Spread Bancário: como funciona e por que é tão elevado no Brasil?

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Publicado em 28/08/2025 às 12:37h - Atualizado Agora Publicado em 28/08/2025 às 12:37h Atualizado Agora por Carlos Filadelpho
Spread Bancário - (Imagem: Shutterstock)
Spread Bancário - (Imagem: Shutterstock)

Spread bancário é um dos termos mais importantes do sistema financeiro, mas ainda pouco compreendido. Em resumo, representa a diferença entre os juros que o banco paga para captar dinheiro e aqueles que cobra ao emprestar esse mesmo recurso.

Embora pareça simples, o tema envolve diversos fatores econômicos, regulatórios e estruturais que impactam diretamente no custo do crédito, na rentabilidade dos bancos e até no crescimento da economia de um país.

No Brasil, o spread bancário historicamente figura entre os mais altos do mundo, o que levanta debates constantes sobre seus efeitos no consumo, no endividamento das famílias e na competitividade empresarial.

Para o investidor, compreender como funciona também é crucial, já que o spread influencia indicadores financeiros, a atratividade de setores da Bolsa e o desempenho de grandes instituições financeiras listadas, como Itaú (ITUB4), Bradesco (BBDC4) e Banco do Brasil (BBAS3).

Neste artigo, você vai entender em detalhes o que é o spread bancário, como ele é formado, qual seu impacto no mercado, como se comporta em outros países e os principais motivos que explicam sua elevação no Brasil.

O que é spread bancário?

De forma objetiva, o spread bancário é a diferença entre a taxa de juros cobrada em operações de crédito (empréstimos e financiamentos) e a taxa de juros paga pelo banco para captar recursos junto a investidores e clientes.

Em termos práticos, é como se fosse a “margem de lucro” do banco em operações de intermediação financeira.

A fórmula é simples:

Spread = Taxa de empréstimo – Taxa de captação

Por exemplo, se um banco paga 15% ao ano para remunerar investidores em CDBs e cobra 25% ao ano em empréstimos consignados, o spread é de 10 pontos percentuais.

Essa diferença corresponde ao ganho bruto da instituição, que depois ainda será ajustado por custos administrativos, impostos, riscos de inadimplência e exigências regulatórias.

Como os bancos ganham dinheiro com o spread

Para entender o spread, é importante compreender como os bancos operam: eles captam recursos e depois os emprestam.

  • Captação de recursos: Ocorre por meio de depósitos à vista, depósitos a prazo, poupança e emissão de títulos, como CDBs, LCIs e LCAs.
  • Empréstimos e financiamentos: Representam a aplicação desse capital junto a pessoas físicas e jurídicas, em produtos como crédito pessoal, financiamento de veículos, crédito consignado, financiamento imobiliário, capital de giro para empresas, entre outros.

Além do ganho com o spread, os bancos também faturam com serviços e tarifas (anuidade de cartões, taxas de administração, corretagem, câmbio etc.), mas a intermediação financeira ainda é a principal fonte de receita.

Outro indicador importante relacionado ao spread é a NIM (Net Interest Margin), ou Margem Líquida de Juros, que mede a rentabilidade líquida obtida pelos bancos com suas operações de crédito.

Quanto maior a NIM, maior a eficiência da instituição em gerar lucro sobre o volume de recursos administrados.

Como o spread bancário é composto?

Embora muitas pessoas pensem que o spread é apenas “lucro puro” dos bancos, a realidade é mais complexa. No Brasil, a composição do spread inclui diversos fatores:

1.Inadimplência: Parte do spread cobre o risco de calote. Como milhões de brasileiros enfrentam dificuldades financeiras, os bancos embutem essa perda potencial nas taxas.

Na prática, quanto maior o índice de inadimplência enfrentado pelos bancos, maior tende a ser o spread.

2.Lucro dos bancos: Naturalmente, uma parte significativa do spread é destinada ao lucro das instituições financeiras.

No caso dos grandes bancos brasileiros, a rentabilidade elevada é frequentemente alvo de críticas, mas também reflete a baixa competição no setor.

3.Impostos e encargos: Tributos como IRPJ, CSLL, PIS, COFINS e IOF aumentam o custo das operações e acabam repassados ao cliente final.

4.Depósito compulsório e exigências regulatórias: O Banco Central determina que os bancos mantenham parte de seus depósitos retidos como compulsório, o que reduz a liquidez disponível para empréstimos. Esse custo também é repassado ao spread.

