Black Friday em risco? Incerteza nas urnas ameaça tirar R$ 62 bi do varejo

O Ibevar-FIA apontou que eleições com empate técnico já tiraram até R$ 62 bilhões do varejo, e 2026 repetiu os sinais de alerta.

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Publicado em 03/10/2026 às 13:08h Publicado em 03/10/2026 às 13:08h por Matheus Silva
A confiança do consumidor da FGV caiu pela 4ª vez seguida, para 84,7 pontos (Imagem: Shuttersrtock)
A confiança do consumidor da FGV caiu pela 4ª vez seguida, para 84,7 pontos (Imagem: Shuttersrtock)
🚨 Anos eleitorais costumam ser uma boa notícia para o comércio brasileiro, mas há uma exceção importante a essa regra, e ela pode estar se desenhando em 2026. 
Um estudo do Ibevar-FIA (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo), divulgado em 12 de setembro, mostra que o varejo se beneficiou do período eleitoral ao longo de mais de duas décadas, até o momento em que o país passou a chegar dividido às urnas.
O alerta para 2026 vem da semelhança com outubro de 2022, quando os brasileiros foram votar sem ter clareza sobre quem assumiria a Presidência no ano seguinte.
Naquele ano, segundo o levantamento, o consumidor optou por esperar. As idas ao supermercado e à farmácia continuaram, mas decisões de maior porte, como trocar de carro, comprar uma geladeira nova ou reformar a casa, ficaram para depois. O estudo aponta que esse comportamento já havia aparecido pela primeira vez em 2014.
Para chegar a essas conclusões, o instituto analisou mais de 20 anos de vendas do varejo apuradas pelo IBGE e cruzou esses dados com o IBC-Br, indicador do Banco Central que acompanha o ritmo da atividade econômica. A ideia era responder como uma eleição altera o comportamento de compra do brasileiro.
O resultado revelou dois padrões distintos. O primeiro favorece o comércio e se repete desde 2002. O segundo ocorreu apenas duas vezes, deixou até R$ 62 bilhões de vendas represadas no trimestre da votação e pode voltar a se manifestar agora.

Eleições costumam aquecer as vendas, independentemente do governo

Segundo o estudo, anos eleitorais tendem a estimular a economia por meio de reajustes, ampliação do crédito e programas de incentivo, com o impacto máximo concentrado justamente no trimestre da votação.
Entre 2002 e 2022, o período de agosto a outubro dos anos com eleição cresceu acima do padrão observado nos demais anos em todas as principais linhas do varejo. No segmento de veículos, a diferença chegou a 5,5 pontos percentuais.
O instituto destaca que esse comportamento se repetiu sob gestões muito diferentes, passando pelos governos de Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma e Temer. Em todos eles, o efeito positivo sobre as vendas foi o mesmo.

Disputas decididas por menos de 5 pontos inverteram o sinal

Se o calendário eleitoral costuma impulsionar o comércio, por que 2022 foi um ano ruim para o setor? O Ibevar-FIA encontrou a resposta no grau de acirramento da disputa.
Em anos sem eleição, o varejo ampliado cresce 2,2 pontos acima do IBC-Br entre agosto e outubro. Em eleições consideradas tranquilas, como a de 2010, essa vantagem sobe para 3,9 pontos. Nas duas eleições em que o segundo turno foi decidido por menos de 5 pontos percentuais, porém, o quadro se inverteu. O varejo ficou 2,3 pontos abaixo da economia em 2014 e 4,8 pontos abaixo em 2022.
"O país dividido ao meio, sem saber qual política econômica vigoraria em janeiro, deixou o consumo para depois. A simetria é a prova de que o fenômeno não tem lado. 2014 aconteceu sob um governo de um campo político; 2022, sob o governo do campo oposto", afirma o estudo.
A conclusão do instituto é direta. O que trava o consumo não é quem vence a eleição, mas a incerteza sobre quem vai vencer.

Freio pode chegar a R$ 62 bilhões em um único trimestre

O varejo ampliado brasileiro movimenta cerca de R$ 4,3 trilhões por ano, segundo a pesquisa PAC do IBGE, o equivalente a R$ 1,08 trilhão por trimestre. Isso significa que cada ponto percentual de crescimento perdido entre agosto e outubro corresponde a aproximadamente R$ 10,8 bilhões em vendas.
Nas duas eleições marcadas por empate técnico, o varejo ficou 5,8 pontos abaixo de seu comportamento habitual, já descontado o desempenho da economia. Na conta do instituto, isso representa até R$ 62 bilhões em vendas adiadas à espera do resultado, valor cerca de seis vezes superior ao faturamento de todo o comércio eletrônico em um Dia dos Pais.
"Ninguém deixa de comprar arroz porque a eleição está indecisa. Mas a troca do carro, a geladeira nova e a reforma da casa esperam o resultado, e é exatamente isso que os dados mostram. Nas eleições de empate técnico, o freio se concentra nos bens duráveis, as compras de maior valor e financiamento mais longo", conclui o levantamento.

Incerteza econômica de 2026 supera a de 2014 e 2022

Para 2026, o estudo identifica um nível de incerteza sem precedentes em anos de eleição presidencial. O EPU-Brasil, índice que mede a incerteza de política econômica com base no noticiário desde 1991, registrou média de 238 pontos entre janeiro e agosto. No mesmo período de 2022, o indicador estava em 177 pontos, e em 2014, em 146.
Os primeiros reflexos no varejo apareceram antes mesmo do início oficial da campanha. Segundo o instituto, o segundo trimestre ficou abaixo do padrão histórico em quase todas as séries analisadas. O segmento de material de construção, o mais afetado em 2022, foi o primeiro a dar sinais de enfraquecimento e já roda 2,7 pontos atrás da economia no acumulado do ano.
O que torna 2026 particularmente singular, na visão do Ibevar-FIA, é que os dois movimentos estão acontecendo ao mesmo tempo. De um lado, há estímulo concreto no mercado, com os emplacamentos de veículos crescendo 16,9% em agosto, no terceiro melhor agosto da história segundo a Fenabrave, impulsionados por programas setoriais. De outro, as expectativas pioraram. 
A confiança do consumidor medida pela FGV caiu pela quarta vez consecutiva, para 84,7 pontos, com a queda concentrada nas expectativas, que recuaram 5,4 pontos, enquanto a avaliação da situação atual cedeu apenas 0,6 ponto.

Rebote após a eleição pode ser menor do que o habitual

A incerteza tem prazo para acabar. Historicamente, o varejo ampliado cresce 1,5% no trimestre de novembro a janeiro após as eleições, ante 0,9% em anos sem votação, independentemente de quem vença.
O problema é que, nas duas eleições com empate técnico, essa recuperação foi bem mais fraca, de apenas 0,1% em 2014 e 0,5% em 2022. Segundo o estudo, parte das compras adiadas retorna depois do resultado, mas outra parte simplesmente desaparece.
💰 O calendário deste ano adiciona um elemento de tensão. Um eventual segundo turno em 25 de outubro termina às vésperas da Black Friday, marcada para 27 de novembro, e do Natal. "As semanas mais importantes do ano do varejo começam no exato momento em que a incerteza se dissolve", aponta o estudo.