O debate sobre o início de um novo ciclo de queda da
Taxa Selic volta ao centro das atenções do mercado, mas o cenário ainda mistura expectativas e incertezas devido à guerra no Oriente Médio.
Enquanto isso, as projeções do mercado apontam para um avanço de 4,10% da inflação em 2026, de acordo com o
Boletim Focus, relatório semanal do Banco Central do Brasil que reúne estimativas de economistas do mercado financeiro.
Mesmo com esse pano de fundo, investidores seguem atentos aos próximos passos da política monetária, tentando entender quais setores da bolsa podem sair na frente, e quais podem ficar para trás.
O corte de juros já está no preço?
Para Mauricio Nakahodo, professor de Economia da Faculdade ESEG, Faculdade do Grupo Etapa, a direção do novo ciclo já parece amplamente incorporada aos preços dos ativos, mas ainda existem pontos importantes em aberto.
Segundo ele, o mercado ainda debate o tamanho do primeiro corte, que pode variar entre 25 ou 50 pontos-base, além da velocidade de redução e do nível final da taxa no término do ciclo.
Outro fator que entrou no radar recentemente é a escalada da tensão no Oriente Médio. Para Nakahodo, isso não deve impedir o início do processo de corte, mas mudou o debate dentro do mercado.
“A curva deixou de precificar um caminho ‘limpo’ e passou a discutir 25 pb versus 50 pb já em março, além de rever a Selic de fim de ano para cima depois do choque geopolítico de escalada da guerra no Oriente Médio”, afirma.
Na última pesquisa Focus, a expectativa é que a Selic termine o ano entre 12% e 12,25%. No entanto, um cenário de guerra prolongada que mantenha o petróleo elevado pode pressionar combustíveis, frete e inflação, o que poderia levar o mercado a revisar a taxa final para acima de 12,50%.
Na visão de Felipe Franchi, CEO da fintech Franchi, o cenário global adiciona ainda mais incerteza ao ciclo de cortes.
“Consequentemente estaríamos em um ambiente ainda mais inseguro e com improbabilidade de qualquer corte robusto da taxa Selic, uma vez que essa pressão inflacionária de curto prazo, principalmente pela guerra no Irã, poderia frustrar qualquer corte significativo na taxa de juros.”
Quem ganha com a queda da Selic?
Se o ciclo de cortes realmente se confirmar, alguns setores da B3 tendem a reagir mais rapidamente.
Empresas ligadas à economia doméstica, especialmente as que dependem de crédito, costumam ser as primeiras beneficiadas quando os juros começam a cair. É o caso de
varejo, e-
commerce,
construção civil,
shoppings e parte das
small caps.
Utilities intensivas em capital, como
empresas de energia elétrica e saneamento, também podem se beneficiar, já que a queda da Selic reduz o custo de financiamento e aumenta o valuation de companhias com fluxos estáveis e forte pagamento de dividendos.
Quem pode ficar para trás?
Nem todos os setores da bolsa respondem da mesma forma à política monetária doméstica. Segmentos com forte exposição ao cenário global tendem a reagir menos às mudanças na Selic.
O
setor bancário também apresenta um efeito misto. Por um lado, juros menores podem estimular a concessão de crédito e reduzir a inadimplência. Por outro, diminuem o retorno financeiro associado a taxas mais altas.
Um caso específico citado por Nakahodo é o
Banco do Brasil (BBAS3), cujas ações foram pressionadas no último ano pela alta da inadimplência entre produtores do agronegócio. Segundo ele, a queda gradual dos juros pode aliviar a situação financeira desses empresários e ajudar em uma recuperação gradual das ações.
Ainda assim, a dinâmica da bolsa dependerá da interação entre fatores domésticos e globais. “Embora a queda de juros seja positiva para a bolsa como um todo, o impacto no Ibovespa depende da interação entre política monetária doméstica e ciclo global de commodities”, afirma Nakahodo.