5.Custos administrativos: Agências, tecnologia, salários e despesas operacionais entram na conta do spread. Por isso, bancos digitais e fintechs, com estruturas mais enxutas, conseguem oferecer taxas mais competitivas em determinados nichos.

O efeito do spread bancário na economia

O spread bancário exerce impacto direto na economia de um país. Quando ele é muito elevado, o crédito se torna caro e inacessível para grande parte da população e das empresas. Isso gera:

  • Redução no consumo das famílias;
  • Menor investimento produtivo das empresas;
  • Aumento do endividamento;
  • Desestímulo à formalização e ao empreendedorismo.

Por outro lado, quando o spread é mais baixo, há expansão do crédito, estímulo à atividade econômica e maior inclusão financeira.

No Brasil, a relação entre spread bancário e a taxa Selic é fundamental. A Selic funciona como o “piso” das taxas de juros no mercado.

Porém, mesmo em períodos de Selic baixa, o spread se mantém elevado, o que mostra que existem outros fatores estruturais além do custo de oportunidade.

Spread bancário no mundo

Segundo dados do Banco Mundial, a média global do spread bancário em 2017 era de cerca de 5,74%. Em comparação, o Brasil chegou a registrar spreads acima de 40%, figurando entre os maiores do mundo.

Em países desenvolvidos como Japão e Estados Unidos, o spread costuma ficar abaixo de 5%, reflexo de maior concorrência bancária, sistemas jurídicos mais eficientes para recuperação de crédito e menor carga tributária.

Já em países da África e América Latina, como Madagascar e Zimbábue, o spread também se mostra elevado, geralmente associado a riscos políticos, econômicos e de inadimplência.

No caso brasileiro, mesmo com reduções nos últimos anos, o spread ainda permanece três vezes maior que a média mundial, um dos maiores obstáculos para a democratização do crédito.

Por que o spread bancário é tão alto no Brasil?

Por que o spread bancário é tão alto no Brasil? - (Imagem: Shutterstock)

Embora o spread seja um fenômeno presente em qualquer país do mundo, no Brasil ele é historicamente mais elevado. Entre os principais fatores estão:

1.Concentração bancária

O sistema bancário brasileiro é extremamente concentrado. Os cinco maiores bancos – Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa Econômica e Santander, controlam cerca de 80% do crédito no país.

Com pouca concorrência efetiva, essas instituições têm maior poder para definir taxas de juros, mantendo spreads mais elevados sem perder clientes em grande escala.

Ainda que fintechs e bancos digitais venham crescendo, o volume de crédito concedido por eles ainda é pequeno quando comparado ao dos grandes bancos. Isso limita a pressão competitiva sobre os spreads.

2.Alta inadimplência

Outro motivo estrutural é a inadimplência elevada. No Brasil, milhões de famílias vivem endividadas e têm dificuldades para honrar compromissos financeiros.

Segundo relatórios da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), mais de 70 milhões de brasileiros estão inadimplentes, o que representa impressionantes 42% da população adulta.

Isso obriga os bancos a embutirem no spread um “prêmio de risco” mais alto para compensar possíveis calotes. Entretanto, o círculo vicioso é claro: juros altos aumentam a inadimplência, e a inadimplência justifica juros ainda mais altos.

3.Carga tributária

O sistema tributário brasileiro impacta diretamente o spread. Os bancos pagam uma série de impostos sobre suas receitas e lucros, como:

  • IRPJ e CSLL, sobre o lucro;
  • PIS e COFINS, sobre o faturamento;
  • IOF, que incide diretamente nas operações de crédito.

Esses custos são repassados ao consumidor final. Em países com menor carga tributária, a diferença entre taxas de captação e de empréstimos tende a ser menor.

4.Crédito direcionado

Outro fator pouco discutido é o crédito direcionado. Programas do governo, como crédito rural, financiamento habitacional e linhas do BNDES, consomem grande parte do crédito nacional. Com isso, sobra menos espaço para o crédito livre, pressionando os juros para cima nesse segmento.

Esse fenômeno faz com que as famílias e pequenas empresas, que não têm acesso a linhas subsidiadas, acabem pagando spreads mais elevados.

Impactos do spread bancário no Brasil

O spread significativamente elevado tem efeitos práticos na vida de milhões de brasileiros e na competitividade do país.

Para as famílias

  • Dívidas caras: Empréstimos pessoais e rotativo do cartão de crédito chegam a ultrapassar 300% ao ano.
  • Baixa inclusão financeira: Muitas pessoas não conseguem acessar crédito formal e recorrem a soluções alternativas, como o crediário informal, geralmente ainda mais caro.
  • Menor poder de compra: Juros altos reduzem a capacidade de consumo e comprometem renda futura.

