Fim da guerra muda o jogo na Bolsa e renda fixa? Gestoras explicam o que fazer

Grandes gestoras alertam que o alívio no mercado pode vir mais lento do que o esperado, e o mistério sobre os termos finais exige cautela.

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Publicado em 15/06/2026 às 15:31h Publicado em 15/06/2026 às 15:31h por Matheus Silva
Um acordo entre EUA e Irã deve ser assinado na Suíça nesta sexta-feira (19) (Imagem: Shutterstock)
Um acordo entre EUA e Irã deve ser assinado na Suíça nesta sexta-feira (19) (Imagem: Shutterstock)
🌍 Os Estados Unidos e o Irã anunciaram um acordo preliminar para encerrar o conflito que se prolongava por quase quatro meses e viabilizar a reabertura do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas globais de transporte de petróleo
O entendimento foi divulgado inicialmente no domingo (14) pelo primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, que atuou como mediador das negociações, e posteriormente confirmado pelo presidente Donald Trump e por autoridades iranianas. 
Um memorando de entendimento formalizando o acordo deve ser assinado na Suíça na próxima sexta-feira (19), com posterior divulgação pública.

O que está previsto no acordo

As partes concordaram com o fim imediato e permanente das operações militares. O Estreito de Ormuz começará a ser reaberto após a assinatura do memorando, juntamente com a suspensão gradual do bloqueio americano aos portos iranianos. Autoridades iranianas afirmaram que o tráfego será liberado a todos os navios comerciais, sob coordenação com Omã.
As negociações sobre temas mais complexos, como o programa nuclear iraniano e o regime de sanções, deverão continuar nos próximos 60 dias.
O Irã reiterou seu compromisso de não produzir nem adquirir armas nucleares e concordou em congelar atividades sensíveis, incluindo o enriquecimento de urânio e a expansão de instalações nucleares, enquanto as negociações de um acordo definitivo seguem em curso.
Trump declarou que não há urgência na retirada do estoque de urânio enriquecido e indicou que a questão será tratada em etapas posteriores, com previsão de inspeções internacionais. O senador Lindsey Graham destacou que qualquer acordo final deverá ser analisado e aprovado pelo Congresso americano.
Referente as sanções e economia, as autoridades iranianas afirmaram que Washington concordou em não impor novas sanções durante o período de negociação, com flexibilizações previstas no setor petrolífero e eventual suspensão de sanções dos EUA e da ONU. 
Teerã aponta a possibilidade de liberação de até US$ 25 bilhões em ativos congelados via transferências diretas, cooperação regional e linhas de crédito. Trump afirmou que o Irã não receberá recursos diretamente, mas sinalizou que sanções poderão ser suspensas. Um plano de reconstrução e desenvolvimento para o país, em coordenação com aliados regionais dos EUA, também deve ser negociado dentro de dois meses.
O acordo também abrange o fim das operações militares no Líbano. O chanceler iraniano, Abbas Araqchi, afirmou que a interrupção dos ataques israelenses ao Líbano é condição central para o sucesso do entendimento. 
O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, declarou, por outro lado, que as forças israelenses permanecerão nas zonas de segurança estabelecidas no Líbano, na Síria e em Gaza, conforme orientação do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.

O que o acordo muda para os seus investimentos

As principais gestoras e casas de análise do país trabalham com uma leitura mais contida do que o senso comum sugere, alertando que o alívio pode ser menor e mais lento do que os mercados esperam. Os termos completos ainda não foram divulgados, o que mantém parte da cautela entre os investidores.

O fim da guerra abre espaço para o BC cortar juros?

Essa é a expectativa que mais gestoras descartam. Para a Kapitalo, o choque inflacionário provocado pela guerra e pela alta do petróleo já está dado e tende a se manter mesmo com o acordo confirmado. A gestora avalia que a janela para o Banco Central acelerar cortes de juros foi fechada. Quem também concorda é a Itaú Asset que acredita, que mesmo com a reabertura de Ormuz, não se volta às condições que prevaleciam antes da guerra. 
A Genoa Capital observa que o repasse da energia ao IPCA ainda nem ocorreu de forma relevante e coloca na mesa até a discussão sobre eventual retomada de altas de juros.

O petróleo vai desabar?

A queda recente foi expressiva, com o Brent saindo de patamares acima de US$ 100 no auge do conflito para a faixa dos US$ 80 a US$ 90, chegando a US$ 83 nesta segunda. A Kapitalo segue comprada em petróleo porque entende que o restabelecimento dos fluxos no Estreito deve levar tempo mesmo com um acordo. 
A Legacy Capital estima que, num cenário de esgotamento de estoques globais, o barril poderia voltar a avançar.

Onde estão as oportunidades na renda fixa?

Papéis do Tesouro pagam taxas reais acima de 8% ao ano em prazos mais curtos, níveis não vistos desde o governo Dilma Rousseff. A TAG Investimentos prefere as NTN-Bs mais curtas e aponta os prefixados como o maior risco do momento. 
A XP projeta a Selic caindo apenas mais 0,5 ponto, para 14% ao ano, e mantém preferência por papéis indexados ao IPCA de vencimentos curtos e intermediários. O UBS também gosta da inflação curta, com vencimentos até 2035.
A GT Capital descreve o quadro como uma curva real invertida. No crédito privado, dados da Anbima mostram que os prêmios das debêntures pararam de subir em maio, mas seguem perto das máximas do ano.

É hora de comprar bolsa?

A visão se divide. A XP mantém projeção de Ibovespa a 205 mil pontos ao fim do ano. O UBS recomendou embolsar parte dos ganhos do ano na bolsa brasileira e concentrar exposição em Petrobras (PETR4) e Vale (VALE3), ampliando a parcela em bolsas internacionais com foco em tecnologia e inteligência artificial. A Adam Capital está no extremo oposto, vendida no Ibovespa.

Quais os riscos que passam a importar?

O fator doméstico. As gestoras apontam três vetores simultâneos:
  • inflação mais alta;
  • ciclo de juros no limite; e 
  • combinação de fiscal expansionista com incerteza eleitoral. 
A TAG estima o pacote de estímulos do governo entre R$ 180 bilhões e R$ 295 bilhões, enquanto a JGP aponta a deterioração da relação dívida sobre PIB como o ponto capaz de azedar a percepção dos investidores. 
📊 O UBS Wealth Management no Brasil trata o dólar como o "canário da mina" do mercado. Se o real não acompanhar o desempenho das demais moedas emergentes, é sinal de que o investidor precisa redobrar a atenção.