B3 estreia mercado de previsões financeiras; é investimento ou aposta?

Modelo cresce no mundo e chega ao Brasil em meio a debate sobre regulamentação e comparação com bets.

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Publicado em 26/04/2026 às 08:00h Publicado em 26/04/2026 às 08:00h por Wesley Santana
B3, XP e BTG são só algumas das empresas que passaram a oferecer apostas em eventos futuros no Brasil (Ilustração criada com inteligência artificial)
B3, XP e BTG são só algumas das empresas que passaram a oferecer apostas em eventos futuros no Brasil (Ilustração criada com inteligência artificial)

A partir desta segunda-feira (27), os investidores brasileiros terão uma nova opção para apostar na bolsa de valores. A B3 (B3SA3) oficializa a entrada no segmento de mercado preditivo, com a negociação de contratos pautados em eventos futuros.

A companhia diz que os investidores poderão apostar em situações que ainda vão acontecer, como já ocorre em sites como o Polymarket. Neste caso, porém, o sistema será exclusivo para o mercado de renda variável ou para indicadores econômicos do país.

Neste primeiro momento, a funcionalidade estará disponível para opções como o Ibovespa (IBOV), que reflete o movimento das ações no país. Os investidores poderão dar palpites sobre qual será a pontuação do índice futuramente e, caso acertem, recebem uma recompensa por isso. Tudo direto no home broker, que é o sistema por onde são compradas e vendidas as ações da carteira.

O movimento da bolsa é respaldado por uma decisão da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) que liberou esse tipo de negociação no mercado de derivativos. Além do IBOV, os investidores poderão apostar no futuro do dólar, do Bitcoin, da inflação mensal (IPCA) e também do PIB (Produto Interno Bruto) trimestral, conforme detalhou comunicado da B3.

Funciona assim: hoje, o dólar é negociado a R$ 5, mas, segundo projeções de alguns bancos, pode cair a R$ 4,50. Neste caso, o investidor compra um contrato com esse valor e, caso o evento se confirme, embolsa a diferença entre o dia em que comprou e o valor confirmado.

Mas também pode acontecer o contrário, já que o dólar pode subir para R$ 5,50. Nesse cenário inverso, a diferença contra o investidor também deve ser paga, o que acarretaria prejuízo na operação.

A liberação dada pela CVM recai apenas sobre os investidores profissionais, que são aqueles com patrimônio superior a R$ 10 milhões. Estão neste grupo também os profissionais com formação e certificação técnica na área de investimentos, que têm autonomia para tomar decisões sobre seus próprios aportes.

Também foi vetada a oferta de produtos que estejam atrelados a outros eventos, como eleições. Atualmente, as opções que oferecem esse tipo de negociação estão sediadas fora do país e, portanto, não abarcam as regulamentações das entidades nacionais.

O lançamento da B3 é só um dos vários vistos nas últimas semanas em relação a esse serviço, que pode ser considerado novo por muita gente. A XP, por exemplo, firmou contrato com a Kalshi para oferecer essas opções aos investidores, padrão que foi logo seguido por seu principal concorrente, o BTG Pactual, que lançou o BTG Trends, disponível direto no home broker do aplicativo de investimentos.

“A intersecção entre infraestruturas de mercado tradicionais com plataformas de mercados preditivos é uma tendência global, e a B3 vem acompanhando e estudando esses avanços”, destaca a nota da companhia. “Hoje, entre 250 mil e 300 mil clientes operam derivativos tradicionais, como minicontratos. Com esses novos derivativos digitais, a B3 vê potencial de atrair mais investidores, com uma operação simplificada, mas dentro do mercado regulado”, conclui.

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Novas regras

Na última sexta-feira (24), o governo federal publicou uma série de novas regras para as empresas que atuam no segmento de mercado preditivo. A principal delas é que estão vetadas apostas nas áreas de política, esportes e entretenimento.

Na prática, os investidores não poderão palpitar sobre eventos que não sejam da área econômica. Eleições, fim de campeonatos esportivos ou vencedores de reality shows devem estar fora da lista de possibilidades dentro desses sites.

"A resolução não muda o mercado de derivativos tal como ele é hoje. Ela apenas dá as diretrizes gerais para a disciplina de um fenômeno novo, controverso e que, aliás, vem sendo objeto de uma série de proibições ao redor do mundo em razão de preocupações legítimas com saúde pública e proteção do investidor", destacou a diretora da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Marina Copola, em entrevista ao Valor, entidade que passa a fiscalizar as apostas preditivas no Brasil. 

As mudanças foram anunciadas durante um evento em que o governo também confirmou o  bloqueio de 27 empresas que já ofereciam esse tipo de serviço no país. O Ministério da Fazenda destacou que a atuação dessas marcas viola a lei que regulamenta as casas de apostas no país e que a fiscalização ainda vai ser endurecida.

"O que de fato a nova resolução do CMN faz, orientando a CVM na aplicação da lei, é circunscrever esse mercado a ativos econômico-financeiros. Então, toda a evolução de um mercado de derivativos próprios, com substrato econômico-financeiro, está preservada conforme a resolução. Uma vez registrado, esse prestador de serviços na CVM pode prestar esse serviço", afirmou o secretário de Reforma Econômica do Ministério da Fazenda, Regis Dudena. "Toda aquela empresa que se preparou para prestar serviços de derivativos, o que ela precisa é continuar fazendo o que sempre teve que fazer para atuar no Brasil: seguir a lei e a resolução", completou.

Mercado de apostas no futuro movimentou cerca de US$ 34 bilhões apenas no ano passado (Imagem: Shutterstuck)

Mercado de previsões é cassino?

