Depois de 25 anos, acordo do Mercosul com União Europeia finalmente sai do papel

Acordo foi assinado no Uruguai, na reunião de Cúpula do Mercosul

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Publicado em 06/12/2024 às 11:06h - Atualizado 3 meses atrás Publicado em 06/12/2024 às 11:06h Atualizado 3 meses atrás por Wesley Santana
Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, durante pronunciamento (Imagem: Shutterstock)
Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, durante pronunciamento (Imagem: Shutterstock)

Nesta sexta-feira (6), finalmente foi assinado o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia. O trato vinha sendo negociado há exatos 25 anos, mas teve seu anúncio durante a reunião de Cúpula do Mercosul, realizada em Montevidéu, no Uruguai.

✍ Além dos presidentes dos países que compõe o bloco sul-americano, participou do evento a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. “Este é um acordo ganha-ganha, que trará benefícios significativos para consumidores e empresas, de ambos os lados. Estamos focados na justiça e no benefício mútuo”, destacou ela.

O acordo entre os dois blocos econômicos já nasce com um dos maiores do mundo por englobar mercados com mais de 750 milhões. Ainda não foram detalhadas as minúcias do tratado, mas um dos principais pontos do texto é a redução ou isenção de tarifas para exportações feitas entre países-membro.

A assinatura acontece em um momento de tensão em vários países da Europa, que se mostram contrários ao acordo. A justificativa é que ele pode atrapalhar as exportações em razão da concorrência sobretudo no campo do agronegócio.

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No entanto, Ursula afastou essa possibilidade em publicação feita na rede social X (antigo Twitter): “ambas as regiões se beneficiarão”, comentou a líder europeia.

Em âmbito doméstico, é uma importante vitória para o governo Lula que consegue tirar do papel o acordo depois de tanto tempo. As negociações avançaram por seus dois primeiros mandatos, até serem concluídas neste 2024.

"No aspecto econômico, o acordo vai aumentar o acesso brasileiro ao mercado europeu, principalmente na área de commodities, e também vai abrir o mercado brasileiro para alguns produtos europeus, como indústria farmacêutica, setor de veículos e também serviços. Então, há um potencial ganho também para o consumidor em geral, que deve ter à sua disposição produtos importados mais baratos", pontua Carolina Pavese, doutora em Relações Internacionais pela London School of Economics, em entrevista à BBC Brasil.

Presidentes dos países do Mercosul junta da líder da Comissão Europeia, no Uruguai (Imagem: Shutterstock)

Próximos passos

Apesar de já assinado, a vigência do acordo não é imediata, alertam os analistas em Economia Internacional. O primeiro passo é ser analisado e aprovado pelos parlamentos de todos os países que compõe o Mercosul, hoje formado por Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai. Na Europa, deve passar por análise do Conselho de Ministros da UE e também do Parlamento Europeu.

O avanço pode ser dificultado justamente nesta última etapa, considerando que a França deve se esforçar para bloquear a tramitação. O país não tem maioria no parlamento para cancelar o acordo, mas conta com apoio de vizinhos como Polônia, Itália e Áustria, o que pode dificultar o processo.

Analistas dizem que o acordo chega em momento crucial para o comércio global, ameaçado pelas políticas protecionistas de Donald Trump. Eleito para um novo mandato nos Estados Unidos, o presidente já prometeu impor tarifas para produtos estrangeiros que cheguem ao país, hoje principal economia do mundo.

"Esses países estão com medo do fator Trump e, também, com relação ao poder de países como China e Rússia na América do Sul. Para a Alemanha, por exemplo, o acordo é uma forma de ampliar ou manter a influência da Europa na América do Sul em um contexto de crescente influência da China e da Rússia", destacou Cairo Junqueira, professor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe (UFS), à reportagem.