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Spread bancário é um dos termos mais importantes do sistema financeiro, mas ainda pouco compreendido. Em resumo, representa a diferença entre os juros que o banco paga para captar dinheiro e aqueles que cobra ao emprestar esse mesmo recurso.
Embora pareça simples, o tema envolve diversos fatores econômicos, regulatórios e estruturais que impactam diretamente no custo do crédito, na rentabilidade dos bancos e até no crescimento da economia de um país.
No Brasil, o spread bancário historicamente figura entre os mais altos do mundo, o que levanta debates constantes sobre seus efeitos no consumo, no endividamento das famílias e na competitividade empresarial.
Para o investidor, compreender como funciona também é crucial, já que o spread influencia indicadores financeiros, a atratividade de setores da Bolsa e o desempenho de grandes instituições financeiras listadas, como Itaú (ITUB4), Bradesco (BBDC4) e Banco do Brasil (BBAS3).
Neste artigo, você vai entender em detalhes o que é o spread bancário, como ele é formado, qual seu impacto no mercado, como se comporta em outros países e os principais motivos que explicam sua elevação no Brasil.
De forma objetiva, o spread bancário é a diferença entre a taxa de juros cobrada em operações de crédito (empréstimos e financiamentos) e a taxa de juros paga pelo banco para captar recursos junto a investidores e clientes.
Em termos práticos, é como se fosse a “margem de lucro” do banco em operações de intermediação financeira.
A fórmula é simples:
Spread = Taxa de empréstimo – Taxa de captação
Por exemplo, se um banco paga 15% ao ano para remunerar investidores em CDBs e cobra 25% ao ano em empréstimos consignados, o spread é de 10 pontos percentuais.
Essa diferença corresponde ao ganho bruto da instituição, que depois ainda será ajustado por custos administrativos, impostos, riscos de inadimplência e exigências regulatórias.
Para entender o spread, é importante compreender como os bancos operam: eles captam recursos e depois os emprestam.
Além do ganho com o spread, os bancos também faturam com serviços e tarifas (anuidade de cartões, taxas de administração, corretagem, câmbio etc.), mas a intermediação financeira ainda é a principal fonte de receita.
Outro indicador importante relacionado ao spread é a NIM (Net Interest Margin), ou Margem Líquida de Juros, que mede a rentabilidade líquida obtida pelos bancos com suas operações de crédito.
Quanto maior a NIM, maior a eficiência da instituição em gerar lucro sobre o volume de recursos administrados.
Embora muitas pessoas pensem que o spread é apenas “lucro puro” dos bancos, a realidade é mais complexa. No Brasil, a composição do spread inclui diversos fatores:
1.Inadimplência: Parte do spread cobre o risco de calote. Como milhões de brasileiros enfrentam dificuldades financeiras, os bancos embutem essa perda potencial nas taxas.
Na prática, quanto maior o índice de inadimplência enfrentado pelos bancos, maior tende a ser o spread.
2.Lucro dos bancos: Naturalmente, uma parte significativa do spread é destinada ao lucro das instituições financeiras.
No caso dos grandes bancos brasileiros, a rentabilidade elevada é frequentemente alvo de críticas, mas também reflete a baixa competição no setor.
3.Impostos e encargos: Tributos como IRPJ, CSLL, PIS, COFINS e IOF aumentam o custo das operações e acabam repassados ao cliente final.
4.Depósito compulsório e exigências regulatórias: O Banco Central determina que os bancos mantenham parte de seus depósitos retidos como compulsório, o que reduz a liquidez disponível para empréstimos. Esse custo também é repassado ao spread.
5.Custos administrativos: Agências, tecnologia, salários e despesas operacionais entram na conta do spread. Por isso, bancos digitais e fintechs, com estruturas mais enxutas, conseguem oferecer taxas mais competitivas em determinados nichos.
O spread bancário exerce impacto direto na economia de um país. Quando ele é muito elevado, o crédito se torna caro e inacessível para grande parte da população e das empresas. Isso gera:
Por outro lado, quando o spread é mais baixo, há expansão do crédito, estímulo à atividade econômica e maior inclusão financeira.
No Brasil, a relação entre spread bancário e a taxa Selic é fundamental. A Selic funciona como o “piso” das taxas de juros no mercado.
Porém, mesmo em períodos de Selic baixa, o spread se mantém elevado, o que mostra que existem outros fatores estruturais além do custo de oportunidade.
Segundo dados do Banco Mundial, a média global do spread bancário em 2017 era de cerca de 5,74%. Em comparação, o Brasil chegou a registrar spreads acima de 40%, figurando entre os maiores do mundo.
