Guerra no Irã e bolha da IA frustram expectativas por alta de investimentos em startups

Mesmo com novos unicórnios no radar, startups enfrentam juros altos, guerra e dúvidas sobre o boom da IA.

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Publicado em 15/03/2026 às 08:00h - Atualizado Agora Publicado em 15/03/2026 às 08:00h Atualizado Agora por Wesley Santana
Dúvidas sobre redução dos juros muda ânimo dos investidores de risco (Imagem: IA)
Dúvidas sobre redução dos juros muda ânimo dos investidores de risco (Imagem: IA)

Há cinco anos, as startups estavam surfando na onda dos altos investimentos ao redor do mundo. Em 2021, essas empresas de tecnologia chegaram a captar quase US$ 10 bilhões em financiamentos apenas no Brasil, quando o venture capital bateu recordes. 

Mas os reflexos da pandemia foram bastante prejudiciais para as economias de quase todos os países, que viram a inflação subir e tiveram que aumentar suas taxas de juros para frear os preços. Por aqui, a taxa Selic saltou de 2% ao ano para 15%, patamar no qual vem operando desde o ano passado.

O resultado foi uma restrição de capital bastante forte, que fez com que, em 2024, as startups conseguissem somar apenas US$ 1,8 bilhão em captações. Essa quantia inclui tanto os aportes feitos por fundos de investimento quanto por empresas maiores, no chamado CVC (Corporate Venture Capital).

Desde o fim do ano passado, com a expectativa de taxas de juros menos restritivas ao redor do mundo, as startups começaram a enxergar uma luz no fim do túnel. No Brasil, o ano começou favorável, por exemplo, para a Zapia, que recebeu um aporte de R$ 37 milhões da Prosus (PRXB31), dona de marcas como iFood, OLX e Sympla.

Houve também o caso da fabricante de bioembalagens Growpack, que recebeu um aporte milionário da Irani (RANI3). “A Growpack traz uma proposta alinhada ao nosso propósito de inovar com responsabilidade, combinando tecnologia, sustentabilidade e novos modelos de negócio para o mercado de embalagens”, disse o diretor de Pessoas, Estratégia e Gestão da Irani, Fabiano Alves de Oliveira.

No entanto, há algumas semanas o cenário vem se tornando mais preocupante, com o início da guerra no Irã, que elevou a aversão ao risco, fazendo com que os investidores voltassem a olhar mais firmemente para os ativos conisderados seguros. O corte de juros, que já estava praticamente contratado, passou a ser colocado em dúvida diante da insegurança global, e já não se sabe mais até que ponto o mercado está disposto a apostar em iniciativas inovadoras.

O que continua no radar -ainda que para um grupo restrito de startups- é chegar ao balcão da bolsa de valores, por meio de um novo programa da B3. A companhia lança na próxima semana o Regime Fácil, que facilita a listagem de empresas que tenham uma receita anual de até R$ 500 milhões.

“A negociação das empresas do Fácil acontecerá exatamente no mesmo ambiente das grandes companhias brasileiras, conectadas a investidores de todo o país por meio da nossa infraestrutura, um ambiente regulado, com tecnologia robusta e alto nível de segurança para negociação em tempo real”, comenta Flavia Mouta, diretora de Listagem e Relacionamento na B3.

Para quem ainda não tem fôlego para alcançar a bolsa, a saída tem sido os projetos de crowdfunding, hoje já regulamentados pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários). Plataformas como EqSeed, Kria e Platta funcionam como um mercado de negociação de equity, ampliando as possibilidades de startups menores alcançarem investimentos para financiar suas operações e crescimento. Essas plataformas estão disponíveis tanto para investidores pessoa física quanto jurídica.

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Investidores falam em excesso de capital direcionados a projetos de inteligência artificial (Imagem: Shutterstock)
Investidores globais falam em excesso de capital direcionado a projetos de inteligência artificial (Imagem: Shutterstock)

Bolha da inteligência artificial

Ao mesmo tempo em que enfrentam a incerteza com relação à guerra, as startups têm outro desafio pela frente que é provar seu serviço. Muito do que interliga grande parte dos negócios no setor de tecnologia é o uso da IA (Inteligência Artificial) nas tarefas. 

Em algum momento de sua jornada junto aos usuários, essas empresas lançam mão do recurso para automatizar, agilizar e melhorar a eficiência dos serviços prestados. Mesmo com essa importância, há muita gente que já questiona o real valor econômico dessa tecnologia.

Desde o ano passado, muitos analistas vêm falando sobre uma possível “bolha da IA”, que seria uma espécie de inflação nas avaliações de empresas do setor. Isso é respaldado, por exemplo, pela forte valorização de mercado das big techs, que viram seus valores saltarem de forma exponencial nos últimos anos.

Um dos cientistas mais conhecidos no mundo da IA, Jerry Kaplan, mostrou preocupação com esse movimento. Em evento recente, ele destacou que o montante aplicado neste setor pode ser bastante superior ao observado na última bolha da internet, no fim dos anos 1990.

"Quando [a bolha] estourar, vai ser muito ruim, e não apenas para quem trabalha com IA", disse. "Vai arrastar o restante da economia junto”, pontuou.

A afirmação dele vem do fato de que as empresas que atuam nesse setor não só conseguiram muitos investimentos por meio da compra de ações, como também ampliaram seus empréstimos no mercado financeiro.

Um exemplo disso vem da Alphabet (GOGL34), controladora do Google, que lançou um título com vencimento em 100 anos -praticamente uma exceção no mercado de crédito privado- para financiar seus investimentos em IA.

Até executivos de empresas do setor já concordam que o cenário é atípico, como é o caso de Sam Altman, CEO da OpenAI. "Sim, os empréstimos de investimento são sem precedentes", disse ele recentemente, em resposta a um jornalista. "Mas também é sem precedentes empresas crescerem em receita tão rapidamente”, complementou.

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Novos unicórnios

Apesar desse cenário mais cauteloso para investimentos, o Brasil continua sendo um dos principais polos de inovação da América Latina. Um levantamento feito pela Distrito, publicado na semana passada, mostra que o país lidera quando o assunto é formação de novos unicórnios na região.

Esse é o grupo de startups que atinge valor de mercado acima de US$ 1 bilhão. Ele já foi composto por marcas bastante conhecidas do público, como Nubank (ROXO34), PagSeguro (PAGS34) e VTEX(V2TX34), que hoje têm ações negociadas em bolsa.

Entre as principais candidatas, o banco digital Nomad se destaca depois de ter recebido US$ 117,5 milhões em investimentos em uma rodada Série B. A empresa oferece contas digitais em dólar, com cartão de débito e possibilidade de investimentos diretos na bolsa dos Estados Unidos.

Outro nome citado é o da Omie, que vem sendo apontada há alguns anos como candidata a entrar no clube do bilhão. A empresa oferece sistemas tecnológicos para empresas, integrando diversas funcionalidades em um único software.

A Flash, empresa de cartões de benefícios corporativos, também aparece na lista da Distrito, junto da Celcoin, especializada em infraestrutura de tecnologia bancária via API. Além das brasileiras, startups mexicanas também aparecem com certa regularidade na listagem.

Atualmente, a América Latina possui 48 startups classificadas como unicórnios, espalhadas por diversos setores, com destaque para o segmento financeiro. O Brasil se destaca com o maior número de iniciativas, com marcas como 99, iFood, Loft, Wellhub (ex-Gympass) e Mercado Bitcoin.