbios de classe trabalhadora. 
Com o tempo, o movimento estudantil se uniu a um descontentamento social mais amplo, passando a reunir críticas à desigualdade, aos cortes nos gastos públicos e ao aumento do custo de vida.
Os episódios do fim de semana revelaram a dimensão da insatisfação com Macron, que deixará o cargo em 2027, após uma década no poder marcada por crescente descontentamento social, economia fraca e dívida pública em alta. 
A França também não está sozinha. Mobilizações semelhantes ocorrem em ao menos sete países europeus, com queixas em comum, como escolas sem recursos, aluguéis em alta e governos pressionados a cortar despesas.

Crise amplia pressão antes da eleição presidencial de 2027

O agravamento da tensão social aumenta a pressão sobre o governo francês às vésperas da eleição presidencial prevista para o próximo ano. 
📊 O cenário político já vinha preocupando os mercados. No início do mês, a escalada dos juros dos títulos públicos franceses, impulsionada pelas dúvidas sobre a capacidade do país de reduzir o déficit orçamentário e pela proximidade da disputa presidencial, chegou a empurrar o euro para perto das mínimas em 17 meses frente ao dólar.