Em países desenvolvidos como Japão e Estados Unidos, o spread costuma ficar abaixo de 5%, reflexo de maior concorrência bancária, sistemas jurídicos mais eficientes para recuperação de crédito e menor carga tributária.
Já em países da África e América Latina, como Madagascar e Zimbábue, o spread também se mostra elevado, geralmente associado a riscos políticos, econômicos e de inadimplência.
No caso brasileiro, mesmo com reduções nos últimos anos, o spread ainda permanece três vezes maior que a média mundial, um dos maiores obstáculos para a democratização do crédito.

Por que o spread bancário é tão alto no Brasil? - (Imagem: Shutterstock)
Embora o spread seja um fenômeno presente em qualquer país do mundo, no Brasil ele é historicamente mais elevado. Entre os principais fatores estão:
O sistema bancário brasileiro é extremamente concentrado. Os cinco maiores bancos – Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa Econômica e Santander, controlam cerca de 80% do crédito no país.
Com pouca concorrência efetiva, essas instituições têm maior poder para definir taxas de juros, mantendo spreads mais elevados sem perder clientes em grande escala.
Ainda que fintechs e bancos digitais venham crescendo, o volume de crédito concedido por eles ainda é pequeno quando comparado ao dos grandes bancos. Isso limita a pressão competitiva sobre os spreads.
Outro motivo estrutural é a inadimplência elevada. No Brasil, milhões de famílias vivem endividadas e têm dificuldades para honrar compromissos financeiros.
Segundo relatórios da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), mais de 70 milhões de brasileiros estão inadimplentes, o que representa impressionantes 42% da população adulta.
Isso obriga os bancos a embutirem no spread um “prêmio de risco” mais alto para compensar possíveis calotes. Entretanto, o círculo vicioso é claro: juros altos aumentam a inadimplência, e a inadimplência justifica juros ainda mais altos.
O sistema tributário brasileiro impacta diretamente o spread. Os bancos pagam uma série de impostos sobre suas receitas e lucros, como:
Esses custos são repassados ao consumidor final. Em países com menor carga tributária, a diferença entre taxas de captação e de empréstimos tende a ser menor.
Outro fator pouco discutido é o crédito direcionado. Programas do governo, como crédito rural, financiamento habitacional e linhas do BNDES, consomem grande parte do crédito nacional. Com isso, sobra menos espaço para o crédito livre, pressionando os juros para cima nesse segmento.
Esse fenômeno faz com que as famílias e pequenas empresas, que não têm acesso a linhas subsidiadas, acabem pagando spreads mais elevados.
O spread significativamente elevado tem efeitos práticos na vida de milhões de brasileiros e na competitividade do país.
Nos últimos anos, novas tendências vêm alterando o cenário do spread no Brasil.
Empresas como Nubank, Inter, C6 e PicPay passaram a oferecer crédito a taxas mais competitivas, aproveitando estruturas enxutas e tecnologia avançada de análise de risco.
Essas instituições conseguem reduzir custos administrativos e precificar melhor seus clientes, diminuindo spreads em determinados segmentos.
A implementação do open finance pelo Banco Central permite que clientes compartilhem seu histórico financeiro entre diferentes instituições. Isso aumenta a competição e reduz a assimetria de informações, pressionando os spreads para baixo.
O Pix, sistema de pagamentos instantâneos, diminuiu receitas de serviços tradicionais dos bancos e forçou maior inovação. Indiretamente, isso pode levar a uma busca por spreads mais competitivos, já que os bancos precisam se adaptar para manter rentabilidade.
O Brasil também está inserido em regras globais, como os Acordos de Basileia, que determinam níveis de capital mínimo para os bancos. Essas normas afetam o custo do crédito, mas também aumentam a segurança do sistema financeiro.

O futuro do spread bancário no Brasil - (Imagem: Shutterstock)
Apesar da persistência do problema, há sinais de que o spread bancário pode diminuir nos próximos anos. Alguns fatores positivos são:
No entanto, desafios estruturais como a alta carga tributária e a inadimplência crônica ainda precisam ser enfrentados para que o Brasil se aproxime da média mundial.
Para o investidor, compreender o spread bancário é essencial, pois não só explica a rentabilidade dos bancos como também mostra os limites do crescimento econômico.
Em última análise, podemos afirmar que o spread bancário é um verdadeiro termômetro da eficiência e da competitividade da economia brasileira.
Para o investidor atento, acompanhar a evolução do spread é uma forma de entender não apenas os resultados dos bancos, mas também as perspectivas do mercado de crédito e do desenvolvimento econômico do país.
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