Os bancos podem ganhar com o Desenrola 2.0?

O programa é voltado a pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos.

Publicado em 06/05/2026 às 07:15h Publicado em 06/05/2026 às 07:15h por Elanny Vlaxio
O Nubank é uma dos bancos que podem sair ganhando (Imagem: Shutterstock)
O Nubank é uma dos bancos que podem sair ganhando (Imagem: Shutterstock)
O novo Desenrola 2.0 entra em cena com a promessa de reorganizar dívidas e destravar parte do crédito no país, mas, para os bancos, o efeito deve ser mais contido do que parece à primeira vista. Isso porque boa parte desses débitos já estava no radar como de difícil recuperação. “Os bancos ganharão, mas de maneira marginal”, afirma o economista Bruno Corano, CEO da Corano Capital. 
Segundo ele, recuperar ao menos uma parte desses valores pode ser mais vantajoso do que manter créditos com baixa probabilidade de pagamento. O programa ainda conta com garantia do FGO, com recursos que podem chegar a R$ 15 bilhões.
Por outro lado, esse alívio vem com custo. As instituições devem aceitar descontos que variam entre 30% e 90%, além de substituir dívidas antigas por novos contratos com juros limitados a 1,99% ao mês. “Isso melhora a chance de receber, mas reduz o valor econômico original do crédito”, explica Corano. Na prática, o ganho existe, mas não é integral, trata-se mais de recuperação do que de geração de valor.

Quem ganha mais e quando isso aparece

Bancos com maior exposição ao varejo de baixa e média renda, especialmente em produtos como cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal, podem capturar mais recuperação.
Já instituições mais conservadoras ou com carteiras menos expostas a esse tipo de crédito devem sentir efeitos menores. Há também uma diferença de postura, bancos públicos podem ter maior pressão para aderir amplamente ao programa, enquanto privados tendem a ser mais seletivos.
Na leitura do especialista em investimentos Danilo Coelho, o desenho do programa reforça esse recorte.
“Ele foca muito mais no crédito de dependência rápida que as pessoas utilizam para a conta do dia a dia”, afirma. Isso reduz o impacto em linhas de longo prazo, como financiamentos, e desloca os efeitos principalmente para bancos e financeiras. Nesse cenário, instituições menores podem sentir mais pressão, já que têm menos capacidade de diluir riscos de inadimplência.
Apesar da movimentação, os efeitos não devem aparecer de imediato nos balanços. Como o programa foi lançado recentemente, após o fechamento do primeiro trimestre, os impactos tendem a surgir apenas a partir do segundo e terceiro trimestres, caso haja adesão relevante. Até lá, o mercado segue atento para entender se o Desenrola 2.0 será apenas um alívio pontual ou o início de uma nova rodada de ajuste no crédito ao consumidor.

Quem ganha e quem perde na B3

O programa também redesenha o mapa de oportunidades na Bolsa e o impacto não passa despercebido nos preços. De um lado, o setor financeiro tende a capturar algum alívio com a recuperação de créditos considerados difíceis. Bancos como Nubank (ROXO34), Itaú Unibanco (ITUB4), Banco do Brasil (BBAS3), Banco Bradesco (BBDC4) e Santander Brasil (SANB11) aparecem entre os nomes mais expostos a esse movimento.
No outro lado da balança, o impacto já começou a aparecer e em tom negativo. As construtoras foram diretamente pressionadas, com quedas recentes em papéis como Cury Construtora (CURY3), Cyrela Brazil Realty (CYRE3) e MRV Engenharia (MRVE3). O motivo está no uso do FGTS para quitar dívidas, o que pode reduzir recursos disponíveis para financiamento imobiliário, uma peça-chave para o setor.
A pressão, no entanto, não se limita a esses nomes. Empresas com forte dependência do crédito habitacional e maior exposição ao programa habitacional também entram no radar, como Direcional Engenharia (DIRR3), Tenda (TEND3) e Plano&Plano (PLPL3).