A guerra entre EUA-Irã pode afetar o 1T26 das companhias aéreas brasileiras?

Impacto do petróleo e do dólar deve pressionar custos, tarifas e margens no setor aéreo brasileiro.

Publicado em 05/05/2026 às 15:19h Publicado em 05/05/2026 às 15:19h por Elanny Vlaxio
Para consumidores e investidores, os reflexos devem ser perceptíveis (Imagem: Shutterstock)
Para consumidores e investidores, os reflexos devem ser perceptíveis (Imagem: Shutterstock)
A escalada das tensões no Oriente Médio volta a colocar o setor aéreo global em alerta e, no Brasil, o impacto pode aparecer já nos resultados do primeiro trimestre de 2026.
Com a temporada de balanços se aproximando, investidores acompanham de perto empresas listadas na B3, como a Azul (AZUL3), com balanço previsto para o dia 7. 
Já a Gol, que deixou recentemente a bolsa brasileira, ainda divulga seus números em 8 de maio e segue no radar do mercado. Embora não seja uma companhia aérea, a Embraer (EMBJ3) também entra no radar por sua atuação no setor.

Combustível caro e rotas sob pressão

O principal ponto de atenção está no custo do combustível, historicamente o maior peso no caixa das aéreas. Segundo Tobias Camargo, planejador financeiro CFP, o cenário atual repete padrões vistos em crises anteriores:
"Esse não é um fenômeno novo. Em momentos como a Guerra do Golfo e mais recentemente após a invasão da Ucrânia pela Rússia, o setor aéreo enfrentou choques relevantes de custos, com impacto direto na rentabilidade."
Ele destaca que a alta do petróleo, impulsionada por tensões envolvendo produtores como o Irã, encarece o querosene de aviação e pressiona margens
Além disso, conflitos podem forçar mudanças nas rotas, aumentando tempo de voo e consumo de combustível, movimento que já vem sendo observado em outras partes do mundo, com companhias redesenhando trajetos e, em casos mais extremos, até encerrando operações diante da pressão de custos.
José Aureo Viana, também planejador financeiro CFP, reforça que o impacto vai além do preço do petróleo, já que também pode forçar mudanças nas rotas, aumentando tempo de voo e consumo de combustível. 
"A preocupação com combustível e possíveis interrupções de rotas já entrou no radar das companhias globais, especialmente em um setor no qual o QAV representa uma das maiores despesas operacionais."
No Brasil, o efeito tende a ser ainda mais sensível por conta do câmbio, já que boa parte dos custos, como manutenção e dívidas, é calculada em dólar.

Passagens mais caras e pressão nas margens

Para consumidores e investidores, os reflexos devem ser perceptíveis.
Do lado do passageiro, o aumento de custos pode chegar às tarifas, ainda que de forma gradual, o que também adiciona pressão sobre a inflação, especialmente em um cenário já sensível para preços de serviços.
"Do lado do cliente, o principal efeito é o aumento no preço das passagens, já que as companhias repassam parte da alta de custos, especialmente combustível, para as tarifas., diz Camargo. 
Ele também aponta que ajustes operacionais podem ocorrer, como redução de voos em determinadas rotas. Já Viana destaca que o repasse não é simples.
"As companhias precisam equilibrar tarifa, ocupação dos aviões e sensibilidade da demanda. Se repassam muito rápido, podem perder passageiros; se absorvem parte do custo, pressionam margens."
Para o investidor, o impacto aparece diretamente nos resultados. Margens mais apertadas, maior volatilidade e desafios na geração de caixa, especialmente para empresas mais alavancadas ou com menor proteção cambial.

O que observar nos balanços do 1T26

Com os números do primeiro trimestre prestes a sair, segundo os especialistas, o mercado deve olhar além do crescimento de receita ou do volume de passageiros. A análise tende a ser mais criteriosa em um ambiente de custos elevados.
"O momento pede seletividade. Historicamente, em períodos de choque de petróleo, o mercado passa a diferenciar mais as companhias, premiando eficiência operacional e penalizando estruturas mais alavancadas."
Entre os indicadores-chave, estão custo por assento, receita por passageiro, nível de hedge de combustível, impacto cambial, taxa de ocupação e geração de caixa. O guidance (projeção) das companhias também deve ganhar peso, principalmente em relação a preços, capacidade e custos futuros. 
No fim das contas, o cenário reforça um velho conhecido do setor aéreo que é a dependência de variáveis externas, como petróleo, dólar e geopolítica, que, mais uma vez, prometem ditar o ritmo dos resultados.