💰 Os quatro maiores bancos do país registraram R$ 44,8 bilhões em despesas com provisões contra devedores duvidosos no primeiro trimestre de 2026, crescimento de 33% frente ao mesmo período do ano anterior, pelo critério de custo de crédito, que desconta valores recuperados de créditos já baixados para oferecer uma visão mais precisa do provisionamento.
O movimento reflete a combinação de
Selic no pico de 15%, endividamento recorde de empresas e famílias, impacto da guerra no Oriente Médio sobre os preços do petróleo e os efeitos da Resolução CMN nº 4.966, que antecipa o reconhecimento de perdas esperadas e torna mais rigorosa a classificação de risco.
"Estamos em um momento de inflexão do ciclo, com o efeito atrasado da política monetária. Isso ainda deve causar algum dano ao longo de um período", avaliou Nícolas Merola, analista da EQI Research.
BB lidera com alta de 86% e R$ 18,9 bi em custo de crédito
O cenário é particularmente desafiador para o
Banco do Brasil (BBAS3), que constituiu R$ 18,9 bilhões em custo de crédito entre janeiro e março, alta anual de 86%.
A inadimplência rural do BB saltou de 2,76% para 6,22% no critério de atrasos acima de 90 dias em um ano, pressionada pela volatilidade nos preços de commodities e eventos climáticos extremos.
Do total provisionado, R$ 7,4 bilhões foram destinados ao agronegócio. O banco esperava recuperar entre R$ 2 bilhões e R$ 2,5 bilhões em créditos no período, mas obteve apenas R$ 1,2 bilhão. O risco também se intensificou na carteira de pessoa física.
"As esteiras ainda estão sendo normalizadas. Já nos antecipamos e reforçamos a provisão, principalmente para a carteira de cartão de crédito", afirmou o CFO do BB, Geovanne Tobias.
Santander lidera piora entre privados; Itaú e Bradesco avançam
Nos bancos privados, o
Santander (SANB11) registrou a maior piora na inadimplência entre os pares, com avanço de 0,6 ponto percentual em 12 meses para 3,3%, pelo critério de atrasos superiores a 90 dias.
O CEO Mario Leão garantiu não haver "preocupação estrutural", mas citou atenção especial a três carteiras: pequenas empresas, agronegócio e alguns portfólios de cartões.
No agro, Leão prevê 2026 melhor que 2025, porém ainda longe do ideal. Leão está em processo de transição para transferir o cargo para Gilson Finkelsztain, atual CEO da B3.
No
Bradesco (BBDC4), o aumento foi mais tímido, de 0,1 ponto percentual. O custo de crédito avançou para 3,5% e deve rodar perto de 3,3% ao longo do ano, segundo os executivos do banco.
Para analistas do Citi, esse indicador é a principal linha a ser monitorada no Bradesco, pois qualquer retrocesso pode ameaçar a prometida evolução gradual do
ROE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido).
"Nossa percepção é que o custo do risco deve continuar pressionado nos próximos trimestres, já que o crédito para o segmento de varejo de massa deve seguir demandando um volume maior de provisões", avaliou o banco americano.
No
Itaú Unibanco (ITUB4), o índice de inadimplência ficou estável em 1,9%, mas houve piora entre micro, pequenas e médias empresas, impulsionada pelo fim do período de carência do FGI (Fundo Garantidor de Investimentos). O presidente do banco, Milton Maluhy Filho, prevê avanço de 0,1 a 0,2 ponto percentual à frente.
"Apesar desse aumento observado e absolutamente esperado, os índices seguem em patamares muito abaixo do que observávamos em anos anteriores, e com a perda esperada e rentabilidade em linha com as expectativas", afirmou.
Na carteira de grandes empresas, casos pontuais afetaram o desempenho dos bancos no trimestre. Nenhum deles revelou nomes em respeito ao sigilo bancário, mas o contexto envolve companhias com dificuldades conhecidas, como o
Grupo Pão de Açúcar (PCAR3) e a
Raízen (RAIZ4), que protocolaram recuperação extrajudicial nos últimos meses.
JPMorgan vê Nubank como maior vencedor
Em março, a inadimplência total do crédito no Brasil atingiu 4,3%, frente a 3,3% um ano antes, segundo dados do Banco Central.
Para conter a pressão, o governo lançou o Novo Desenrola, voltado a trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos e dívidas de até R$ 15 mil em atraso entre 90 dias e dois anos, com descontos de até 90% garantidos pelo FGO (Fundo Garantidor de Operações).
O programa foi bem recebido pelos bancos, mas deve ter impacto limitado entre as grandes instituições, conforme reportagem do Broadcast.
Para o JPMorgan, as medidas não resolvem a alavancagem de forma estrutural, mas podem ajudar as instituições a recuperar parte dos créditos perdidos.
📊 "Acreditamos que o Nubank será o maior vencedor", afirmou o banco americano.