🚨 O mercado comemorou o
IPCA de junho em 0,16%, com alimentos em deflação. No mesmo dia, a NOAA elevou para 81% a probabilidade de o El Niño atingir intensidade "muito forte" entre outubro e dezembro.
O investidor que olha para o retrovisor vê alívio. O que olha pelo para-brisa enxerga uma combinação que não aparece com frequência na história econômica recente do Brasil.
O segundo semestre de 2026 reserva ao investidor brasileiro uma combinação rara e potencialmente explosiva. De um lado, o ciclo eleitoral presidencial entra na fase de maior intensidade, com candidaturas definidas, pesquisas em ritmo acelerado e o ruído político que historicamente eleva a volatilidade dos ativos.
Do outro, o El Niño caminha para se tornar o mais intenso desde 1950, com potencial para pressionar alimentos, energia e juros exatamente no período em que o mercado costuma ficar mais sensível a qualquer sinal de risco fiscal.
Separados, os dois eventos já seriam suficientes para exigir atenção redobrada na alocação de carteira. Juntos, criam um cenário em que
inflação,
câmbio,
Selic e Bolsa podem se mover de forma interligada e, em alguns casos, na direção oposta à que o consenso de mercado projetava no começo do ano.
O "Godzilla" que vem do Pacífico
A NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) atualizou em 9 de julho a sua estimativa probabilística para o El Niño 2026/2027.
A chance de o fenômeno atingir a categoria "muito forte", com anomalias de temperatura do Pacífico superiores a 2°C, saltou para 81% no trimestre outubro-dezembro. A probabilidade de o aquecimento persistir até pelo menos junho de 2027 é de 97%.
Se confirmado, será o El Niño mais intenso em pelo menos 76 anos de medição. A escala do modelo CFSv2 da própria NOAA precisou ser ampliada de 4°C para 5°C após algumas simulações superarem o limite anterior.
No Brasil, o padrão climático do El Niño é bem documentado. A Região Sul tende a receber chuvas acima da média, elevando o risco de enchentes e doenças fúngicas nas lavouras.
O Centro-Oeste, o Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e o Norte enfrentam o cenário oposto, com seca, calor extremo e possibilidade de queimadas. A Região Sudeste fica no meio, com chuvas irregulares e temperaturas acima do padrão.
A consequência para o investidor é direta. O Brasil é um dos maiores exportadores de soja, milho, café e açúcar do mundo. Quando o clima compromete a safra, os preços internos sobem, a inflação de alimentos acelera e o Banco Central perde margem de manobra para cortar juros.
A conta já começou a ser feita
O impacto do El Niño sobre a inflação não é especulação. O Banco Central incluiu, pela primeira vez desde janeiro de 2024, uma pergunta sobre o fenômeno no questionário pré-Copom enviado a quase 100 economistas. A mediana das respostas apontou um impacto de 0,3 ponto percentual no IPCA de 2026 e de 0,4 ponto em 2027.
O Santander calculou que, em um evento forte, o fenômeno pode adicionar até 2,4 pontos percentuais ao pico da inflação de alimentos. No IPCA cheio, o efeito estimado é de 0,35 ponto. No PIB, o banco projeta um corte de 0,6 ponto. O Morgan Stanley foi além e estimou que, em um cenário muito forte, o El Niño poderia somar até 1,68 ponto percentual ao IPCA cheio.
O BTG Pactual elevou sua projeção de IPCA para 5,3% em 2026 e 4,5% em 2027, incorporando o que chamou de "super El Niño". O BNP Paribas revisou a inflação de alimentos no domicílio para 8,5% em 2026.
O Boletim Focus divulgado em 6 de julho, mostra IPCA projetado em 5,30% para 2026, Selic em 14% ao ano e dólar em R$ 5,20. Os próprios economistas consultados reconhecem que incorporaram apenas dois terços do impacto estimado do El Niño para este ano e metade para 2027. Ou seja, há espaço para novas revisões caso o fenômeno se confirme na intensidade projetada.
Agora soma as eleições
O ciclo eleitoral brasileiro adiciona uma camada própria de incerteza ao cenário. Um levantamento da Ágora Investimentos mostra que a volatilidade média do Ibovespa em anos eleitorais é de 23,93%, contra 20,91% em anos sem eleição presidencial.
O segundo semestre de 2026 já começou a dar sinais desse padrão. Em maio, investidores estrangeiros retiraram R$ 14,91 bilhões da
B3 (B3SA3), a maior saída mensal desde janeiro de 2022. Parte do movimento reflete fatores externos, como a migração de capital para Estados Unidos e Ásia.
Mas o ruído eleitoral interno também teve participação, com rearranjos partidários e a indefinição sobre a condução fiscal pós-eleição servindo de gatilho para a realização de lucros.
