Guarani paraguaio amplia queda e se torna a moeda mais desvalorizada do mundo

Crise bancária e política leva divisa a recuar 8,1% na semana; eleições nos EUA também influenciam.

Publicado em 06/11/2026 às 12:07h Publicado em 06/11/2026 às 12:07h por Wesley Santana

O guarani paraguaio continuou em queda ao longo da quinta-feira (5). A moeda do país se descolou das outras emergentes e afundou mais de 4% apenas em um dia, conforme dados do Banco Central.

O pano de fundo é a crise bancária que assola o Paraguai, depois que o BC interveio em uma das principais instituições financeiras do país, o Ueno Bank. A decisão culminou na renúncia do presidente Santiago Peña, que já foi acionista do grupo controlador da fintech. O chefe do Executivo apresentou sua carta e publicou um vídeo nas redes sociais, ampliando a crise também para o campo político.

“Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas”, disse o presidente.

Soma-se a isso o resultado das eleições nos Estados Unidos, que fortaleceu o dólar frente aos mercados emergentes. Com isso, a divisa paraguaia foi a que mais sofreu nos últimos dias entre as principais da América Latina.

Na quinta, o dólar chegou a encostar em 6.500 guaranis, ainda de acordo com o BC. Em termos comparativos, há um mês, a conversão resultava em 5.500 guaranis, ou seja, houve um acréscimo de 1.000 em cerca de quatro semanas.

Já na comparação com o real, a moeda praticamente perdeu toda a valorização que havia registrado depois do segundo turno das eleições. Cada real hoje equivale a cerca de 1.135 guaranis.

Segundo dados da Bloomberg, essa queda forte colocou a moeda como a mais desvalorizada do mundo. Esse cenário se confirma tanto na cotação diária quanto na semana, em que houve recuo de 8,1%.

“Há pessoas que estão se livrando dos guaranis, trocando por dólares e até mesmo retirando seu dinheiro do Paraguai”, disse um analista, em entrevista à Bloomberg. “A forte desvalorização da taxa está ligada à incerteza que paira sobre o processo de impeachment do presidente”, destacou outra.

Luz no fim do túnel?

Ainda não está claro quando e como o guarani pode voltar ao seu patamar considerado normal. No entanto, o mercado espera que o governo devolva os recursos bloqueados para voltar a pensar em fazer apostas no país, que vinha com um dos maiores crescimentos da América do Sul.

O governo de Peña negociou no Congresso a aprovação de uma medida para ativar uma espécie de FGC, que seria responsável pela devolução dos valores. Nesta quinta, um grupo de consumidores já teria começado a receber o ressarcimento de seus recursos mantidos em contas do Ueno.

Uma reportagem da BBC News mostra que há muitos brasileiros na fila para receber. Essa instituição era uma das mais procuradas por quem mudava de país, especialmente em razão da baixa burocracia na abertura de contas.

"Me falaram que estava bloqueado quando tentaram fazer um pagamento para mim. Quando fui ver, não acessava mais nada. Estou muito preocupada pelo meu negócio", disse Renata de Brito, que foi pega de surpresa com a liquidação da fintech, à reportagem.

Alguns analistas fazem uma comparação entre os casos Master e Ueno, mas destacam que são situações diferentes. Enquanto o Master era mais focado em investimentos, a grande parte dos clientes do Ueno eram pessoas físicas, muitas delas de baixa renda.

“O impacto proporcional no Paraguai tende ser significativamente maior e socialmente mais grave que o Master, embora ache que a economia paraguaia não se desestabilizará", analisa o economista Alexandre Barros da Costa. "São bancos que utilizaram dessa proteção financeira do Fundo Garantidor para atrair investimentos e, depois, quando 'quebra', quem arca são bancos sérios do mercado financeiro que aportam dinheiro no fundo. É claro que esses bancos terão que recompor o fundo e podem repassar para os clientes. Então, a sociedade arca sim pela má gestão", termina.

Prejuízo de R$ 200 mil

Nos últimos meses, centenas de brasileiros decidiram cruzar a Ponte da Amizade para tentar a vida no Paraguai. O interesse pelo país cresceu devido a desburocratização, que chama a atenção quem quer empreender, por exemplo.

No entanto, a situação complexa pegou muita gente de surpresa e há brasileiros que afirmam ter pedido até R$ 200 mil. Pedro Temea, de 61 anos, contou ao g1, que teve um prejuízo com o dinheiro que estava em sua conta no Ueno. 

"Como empresa, não colocamos todo o recurso em um único banco. No Paraguai é muito utilizado o alias (sistema de transferência instantânea similar ao Pix), e mantemos duas ou três contas em instituições diferentes para atender clientes de várias regiões, o que evitou um impacto ainda pior", contou à reportagem.