Itaú BBA mapeia o impacto do "super El Niño" em 12 ações da B3; veja quais

O tema ganhou relevância dado o peso da América Latina na safra global e sua sensibilidade a choques climáticos em alimentos e energia.

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Publicado em 29/06/2026 às 17:08h Publicado em 29/06/2026 às 17:08h por Matheus Silva
O Brasil concentra boa parte da atenção global voltada ao ciclo agrícola 2026/27 (Imagem: Shutterstock)
O Brasil concentra boa parte da atenção global voltada ao ciclo agrícola 2026/27 (Imagem: Shutterstock)
🚨 O mercado financeiro já começou a monitorar de perto o próximo ciclo do fenômeno climático apelidado de "El Niño Godzilla", esperado para o período entre 2026 e 2027 na América Latina. 
O interesse dos investidores se concentra principalmente no risco macroeconômico que o evento pode trazer no curto prazo. Dentro desse cenário regional, o Brasil ganha status de "mercado-chave" a ser acompanhado, segundo análise produzida pelos estrategistas do Itaú BBA.
A equipe do banco utiliza as variáveis climáticas como uma espécie de indicador antecipado para o comportamento das moedas locais e para possíveis movimentos de política monetária, já que o clima afeta diretamente a disponibilidade de commodities. 
Segundo o relatório, o assunto ganhou peso entre os investidores em razão da importância cada vez maior da América Latina na produção mundial de grãos, da sensibilidade regional aos choques de preços de alimentos e energia provocados pelo clima, e dos efeitos que isso provoca sobre câmbio, juros, atividade econômica e resultados corporativos em diversos setores.
Do ponto de vista técnico, o El Niño integra o ciclo conhecido como ENOS e ocorre quando a temperatura da superfície do Pacífico equatorial sobe pelo menos 0,5°C acima da média histórica, modificando os padrões globais de circulação atmosférica por um intervalo que normalmente varia entre 9 e 12 meses.

Probabilidade de 63% de evento "muito forte"

O Brasil concentra boa parte da atenção global voltada ao ciclo agrícola 2026/27. De acordo com dados da NOAA usados no estudo, há 63% de probabilidade de o fenômeno se manifestar em intensidade "muito forte", ou seja, com temperaturas iguais ou superiores a 2,0°C acima da média entre novembro e janeiro.
O efeito desse cenário tende a ser desigual dentro do próprio território nacional. Enquanto a Região Sul deve se beneficiar de volumes maiores de chuva, capazes de sustentar a produtividade da soja e do milho, ainda que com risco de enchentes, as áreas do Centro-Oeste e do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) ficam mais expostas a períodos de seca repentina, os chamados veranicos, além de atrasos recorrentes no plantio da segunda safra.
A projeção do Itaú BBA para a safra é otimista, com estimativa de colheita de 182,4 milhões de toneladas de soja. Justamente por isso, os analistas reforçam que qualquer alteração inesperada no clima tem potencial de comprometer essa expectativa e gerar instabilidade nos mercados. 
O relatório destaca que o cenário-base continua apontando para uma safra histórica em 2026/27, mas que um desfecho climático mais desfavorável poderia reduzir a oferta global de soja, elevando os preços negociados na CBOT (bolsa de commodities agrícolas de Chicago), com reflexos sobre empresas do setor, câmbio, inflação de alimentos e o equilíbrio energético no segundo semestre de 2026.
Uma frustração de apenas 6% na produção estimada já seria suficiente para retirar cerca de 11 milhões de toneladas do mercado, reduzindo a relação entre estoques e consumo global de 28% para 25%. Essa redução de oferta tenderia a pressionar os preços em Chicago para cima, impactando o IPCA, gerando estresse cambial e prejudicando o desempenho do PIB do agronegócio.

Como o El Niño deve afetar cada setor da bolsa brasileira

O banco também elaborou um mapeamento dos possíveis efeitos do fenômeno sobre companhias listadas na B3 (B3SA3), organizado por área de atuação.

Energia e saneamento

Para os analistas, temperaturas mais altas devem elevar o consumo de energia no Sudeste e no Centro-Oeste, favorecendo a geração de receita de distribuidoras como Energisa (ENGI11) e Equatorial (EQTL3) no fim de 2026. 
Já a estiagem prevista para o Norte e o Nordeste reduz a intensidade dos ventos na região semiárida e o volume dos rios, encarecendo a energia negociada no mercado livre, o que pode beneficiar geradoras com portfólio mais flexível, como Eneva (ENEV3) e Auren (AURE3).