O Bank of America avalia que a possível reeleição do presidente Lula (PT) não é, por si só, um fator de alarme para o mercado, uma vez que os investidores já conhecem a gestão. O ponto de atenção está em outra variável.
David Beker, chefe de Economia do BofA para o Brasil, destacou que dois riscos relevantes ainda não foram incorporados integralmente nas projeções de inflação do banco. Um deles é o El Niño, que no pior cenário pode adicionar 180 pontos-base à inflação em 12 meses.
O Morgan Stanley trabalha com a possibilidade de o dólar atingir R$ 5,60 na reta final da campanha, antes de uma eventual recuperação.
Quando um fenômeno alimenta o outro
O ponto decisivo para o investidor é entender que o El Niño e as eleições não são riscos paralelos. Eles se retroalimentam.
O governo federal tende a ampliar gastos em ano eleitoral. A combinação de expansão fiscal com choque inflacionário provocado pelo clima cria um dilema para o Banco Central.
Se a inflação de alimentos e energia acelera no segundo semestre, o espaço para cortar a Selic diminui ou desaparece. Juros mais altos por mais tempo pesam sobre a Bolsa, encarecem o crédito e desaceleram a atividade econômica, num ciclo que se autoalimenta.
Para Marcos Praça, diretor de Análises da ZERO Markets, a pressão pode fazer o Banco Central interromper a queda dos juros em 14% ao ano, podendo até voltar a subir a taxa. O Morgan Stanley avalia que um El Niño muito forte pode adiar a retomada dos cortes, esperada pelo banco para dezembro, caso o choque de alimentos contamine as expectativas de inflação.
No câmbio, a dinâmica é igualmente desfavorável. Quando a safra é menor, as exportações de
commodities caem, reduzindo a entrada de dólares no país. Essa pressão sazonal se soma ao período de remessas de fim de ano e ao próprio ambiente de incerteza eleitoral, que reduz o apetite do investidor estrangeiro por ativos brasileiros.
Quem ganha e quem perde na Bolsa
O setor elétrico aparece como o consenso entre os analistas para posicionamento nesse cenário. Com reservatórios pressionados em algumas regiões e maior acionamento de usinas termelétricas, distribuidoras expostas ao Sudeste e ao Centro-Oeste, como
Energisa (ENGI11) e
Equatorial (EQTL3), ganham com o calor elevando o consumo de energia.
Na ponta oposta, a
SLC Agrícola (SLCE3) é o nome mais citado entre os analistas como vulnerável, dado que mais de 50% de suas fazendas estão nas regiões de maior risco climático. O
Banco do Brasil (BBAS3) entra na lista por conta da exposição da sua carteira de crédito rural ao Centro-Oeste, região que seca durante o El Niño.
A
Camil (CAML3) é apontada pelo Bradesco BBI como beneficiária, já que o arroz representa cerca de 45% das receitas da empresa e a companhia ganha com a valorização do produto quando a produção nacional enfraquece. A
3Tentos (TTEN3), concentrada no Rio Grande do Sul, pode se beneficiar do aumento de chuvas na região.
No mercado de commodities, o açúcar aparece como o ativo com maior sensibilidade histórica ao El Niño, segundo o Morgan Stanley, já que o fenômeno reduz a produção de cana na Índia, na Tailândia e no Sudeste Asiático, encolhendo a oferta para exportação.
O que esperar
O ambiente de incerteza dupla exige uma abordagem de proteção, não de aposta direcional. Os economistas convergem em algumas orientações para o segundo semestre.
O Tesouro IPCA+ ganha relevância como instrumento de proteção contra a aceleração da inflação, uma vez que entrega taxa real contratada na compra e se valoriza caso o índice de preços suba acima do esperado. Títulos pós-fixados atrelados à Selic protegem em um cenário de juros mais altos por mais tempo.
Para quem tem posição em Bolsa, o foco deve recair sobre empresas com poder de repasse de preços ao consumidor, receitas dolarizadas ou exposição a setores que se beneficiam do choque climático, como energia e insumos agrícolas.
Setores sensíveis à renda das famílias, como varejo e construção civil, tendem a sofrer quando alimentos e energia consomem uma parcela maior do orçamento.
A diversificação internacional, via ETFs ou BDRs, é outra camada de proteção que ganha peso em cenários de estresse doméstico. Manter uma reserva de oportunidade em ativos de alta liquidez permite aproveitar momentos de correção na Bolsa, transformando volatilidade em ponto de entrada.
O segundo semestre de 2026 não será definido por um único fator. Será moldado pela interação entre o que acontece nas águas do Pacífico e o que acontece nas urnas.
📊 Para o investidor, a distinção entre os dois é menos relevante do que a pergunta prática. A sua carteira está preparada para absorver os dois ao mesmo tempo?