Para as empresas

  • Custo de capital elevado: Pequenas e médias empresas enfrentam dificuldades para financiar capital de giro ou expansão devido ao alto custo dos empréstimos.
  • Menor competitividade: O spread elevado afeta diretamente a competitividade de negócios brasileiros em relação a empresas estrangeiras, que acessam crédito mais barato em seus países.
  • Dependência de crédito subsidiado: Muitos setores só conseguem operar com linhas direcionadas de bancos públicos, criando distorções de mercado.

Para a economia

  • Crescimento limitado: O crédito caro restringe o investimento produtivo e desacelera o crescimento econômico.
  • Desigualdade social: Apenas quem tem renda alta ou garantias sólidas consegue crédito a taxas mais acessíveis, aprofundando desigualdades.
  • Endividamento estrutural: Famílias e empresas ficam presas a dívidas de longo prazo, dificultando a mobilidade financeira.

Spread bancário e a inovação no sistema financeiro

Nos últimos anos, novas tendências vêm alterando o cenário do spread no Brasil.

  • Bancos digitais e fintechs

Empresas como Nubank, Inter, C6 e PicPay passaram a oferecer crédito a taxas mais competitivas, aproveitando estruturas enxutas e tecnologia avançada de análise de risco.

Essas instituições conseguem reduzir custos administrativos e precificar melhor seus clientes, diminuindo spreads em determinados segmentos.

  • Open banking e open finance

A implementação do open finance pelo Banco Central permite que clientes compartilhem seu histórico financeiro entre diferentes instituições. Isso aumenta a competição e reduz a assimetria de informações, pressionando os spreads para baixo.

  • Pix e novos meios de pagamento

O Pix, sistema de pagamentos instantâneos, diminuiu receitas de serviços tradicionais dos bancos e forçou maior inovação. Indiretamente, isso pode levar a uma busca por spreads mais competitivos, já que os bancos precisam se adaptar para manter rentabilidade.

  • Acordos internacionais e regulação

O Brasil também está inserido em regras globais, como os Acordos de Basileia, que determinam níveis de capital mínimo para os bancos. Essas normas afetam o custo do crédito, mas também aumentam a segurança do sistema financeiro.

O futuro do spread bancário no Brasil

O futuro do spread bancário no Brasil - (Imagem: Shutterstock)

Apesar da persistência do problema, há sinais de que o spread bancário pode diminuir nos próximos anos. Alguns fatores positivos são:

  • Avanço da digitalização: Bancos digitais continuarão ganhando espaço, pressionando grandes instituições a reduzir custos.
  • Educação financeira crescente: Com mais conhecimento, consumidores tendem a negociar melhor taxas e fugir do crédito caro.
  • Regulação mais eficiente: O Banco Central tem implementado medidas para aumentar a competição e melhorar a recuperação de crédito no país.
  • Integração tecnológica: Inteligência artificial e análise de dados permitem avaliar risco de forma mais precisa, reduzindo a necessidade de spreads tão elevados.

No entanto, desafios estruturais como a alta carga tributária e a inadimplência crônica ainda precisam ser enfrentados para que o Brasil se aproxime da média mundial.

Conclusão: spread bancário e estratégia de investimento

Para o investidor, compreender o spread bancário é essencial, pois não só explica a rentabilidade dos bancos como também mostra os limites do crescimento econômico.

  • Ações de bancos na B3: O spread elevado garante margens robustas para Itaú (ITUB4), Bradesco (BBDC4), Santander (SANB11), Banco do Brasil (BBAS3) e BTG Pactual (BPAC11). Isso ajuda a explicar por que o setor bancário é um dos mais lucrativos do país.
  • Risco de pressão regulatória: Ao mesmo tempo, o alto spread é constantemente criticado, o que pode levar a medidas regulatórias que impactem margens no futuro.
  • Diversificação: O investidor deve considerar tanto bancos tradicionais, com spreads altos e lucros consistentes, quanto fintechs e instituições digitais, que representam inovação e possibilidade de crescimento acelerado.

Em última análise, podemos afirmar que o spread bancário é um verdadeiro termômetro da eficiência e da competitividade da economia brasileira.

Para o investidor atento, acompanhar a evolução do spread é uma forma de entender não apenas os resultados dos bancos, mas também as perspectivas do mercado de crédito e do desenvolvimento econômico do país.

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