Copom não garante novo corte da Selic, mas abre espaço para ajustes maiores; entenda

Copom cortou a Selic para 14,75% e indicou que rumo dos juros agora depende da guerra no Irã.

Publicado em 19/03/2026 às 06:17h Publicado em 19/03/2026 às 06:17h por Marina Barbosa
Copom é formado pelo presidente e pelos diretores do Banco Central (Imagem: Shutterstock)
Copom é formado pelo presidente e pelos diretores do Banco Central (Imagem: Shutterstock)
O Copom (Comitê de Política Monetária) cortou a taxa básica de juros da economia brasileira pela primeira vez em quase dois anos nessa quarta-feira (18), levando a Selic para 14,75% ao ano.
Porém, decidiu adotar uma postura cautelosa diante das incertezas trazidas pela guerra no Oriente Médio. Por isso, não garantiu que o ciclo de corte de juros vai continuar na sua próxima reunião, marcada para os dias 28 e 29 de abril. 
Segundo o Copom, o rumo dos juros vai depender dos desdobramentos do conflito, sobretudo da profundidade e da duração da guerra, assim como dos seus efeitos sobre os preços. 
"No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo", diz o comunicado do Copom. 

Para onde vai a Selic? 

Com esse discurso, o Copom garantiu que terá todas as opções disponíveis na sua próxima reunião. Ou seja, poderá seguir cortando a Selic no mesmo ritmo ou de forma mais intensa, mas também poderá pausar os cortes ou até voltar a elevar os juros.
Ainda assim, o mercado avalia que um novo corte juros parece o caminho mais provável para abril, caso não haja grandes mudanças no cenário. A dúvida é se será um novo ajuste de 0,25 ponto percentual, que levaria a Selic para 14,50%, ou um corte mais robusto, de 0,50 ponto percentual, que colocaria os juros em 14,25%.
Analistas explicam que, apesar de reconhecer que as incertezas sobre as expectativas de inflação subiram "consideravelmente" com a guerra, o Copom também ressaltou o peso dos juros altos na economia brasileira. 
Para o Copom, há "evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica". Por isso, o comitê não só julgou apropriado dar início ao ciclo de corte de juros mesmo diante desse cenário, como também indicou indicou que podem surgir condições para que o ritmo desse ajuste seja calibrado. 

O que dizem os analistas?

”Isso sugere, em nossa visão, que o plano de voo do Copom contempla cortes da taxa Selic de 0,25 p.p. ou mais nas próximas reuniões", disse a XP, que projeta um arrefecimento das tensões geopolíticas e, por isso, um corte de 0,50 ponto percentual dos juros em abril.
"O Copom parece ter atribuído importância limitada ao recente choque nos preços do petróleo (até o momento) e permaneceu confiante de que a inflação está convergindo para a meta. Assim, a 'barra' parece alta para que o Comitê deixe de cortar a taxa Selic novamente em abril", explicou a XP.
A casa reconhece, contudo, que este plano pode mudar caso haja uma piora adicional do cenário inflacionário. "O monitoramento dos preços do petróleo, da taxa de câmbio e, particularmente, das expectativas de inflação será fundamental nas próximas semanas", observou.
Analisando o comunicado do Copom, o Itaú BBA também ficou com a "percepção de que o Copom está inclinado a acelerar o ritmo de cortes na próxima decisão, em 29 de abril, caso as condições permitam". Porém, lembrou que a ata, com os detalhes da reunião dessa quarta-feira (18), trará novas evidências sobre os planos do comitê.
Já a Austin Rating projeta um corte de 0,25 ponto percentual da Selic em abril. A avaliarão é de que o Copom "manterá postura ainda mais conservadora nas próximas reuniões e aguardará dados mais sólidos sobre o efeito do conflito na atividade econômica doméstica e na taxa de inflação".
A Austin lembra que essa cautela já pesou sobre a decisão do Copom dessa quarta-feira (18). Afinal, antes do conflito no Oriente Médio, a expectativa era de que o ciclo de corte de juros começasse de forma mais agressiva, com a Selic caindo para 14,50% e não 14,75%. O corte de 0,50 ponto percentual foi descartado por causa do impacto da guerra nos preços do petróleo, o que já levou à alta do diesel e pode pressionar o custo de outros produtos no Brasil. 
A Ativa Investimentos também vê a Selic caindo para 14,50% em abril. Porém, diz que o ritmo de corte de juros pode acelerar a partir de junho, em caso de alívio dos efeitos econômicos da guerra do Irã. "Afinal, se o BC reduziu os juros mesmo diante das atuais incertezas, é razoável projetar uma aceleração mais aguda frente a uma eventual atenuação do conflito", diz.