Compass quebra jejum de IPOs da B3 e mercado avalia se vem mais por aí

Para analistas, juros altos podem intimidar outras empresas a seguir o caminho da Compass.

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Publicado em 09/05/2026 às 07:53h Publicado em 09/05/2026 às 07:53h por Marina Barbosa
A Compass estreia na B3 nesta segunda-feira, sob o ticker PASS3 (Imagem: Shutterstock)
A Compass estreia na B3 nesta segunda-feira, sob o ticker PASS3 (Imagem: Shutterstock)
A Compass (PASS3) pôs fim ao jejum de IPOs (ofertas públicas iniciais de ações) que já durava quase cinco anos na B3. Porém, o mercado tem dúvidas se vem mais por aí.
Antes da Compass, outras empresas já haviam demonstrado a intenção de estrear na Bolsa. A BRK Ambiental chegou até a protocolar o pedido de IPO no final de 2025 e a Aegea caminhava para seguir o mesmo caminho.
Porém, as empresas parecem ter adiado este plano -a BRK Ambiental por causa da volatilidade observada recentemente na Bolsa e a Aegea para tentar reduzir a alavancagem e reconquistar a confiança do mercado, após ter revisado os balanços dos últimos cinco anos.
Além disso, analistas não veem muito espaço para que outras companhias sigam o exemplo da Compass neste momento, sobretudo por causa da perspectiva de que os juros vão continuar altos por algum tempo no Brasil.

Juros altos são entrave, mas não é só isso

💲 Com a Selic marcando 14,50% ao ano e a perspectiva de que a taxa básica de juros só vai cair até 13,00% em 2026, o investidor ainda consegue garantir retornos atrativos no mercado de renda fixa.
Logo, há menos disposição para investir em ativos de rendimento mais incerto, como é o caso das empresas que ainda estão tentando chegar à Bolsa e das quais nem sempre há muitas informações disponíveis.
"Os juros ainda têm que ceder bastante para que faça sentido para o investidor ir para esse tipo de investimento", afirmou o head de renda variável da Faz Capital, Alexandre Pletes, que vê o IPO da Compass como algo "pontual".
"A Compass pode ser o primeiro teste real dessa janela de IPOs, mas não representa a reabertura ampla desse mercado", reforçou o especialista em renda variável da Davos Investimentos, Marcelo Boragini.
Para ele, o mercado de IPOs só voltará a ganhar força no Brasil quando houver juros mais baixos, fluxos mais consistentes de capital e boas empresas chegando a preços que façam sentido para o investidor.
O planejador financeiro e gerente de investimentos do Sicredi, Rodrigo Caetano, reforça esta avaliação, lembrando que este ainda é um ano de eleições presidenciais, o que gera incerteza e pode fazer os investidores pisarem no freio nos próximos meses.
"O Brasil ainda não vive um momento claramente favorável para abertura de capital em larga escala. O IPO da Compass parece avançar apesar do cenário, não por causa dele", afirmou.

A Compass ainda pode definir o rumo do mercado

📈 Apesar de todos esses desafios, os analistas acreditam que a Compass ainda pode ajudar a reabrir o mercado de IPOs, caso consiga manter uma tendência de valorização na Bolsa nos próximos meses.
"Se a estreia da Compass for positiva -o papel se mantendo ou subindo em relação ao preço de oferta- isso pode indicar ao mercado que o ambiente está mais receptivo, e outras empresas na fila tendem a ganhar confiança para avançar. Se o papel cair, a janela provavelmente se fecha novamente", disse Caetano.
"Se a ação performar bem após a listagem, pode até funcionar como um sinal positivo para outras companhias, mas ainda é precoce falar em uma janela aberta de IPOs", completou Boragini.
Ainda assim, os analistas dizem que apenas algumas empresas poderiam encontrar espaço para abrir o capital diante do atual cenário macroeconômico.
Caetano, por exemplo, avalia que o ambiente parece mais aberto para quem entrega resultado e não para quem promete futuro.
"Com juros neste patamar, o mercado tende a aceitar pagar bem apenas por empresas que já geram caixa e distribuem dividendos. Empresas em fase de crescimento, como startups, fintechs e tecnologia, provavelmente precisarão esperar um cenário mais favorável", afirmou.
Já Boragini diz que "não basta ser uma empresa boa, precisa ser vendida a um preço adequado".

O que permitiu o IPO do Compass?

A Compass emplacou o seu IPO nesta sexta-feira (8), ao confirmar a venda de quase 100,9 milhões de ações a um preço de R$ 28 o papel.
O número de ações vendidas superou a oferta base da empresa, que era de pretendia 89,3 milhões de ações. Porém, o preço ficou no piso da faixa indicativa, que ia R$ 28 a R$ 35.
⛽ Para analistas, o interesse pelas ações é um reflexo da qualidade dos ativos da Compass. Já o preço apertado do IPO mostra que o mercado segue cauteloso e pode ser um entrave para que outras empresas sigam esse caminho.
A Compass é vista como a "joia da coroa" da Cosan (CSAN3) -a holding de investimentos de Rubens Ometto, que também é acionista de empresas como Raízen (RAIZ4) e Rumo (RAIL3).
Afinal, é um dos principais players do setor de gás natural brasileiro -um setor marcado pela resiliência e pela previsibilidade na geração de caixa.
Como resumiu Boragini, esta é uma empresa com características muito específicas, que justificam o interesse pelo IPO: "É uma operação relevante, com um ativo de qualidade e um controlador conhecido, em um setor defensivo".
"A Compass parece oferecer retorno relativamente estável, alguma proteção contra inflação e menor risco operacional", reforçou Caetano.
As conexões com a Cosan, no entanto, também são apontadas como um ponto de alerta pelos analistas. Afinal, a Cosan decidiu abrir o capital da sua subsidiária de gás porque precisava de capital para reduzir o seu endividamento.
Por isso, esta foi uma oferta secundária de ações, em que a Cosan e outros acionistas da Compass venderam participações e ficaram com o dinheiro arrecadado.
Ou seja, não houve a emissão de novas ações, nem dinheiro novo entrando no caixa da Compass, que estreia na Bolsa na próxima segunda-feira (11), sob o ticker PASS3.