A tensão entre Estados Unidos e Irã ganhou novos contornos às vésperas do fim do cessar-fogo. Após dias afirmando que não pretendia estender a trégua sem um acordo de paz, o presidente Donald Trump mudou o tom de forma inesperada na terça-feira (21) e decidiu aguardar uma nova proposta de Teerã, embora tenha mantido o bloqueio naval ao país.
Poucas horas antes do prazo final do cessar-fogo, os Estados Unidos apreenderam mais um navio ligado ao Irã. Enquanto isso, o Paquistão se preparava para sediar uma nova rodada de negociações. O vice-presidente americano, JD Vance, estava pronto para embarcar, mas até o fim da manhã o governo paquistanês ainda aguardava a confirmação da presença iraniana.
Recuo estratégico e pressão crescente
Além disso, o ministro das Relações Exteriores voltou a acusar os Estados Unidos de violar o acordo e classificou o bloqueio de portos iranianos como um ato de guerra. O país também tem criticado as exigências americanas para encerrar o conflito, que, segundo Teerã, equivalem a uma rendição.
Apesar de, nos últimos dias, insistir que alcançaria um “ótimo acordo”, sem abrir mão de ameaças de novos ataques, Trump enfrentou um revés diplomático. O Irã informou ao Paquistão que não enviaria representantes para a nova rodada de negociações. O cenário também pesa no ambiente doméstico americano.
Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na terça-feira (21) mostrou que a aprovação de Trump caiu para 36%, o nível mais baixo desde o início do mandato, com a guerra entre os fatores que influenciam o resultado. Ainda assim, a poucas horas do fim do prazo, o presidente americano recuou publicamente. Em uma rede social, escreveu:
"Com base no fato de que o Governo do Irã está seriamente fragmentado, o que não é inesperado, e, a pedido do Chefe do Estado Maior do Exercito e do Primeiro-Ministro, do Paquistão, fomos solicitados a suspender nosso ataque ao país do Irã até que seus líderes e representantes possam apresentar uma proposta unificada".
Estreito de Ormuz eleva alerta global
O primeiro-ministro paquistanês agradeceu a decisão e declarou esperar que os dois lados avancem rumo a um acordo de paz abrangente e permanente. Na madrugada desta quarta-feira (22), Trump voltou a subir o tom ao afirmar, na Truth Social, que o Irã enfrenta colapso financeiro e pressiona pela reabertura do Estreito de Ormuz, rota estratégica para o petróleo global.
“O Irã está em colapso financeiro! Eles querem a abertura imediata do Estreito de Ormuz, estão desesperados por dinheiro! Perdem 500 milhões de dólares por dia. Militares e policiais reclamam que não estão recebendo seus salários. SOS!!!”, disse o presidente norte-americano.
O clima de instabilidade se intensificou após relatos de que ao menos três navios porta-contêineres foram atingidos por tiros no Estreito de Ormuz nesta quarta-feira, segundo fontes de segurança marítima e a UKMTO. O Irã passou a impor restrições à navegação na região, inicialmente em resposta a bombardeios israelense-americanos e, posteriormente, como retaliação ao bloqueio de seus portos pelos EUA.
A crise acendeu alertas na União Europeia e o comissário europeu para Transporte e Turismo Sustentáveis, Apostolos Tzitzikostas, afirmou que um bloqueio prolongado no Estreito de Ormuz teria impacto “catastrófico” para a Europa e para a economia global. Segundo ele, embora não haja falta imediata de combustível, a continuidade das restrições pode afetar transporte aéreo, empresas e consumidores.