Ações argentinas podem subir até 110% se o pessimismo ceder, diz Itaú BBA

O risco-país da Argentina tocou 710 pontos e chegou ao maior nível em um ano, mas o Itaú BBA viu exagero nos preços.

Publicado em 20/10/2026 às 20:18h Publicado em 20/10/2026 às 20:18h por Matheus Silva
Milei acumulou superávit comercial de US$ 26,5 bilhões em 12 meses (Imagem: Shutterstock)
Milei acumulou superávit comercial de US$ 26,5 bilhões em 12 meses (Imagem: Shutterstock)
🚨 A desconfiança dos investidores em relação à Argentina voltou a crescer e levou o risco-país do vizinho ao patamar mais alto em cerca de um ano, trazendo de volta as dúvidas sobre a sustentabilidade da recuperação dos ativos locais.
O indicador EMBI+ da Argentina, calculado pelo JPMorgan, chegou a tocar 710 pontos-base durante o pregão de terça-feira (20), antes de encerrar perto de 672 pontos, ainda próximo das máximas desde outubro de 2025. 
O EMBI+ mede o prêmio que os investidores exigem para comprar títulos de um país em relação aos papéis do Tesouro americano, considerados os mais seguros do mundo.
A piora do humor reflete preocupações com a liquidez do mercado, um cenário externo mais desafiador e as incertezas políticas em torno das eleições presidenciais de 2027.

Itaú BBA afirma que fundamentos não pioraram na mesma proporção

Apesar do nervosismo, o Itaú BBA avalia que a abertura recente dos spreads soberanos não encontra respaldo em uma deterioração equivalente dos fundamentos macroeconômicos. 
Em relatório divulgado nesta terça-feira, o banco apontou que o risco-país argentino está equivalente a 3,4 vezes a média da América Latina, o maior prêmio relativo registrado nos últimos 12 meses.
Os números fiscais e externos ajudam a sustentar o argumento. O governo de Javier Milei acumulou superávit primário equivalente a 0,3% do PIB nos nove primeiros meses do ano, enquanto o superávit comercial chegou a US$ 26,5 bilhões em 12 meses até setembro. 
Há ainda sinais iniciais de estabilização da inadimplência entre as famílias, depois de vários meses de piora.

Atacado em alta e atividade fraca trouxeram mais cautela

Nem todos os dados, porém, foram favoráveis. Os preços no atacado aceleraram em setembro, pressionados pela alta do petróleo e do gás natural, enquanto indicadores de atividade mostraram enfraquecimento da construção civil e da indústria. O índice de confiança no governo também recuou para um dos níveis mais baixos dos últimos três anos.
Segundo o Itaú BBA, as maiores preocupações do mercado estão ligadas à continuidade da agenda econômica depois de 2027, especialmente em temas como disciplina fiscal, abertura comercial e desregulamentação. 
Pesam ainda dúvidas sobre a capacidade do país de recuperar acesso duradouro aos mercados internacionais, reconstruir reservas cambiais e enfrentar um ambiente global menos favorável.

Preços embutem risco-país entre 800 e 1.000 pontos

Na leitura do banco, os ativos argentinos já negociam embutindo um cenário mais negativo do que o sugerido pelos dados disponíveis. As ações operam em níveis compatíveis com um risco-país entre 800 e 1.000 pontos-base, acima do patamar atual. 
Caso os temores mais extremos não se confirmem, haveria espaço para uma compressão gradual dos spreads e uma reprecificação positiva dos papéis.
O relatório projeta ainda um cenário de longo prazo em que o risco-país convergisse para a faixa de 400 a 500 pontos-base, mais compatível com uma economia estabilizada. 
Nessa hipótese, o potencial de valorização das ações argentinas variaria entre 40% e 110%, dependendo do setor e da empresa. Bancos e companhias financeiras aparecem entre os segmentos com maior espaço de recuperação.

Volatilidade deve seguir alta, mas sem sinais clássicos de crise

O Itaú BBA pondera que a volatilidade deve permanecer elevada nos próximos trimestres, comportamento comum em países com classificação de crédito na faixa "B-". 
📊 Ao mesmo tempo, avalia que os desequilíbrios fiscais e externos que normalmente antecedem episódios de forte estresse financeiro não estão presentes no momento, o que sugere que parte do pessimismo atual pode ser exagerada.