Banco Central corta Selic a 14,75% ao ano neste Copom, mas mercado queria mais

No início de 2026, mais de 70% dos investidores precificavam que a taxa básica cairia para 14,50%.

Publicado em 18/03/2026 às 18:39h Publicado em 18/03/2026 às 18:39h por Lucas Simões
Desde julho de 2025, a taxa Selic estava em 15% ao ano e o BC dá leve alívio (Imagem: Raphael Ribeiro/Banco Central)
Desde julho de 2025, a taxa Selic estava em 15% ao ano e o BC dá leve alívio (Imagem: Raphael Ribeiro/Banco Central)
O Comitê de Política Monetária (Copom) cortou a Selic Meta para 14,75% ao ano nesta Super Quarta, dia 18 de março de 2026, ocasião em que o Federal Reserve optou por manter os juros básicos nos Estados Unidos inalterados. Não foi bem o que o mercado financeiro queria.
Até as negociações dos Contratos de Opções de Copom foram eficientes em prever, com 25% das apostas apontando que a taxa Selic só cederia os confirmados 25 pontos-base do patamar elevadíssimo de 15% ao ano, o maior nível desde 2006. No início do ano, esse cenário era pouquíssimo precificado, cerca de 3% dos agentes do mercado botavam fé.
Nem o presidente do Banco Central do Brasil (BC), Gabriel Galípolo, esperava que a primeira redução da taxa básica de juros brasileira se daria em um ambiente macroeconômico tão conturbado, especialmente por conta da guerra no Irã que tem provocado a disparada dos preços do petróleo no mundo.
Pouco depois do Ano Novo, o clima que dominava a Faria Lima era de que o primeiro corte da taxa Selic seria de 50 pontos-base (mais de 70% do mercado aposta nisso em Opções de Copom), trazendo os juros básicos para 14,50% ao ano de cara e dando o tom para o início do ciclo de afrouxamento monetário.
Só que as investidas militares do presidente americano Donald Trump, primeiro na Venezuela, e mais recentemente no Irã, não estavam no radar dos investidores. E foi justamente esse acirramento das tensões geopolíticas, culminando em possíveis choques inflacionários, que dificultam a vida dos bancos centrais mundo afora. 
O Brasil não saiu imune. Tanto que o próprio Tesouro Nacional vem agindo diretamente no mercado de renda fixa, recomprando massivamente os títulos de dívida emitidos pelo governo como forma de puxar para baixo à força os juros compostos exigidos pelo mercado, destravando intensos lucros com marcação a mercado no Tesouro Direto. Nesta semana, foram recomprados quase R$ 50 bilhões em papéis Tesouro Prefixado e Tesouro IPCA+, a maior intervenção da história em valor nominal. 

Comunicado do Copom em março de 2026

O ambiente externo tornou-se mais incerto, em função do acirramento de conflitos geopolíticos no Oriente Médio, com reflexos nas condições financeiras globais. Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities.

Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores segue apresentando, conforme esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra sinais de resiliência. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes seguiram apresentando algum arrefecimento, mas mantiveram-se acima da meta para a inflação.

As expectativas de inflação para 2026 e 2027 apuradas pela pesquisa Focus permanecem em valores acima da meta, situando-se em 4,1% e 3,8%, respectivamente. A projeção de inflação do Copom para o terceiro trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,3% no cenário de referência.

Os riscos para a inflação, tanto de alta quanto de baixa, que já se encontravam mais elevados do que o usual, se intensificaram após o início dos conflitos no Oriente Médio.

Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se 

(i) uma desancoragem das expectativas de inflação por período mais prolongado;

(ii) uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada em função de um hiato do produto mais positivo; e

(iii) uma conjunção de políticas econômicas externa e interna que tenham impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, por meio de uma taxa de câmbio persistentemente mais depreciada.

Entre os riscos de baixa, ressaltam-se

(i) uma eventual desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada do que a projetada, tendo impactos sobre o cenário de inflação;

(ii) uma desaceleração global mais pronunciada decorrente do choque de comércio e de um cenário de maior incerteza; e

(iii) uma redução nos preços das commodities com efeitos desinflacionários.

O Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros, reforçando a postura de cautela em cenário de maior incerteza.

Os indicadores do final de 2025 mostraram desaceleração na atividade econômica, enquanto o cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho.

O Comitê considera os impactos dos conflitos no Oriente Médio de forma prospectiva, em particular seus efeitos sobre a cadeia de suprimentos global e os preços de commodities que afetam direta e indiretamente a inflação no Brasil.

Nesse momento, as projeções de inflação apresentam distanciamento adicional em relação à meta no horizonte relevante para a política monetária.

Ao mesmo tempo, a incerteza acerca dessas projeções foi elevada consideravelmente, em função da falta de clareza sobre a duração dos conflitos e de seus efeitos sobre os condicionantes dos modelos de projeção analisados.

O Comitê julgou apropriado dar início ao ciclo de calibração da política monetária, na medida em que o período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica, criando condições para que ajustes no ritmo dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis de forma a assegurar o nível compatível com a convergência da inflação à meta.

O Copom decidiu reduzir a taxa básica de juros para 14,75% a.a. e entende que essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante.

Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego.

No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços ao longo do tempo.

Votaram por essa decisão os seguintes membros do Comitê: Gabriel Muricca Galípolo (presidente), Ailton de Aquino Santos, Gilneu Francisco Astolfi Vivan, Izabela Moreira Correa, Nilton José Schneider David, Paulo Picchetti e Rodrigo Alves Teixeira.