Estrangeiros já colocaram R$ 6 bi na bolsa em 10 dias; entenda o motivo

O BofA elevou o Brasil de neutro para overweight apostando em Selic a 11,25% no fim de 2027, bem abaixo dos 14% precificados pelo mercado.

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Publicado em 08/09/2026 às 19:15h Publicado em 08/09/2026 às 19:15h por Matheus Silva
A melhora na nota do Brasil excluiu o setor de commodities (Imagem: Shutterstock)
A melhora na nota do Brasil excluiu o setor de commodities (Imagem: Shutterstock)
📈 O Bank of America (BOAC34) mudou de lado em relação ao Brasil. Depois de manter postura defensiva desde junho, o banco americano decidiu recolocar as ações brasileiras entre suas apostas prioritárias, elevando a recomendação de marketweight para overweight em relatório distribuído nesta terça-feira (8). A motivação central não está na política, mas nos juros.
A instituição passou a projetar Selic em 11,25% ao encerramento de 2027, corrigindo para baixo sua estimativa anterior de 12,75%. 
A diferença em relação ao consenso é o que torna a aposta relevante. O mercado trabalha com taxa em torno de 14% para o mesmo horizonte, quase três pontos percentuais acima do que o BofA enxerga. "A desaceleração da atividade e os menores riscos de inflação podem permitir um ciclo mais profundo de flexibilização monetária", justifica o relatório.
O raciocínio do banco é de que juros menores reduzem a taxa de desconto usada para precificar empresas, e isso tende a beneficiar de forma desproporcional companhias que foram penalizadas pelo custo elevado do dinheiro nos últimos anos. 
"O impacto de uma política monetária mais frouxa provavelmente levará as avaliações das ações para níveis menos deprimidos", afirma o documento.
Para o BofA, esse efeito tem potência suficiente para compensar riscos ainda presentes no horizonte, entre eles possíveis cortes nas projeções de lucro, arrefecimento da demanda e parte da incerteza eleitoral.
Os múltiplos ajudam a sustentar o argumento. Excluindo as empresas de commodities, o Ibovespa negocia com desconto de cerca de 10% frente à sua média histórica. Quando essa conta é ajustada ao nível atual de juros, o desconto praticamente desaparece. 
A distorção que permanece está concentrada nos papéis mais sensíveis às taxas, que seguem negociando bem abaixo de seus patamares históricos.

Empresas alavancadas e bond proxies estão no foco

É justamente nesse grupo que o banco decidiu ampliar sua exposição. "Aumentamos nossa alocação no Brasil por meio de empresas com maior sensibilidade aos juros e potencial de valorização em um ciclo de flexibilização", detalha o relatório.
Três perfis foram priorizados. O primeiro reúne empresas ligadas ao mercado de capitais, que se beneficiam da retomada da atividade financeira, do crescimento dos volumes negociados e de condições mais favoráveis para captações. 
O segundo abrange companhias com maior alavancagem, cujo custo de dívida cai de forma imediata quando a Selic recua. Já o terceiro envolve os bond proxies, papéis cujo comportamento se aproxima do de títulos de renda fixa por gerarem fluxos de caixa previsíveis e reagirem fortemente às taxas.
A estratégia, porém, não é irrestrita. O banco lembra que a Selic permanecerá em nível elevado mesmo durante o ciclo de cortes, e por isso equilibra a carteira com grandes empresas líquidas, geradoras de caixa consistente, com balanços saudáveis e execução comprovada.

Nem Vale nem Petrobras entraram na nova aposta

A elevação da recomendação para o Brasil não se estendeu ao universo de commodities. O BofA manteve postura neutra tanto em materiais, com a Vale (VALE3) como representante do setor, quanto em petróleo, via Petrobras (PETR4)
A decisão evidencia que a tese construída pelo banco depende dos juros domésticos, e não do ciclo internacional de preços de matérias-primas.
Os fluxos recentes dão suporte adicional à mudança de postura. O banco calcula que investidores internacionais aportaram R$ 6 bilhões no mercado à vista de ações brasileiras ao longo dos últimos dez dias, revertendo parte da saída de R$ 20 bilhões acumulada nos três meses anteriores. 
Os dados da B3 (B3SA3) confirmam a tendência, com entrada líquida de R$ 3,9 bilhões apenas nos três primeiros pregões de setembro.
Parte dessa migração tem origem fora do Brasil. O BofA aponta que o enfraquecimento do AI trade, movimento em que investidores concentravam recursos em empresas beneficiadas pela inteligência artificial, abriu espaço para mercados que ficaram para trás. Nesse intervalo, o Brasil superou Taiwan, Coreia do Sul e o setor de semicondutores dos Estados Unidos em desempenho.
Há ainda um fator técnico relevante. O short covering, quando investidores posicionados na queda são obrigados a recomprar papéis para encerrar suas apostas, tem impulsionado especialmente as ações mais vendidas a descoberto desde meados de agosto.

Disputa eleitoral segue relevante, mas não define a tese

O ambiente político continua no radar, ainda que não seja o pilar da decisão. Pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta terça colocou Flávio Bolsonaro (PL) numericamente um ponto percentual à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em eventual segundo turno, com ambos dentro do empate técnico. No dia anterior, a Quaest havia registrado os dois com 41% cada no mesmo cenário.
📊 O BofA classifica a incerteza eleitoral entre os riscos relevantes para os ativos brasileiros, mas avalia que um ciclo de flexibilização monetária mais profundo tem força para neutralizar, ao menos em parte, esse componente de volatilidade.