Logística e transporte

O setor deve ser, em geral, prejudicado pelo fenômeno. A Hidrovias do Brasil (HBSA3) é apontada como a empresa mais vulnerável, em razão do risco de restrições à navegação no rio Tapajós provocadas pelo nível baixo das águas na transição do terceiro para o quarto trimestre. 
Já companhias como Rumo (RAIL3) e Randon (RAPT4) têm desempenho ligado diretamente ao tamanho da safra agrícola, fator que influencia diretamente a movimentação de cargas e a demanda por vagões em 2027.

Agronegócio

O setor deve se mostrar mais resistente aos efeitos do El Niño, segundo o banco. Empresas de maior porte, como SLC Agrícola (SLCE3) e BrasilAgro (AGRO3), conseguem reduzir riscos por contarem com operações espalhadas em diferentes regiões e uso de irrigação. 
No Sul, a 3Tentos (TTEN3) pode se beneficiar de um volume maior de originação de grãos, desde que o excesso de chuva não comprometa a logística local. Já no setor sucroenergético, o atraso no início das chuvas deve influenciar o ritmo de moagem da cana e a qualidade do ATR na região Centro-Sul.

Bancos e seguros

O Banco do Brasil (BBAS3) precisa acompanhar de perto as garantias e o risco de inadimplência de sua carteira de crédito rural, fortemente concentrada no Centro-Oeste. 
Já a BB Seguridade (BBSE3) está em situação mais confortável, já que sua carteira de seguros agrícolas está mais exposta à Região Sul, área em que o El Niño reduz o risco de secas severas e, consequentemente, de indenizações por perda de safra.

Argentina deve ser a grande beneficiada da região

Fora do Brasil, o impacto do fenômeno na América Latina deve ser bastante desigual, segundo o Itaú BBA. 
Em alguns países, o El Niño funciona como impulso para a recuperação agrícola após longos períodos de seca; em outros, atua como um choque negativo de oferta, prejudicando a geração de energia, afetando atividades extrativas e pressionando os preços ao consumidor.
Argentina. 
O país deve se beneficiar mais do que os vizinhos, segundo a análise. As chuvas tendem a interromper estiagens severas e impulsionar as safras de milho e soja, fortalecendo as reservas internacionais do país por meio de exportações mais robustas. 
O banco descreve o fenômeno como geralmente positivo para a economia argentina, com efeitos favoráveis sobre o agronegócio e o câmbio. 
No campo corporativo, a Adecoagro deve sentir pouco impacto, já que mantém maior exposição a operações no Brasil, enquanto a Pampa Energia pode ver os preços de suas usinas térmicas pressionados pela maior geração hidrelétrica.

México

É o país da região menos sensível ao fenômeno, segundo o relatório. A previsão indica mais umidade no sul, o que pode reduzir temporariamente os volumes vendidos pela engarrafadora Coca-Cola Femsa, e clima seco e quente no norte, condição favorável para as vendas da Arca Continental. 
O documento também menciona que o aumento da temperatura das águas do Caribe pode intensificar o acúmulo de sargaço nas praias, afetando o turismo nos aeroportos administrados pela ASUR.

Chile

O país deve enfrentar chuvas intensas nas regiões central e sul, o que pode sobrecarregar a infraestrutura local e desacelerar temporariamente setores como pesca, agricultura, mineração e construção civil. 
Por outro lado, o setor elétrico tende a se beneficiar, já que a maior geração hidrelétrica pode reduzir custos marginais de energia e estimular a atividade econômica, enquanto investimentos em reconstrução e infraestrutura oferecem suporte adicional. 
Empresas compradoras de energia no mercado spot, como Engie Energía Chile e Enel Chile, devem registrar ganhos de margem.

Peru

O país está sob risco de um El Niño costeiro, fenômeno que aumenta a temperatura do mar e provoca inundações severas. O setor pesqueiro deve ser o mais afetado, já que o aquecimento das águas tende a deslocar espécies comerciais para áreas mais profundas, podendo gerar quedas históricas de até 27% na atividade em um intervalo de seis meses. 
No setor financeiro, a expectativa é de menor expansão de crédito e aumento da inadimplência para Credicorp e Intercorp Financial Services. No varejo, Falabella e Ripley enfrentam maior exposição a riscos, enquanto supermercados e farmácias, como InRetail e Cencosud, tendem a ser mais resilientes.
Colômbia. 
Diferentemente do que ocorre no Cone Sul, o El Niño se manifesta no país por meio de secas que reduzem os reservatórios e elevam os preços de energia e alimentos. 
O banco projeta inflação de alimentos próxima de 13%, o que deve adicionar 0,4 ponto percentual à inflação geral e retirar 0,1 ponto do crescimento do PIB em 2026. 
📊 As empresas do setor elétrico enfrentam maior desafio operacional, já que precisam recorrer a usinas térmicas mais caras. No setor bancário, a combinação de atividade econômica mais fraca com juros elevados deve levar a um aumento nas provisões para perdas com inadimplência.