🚨 Em meio à inadimplência recorde e à postura mais conservadora dos bancos na concessão de crédito, o
Novo Desenrola surge como um potencial fator de pressão inflacionária no curto prazo.
Especialistas ouvidos pelo Broadcast avaliam que o programa pode restabelecer a relação entre alívio no orçamento das famílias e aumento da demanda por bens e serviços, voltando a exigir atenção do Banco Central.
O raciocínio central se baseia no fato de que, ao reduzir o comprometimento da renda com o serviço da dívida, o programa amplia a capacidade de pagamento e a renda disponível das famílias.
"Isso pode se traduzir em maior consumo ou na contratação de novos empréstimos, a depender do conservadorismo dos bancos", afirmou Alexandre Albuquerque, vice-presidente e analista sênior da Moody's Ratings. Ele ressalvou, porém, que embora o tomador deixe de constar como negativado, a dívida não desaparece: "Ela diminui, mas continua existindo."
Renda bruta das famílias cresceu 11,1% em março
O cenário já era desafiador antes mesmo do início do Novo Desenrola. A renda disponível bruta das famílias, que inclui renda do trabalho e transferências fiscais líquidas de impostos, cresceu 11,1% em março, após alta de 9,5% em fevereiro, segundo cálculos do Goldman Sachs.
Alberto Ramos, diretor de pesquisa econômica para a América Latina do banco, atribui o resultado a uma postura creditícia e fiscal "altamente ativista", que manteria o hiato do produto em território positivo, pressionaria a
inflação, especialmente a de serviços, e reduziria a eficácia da política monetária.
O próprio Copom (Comitê de Política Monetária) já havia sinalizado a preocupação no comunicado de abril, destacando como risco de alta "uma maior resiliência na inflação de serviços do que a projetada, em função de um hiato do produto mais positivo."
"Ruim para o Banco Central", avalia economista
Luis Otavio Leal, economista-chefe da G5 Partners, foi direto na avaliação. "Acho o Desenrola ruim para o Banco Central, pois impacta a inflação", afirmou. Para ele, o crescimento da renda já aponta para aumento do consumo, e o programa adiciona pressão sobre esse movimento.
Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV, reconhece um conflito de objetivos entre o governo e o BC.
"O governo busca estimular a economia por instrumentos fiscais e parafiscais, enquanto o BC tenta conter a inflação e as expectativas. No fim, acho que teremos juros elevados por mais tempo, o que contraria o objetivo do Novo Desenrola", disse.
Ele ponderou, no entanto, que como o programa ainda não opera plenamente, os efeitos inflacionários permanecem mais teóricos do que concretos no momento.
Nem todos compartilham da mesma urgência. Felipe Salles, economista-chefe do C6 Bank, avalia que, no curto prazo, fatores como o conflito no Irã, o câmbio e os preços de commodities, especialmente alimentos e petróleo, devem ter peso maior na condução da política monetária do que o programa.
"O Banco Central vai acompanhar e estimar os impactos, mas acreditamos que esse efeito tende a ser muito baixo", afirmou.
Inadimplência bate recordes desde janeiro de 2025
O pano de fundo do debate é a inadimplência em níveis historicamente elevados. O número de pessoas com CPF registrado em cadastros de inadimplência atingiu 82,8 milhões em março de 2026, segundo a Serasa Experian, com recordes sendo batidos consecutivamente desde janeiro de 2025.
📊 É nesse ambiente que o Novo Desenrola busca atuar, ao mesmo tempo em que especialistas divergem sobre se o remédio não pode agravar, ao menos no curto prazo, o problema inflacionário que o BC tenta combater.