No momento em que vários governos levantam preocupações sobre as apostas virtuais, o mercado preditivo pode parecer mais uma opção para tirar dinheiro da população. Há muita gente que classifica esse segmento, inclusive, como uma espécie de “bet” remodelada. No entanto, há diferenças entre os dois tipos de apostas, conforme explicam especialistas.

A grande distinção entre os dois modelos é contra quem o consumidor está apostando: nas bets, é contra a casa de apostas; nas predições, é contra outros usuários do mesmo ecossistema. Além disso, o primeiro surge mais como uma opção de entretenimento, enquanto o segundo pode ser visto como investimento.

Os dois produtos também se enquadram em legislações regulatórias diferentes, já que o mercado de previsões pode ser visto como derivativo da bolsa de valores. Isto é, não possui um valor próprio, mas deriva de um ativo que existe no mundo da economia.

No caso do Brasil, eles resultam do índice da bolsa de valores, por exemplo, que é uma pontuação que muda diariamente com base no sentimento dos investidores. Já o contrato que segue o IPCA desende da movimentação dos preços no mercado interno.

"As pessoas podem ou não querer possuir cripto, mas têm uma opinião sobre a direção para onde as criptomoedas vão se mover", disse JB Mackenzie, vice-presidente e gerente geral de futuros e internacionais da corretora Robinhood. "Então, na verdade, acho que o que os mercados de contratos de eventos proporcionaram às pessoas foi a capacidade de acessar uma variedade de classes de ativos às quais talvez não tivessem acesso antes”. 

Cabe ressaltar ainda que, no caso das previsões, a empresa na qual o serviço é oferecido não assume posição na aposta. O lucro vem justamente por intermediar os palpites dos usuários, que, no final, vão receber o prêmio de acordo com o que previram e o resultado observado na vida real.

Fora do Brasil, os sites que oferecem esse serviço, porém, vão muito além dos contratos econômicos e entram também em outros temas. É possível apostar em resultados de partidas esportivas, em conflitos geopolíticos e até nos eventuais vencedores do Oscar. Há quem defenda que o modelo ainda carece de maior regulação e transparência, sobretudo em relação à definição dos eventos.

Previsões são seguras?

Isso não quer dizer, porém, que os investidores não possam ter problemas, mesmo que seus palpites estejam certos. No começo deste ano, por exemplo, em ocasião de uma operação envolvendo Nicolás Maduro, o Polymarket resolveu não pagar aos usuários que apostaram na queda do regime.

A empresa alegou que a operação feita pelos EUA não se configurou como invasão, já que as forças militares de Washington não tomaram o poder nem estabeleceram controle sobre o país.

“O Polymarket se tornou puramente arbitrário”, disse um apostador. “As palavras são redefinidas à vontade, desconectadas de qualquer significado reconhecido, e os fatos são simplesmente ignorados.”

Apenas nesse evento, os sites de predições movimentaram mais de US$ 1,2 milhão em poucos minutos. A situação levantou suspeitas de como usuários com informações privilegiadas podem ter usado esses sistemas para lucrar.

Uma reportagem da BBC News fez também uma comparação com a guerra no Irã, que teve início no começo de março. Segundo o artigo, antes de cada nova fala de Donald Trump sobre o assunto, a movimentação de negociações aumentava de forma exponencial.

Um desses casos foi em 9 de março, quando ele disse que a guerra no Irã estava praticamente concluída, às 19h20. Antes disso, por volta das 18h30, as apostas na queda do petróleo dispararam. Já cerca de uma hora depois da entrevista, o preço real da commodity começou a cair, fazendo com que os apostadores lucrassem com a fala do chefe da Casa Branca.

Bets contra-atacam

Embora possam não ser a mesma coisa, é fato que as apostas em eventos preditivos podem tomar um espaço hoje ocupado pelas bets. No ano passado, apenas as empresas autorizadas nesse setor tiveram receitas que somaram R$ 37 bilhões, conforme levantamento da Tendências Consultoria.

Com a chegada de novos players, que não contam com as mesmas regras, o lucro dessas marcas pode diminuir. Por isso, as empresas do setor trabalham estrategicamente para contra-atacar essa nova concorrência.

As empresas fazem uma espécie de lobby em Brasília para defender que o mercado preditivo seja enquadrado como aposta no Brasil. Isso mudaria não só a maneira como esses negócios são vistos, como também imporia as mesmas regras e impostos que as bets seguem no país.

Parte dessa pressão está sendo feita pelo Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que reúne 3 em cada 4 bets autorizadas a funcionar no país. Em fevereiro, representantes tiveram uma reunião com a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda para tratar do tema, pedindo que essas plataformas também estejam sob o guarda-chuva da Lei nº 14.790/2023.

“Considerando o estágio de consolidação do marco regulatório brasileiro e os objetivos de proteção ao consumidor, integridade do mercado e previsibilidade arrecadatória, o IBJR entende ser estratégico que o tema seja objeto de análise técnica coordenada no âmbito desta pasta, a fim de prevenir lacunas regulatórias e mitigar riscos sistêmicos”, diz nota técnica assinada por André Gelfi, conselheiro e diretor do IBJR.

A Fazenda diz que trata o tema com cautela e que, atualmente, não há empresas formalmente autorizadas a atuar no mercado de previsões. “Quaisquer outras avaliações regulatórias sobre o assunto dependem da conclusão das análises técnicas em curso e serão conduzidas em articulação com os órgãos competentes, entre eles a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), no intuito de análise acerca de eventuais interfaces regulatórias”, completou a SPA.