🌾 A confirmação do El Niño por órgãos meteorológicos internacionais acionou o radar do mercado financeiro para as oscilações na produção agrícola.
Os analistas basearam as projeções em dados de eventos passados de forte intensidade, utilizando o intervalo de 2015/2016 como parâmetro para um cenário de estresse extremo e os registros de 2023/2024 como base para um evento de escala intermediária.
O estudo enfatiza que as comparações consideram a capacidade produtiva teórica de cada período, "e não às perdas realizadas, uma vez que mudanças de área plantada podem distorcer materialmente a análise."
"Um possível cenário de El Niño muito forte teria implicações relevantes para praticamente todas as companhias sob nossa cobertura, dada sua capacidade de impactar a produção agrícola global", alerta o relatório.
O impacto varia por cultura
A XP detalhou o comportamento esperado para cada commodity. O complexo sucroenergético aparece entre as culturas de maior vulnerabilidade, com risco de redução no rendimento dos canaviais e potencial encolhimento do volume de exportação em grandes produtores globais como Tailândia e Índia.
Para o milho, o foco de preocupação recai sobre a segunda safra, cujo ciclo depende fortemente do padrão de umidade e pode sofrer gargalos em caso de atrasos no plantio, com os efeitos esperados para a reta final de 2026.
A soja apresenta comportamento historicamente mais estável no âmbito nacional, com problemas concentrados na região do MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), enquanto plantações do Sul têm chances de registrar incremento de volume.
O trigo apresenta vulnerabilidade na Região Sul, com risco elevado de chuvas fora do padrão e perdas por geadas. Algodão, arroz e feijão apresentam respostas fracas e sem constância ao fenômeno.
Jalles e São Martinho adotaram estratégias opostas
O panorama de curto prazo para o segmento de açúcar e etanol é visto com cautela pela XP, que projeta preços pressionados em uma conjuntura de moagem acelerada. As duas principais usinas de capital aberto adotaram caminhos distintos.
A Jalles Machado implementou uma comercialização defensiva mais ágil, garantindo a venda de praticamente todo o volume projetado para a safra a preço médio próximo de R$ 2.400 por tonelada.
A XP considera a postura da usina mais acertada considerando os patamares atuais do mercado físico. A São Martinho, por outro lado, manteve fatia maior dos estoques exposta às oscilações diárias, com travas para cerca de 40% do volume esperado da safra a preço médio de US$ 16,1 centavos por libra-peso, equivalente a R$ 2.101 por tonelada.
"Seguimos vendo um cenário desafiador no curto prazo para ambas as companhias, com fundamentos ainda apontando para pressão sobre os preços de açúcar e etanol", diz o relatório.
SLC e BrasilAgro concentram mais de 50% das fazendas nas regiões de maior risco
Para os grupos focados em grãos, o principal obstáculo está na probabilidade de estiagens prolongadas e temperaturas elevadas nas regiões Norte, Nordeste e na porção superior do Centro-Oeste. Essa geografia concentra 52,6% das fazendas da SLC Agrícola e 54,6% da área explorada pela BrasilAgro.
A irrigação surge como ferramenta de mitigação. A SLC planeja alcançar 62 mil hectares irrigados (7,5% de sua área cultivável), com investimentos nas frentes de Piratini, Paysandu, Palmares, Pamplona e Paladino.
A BrasilAgro mantém 13,8 mil hectares irrigados (8,9% do portfólio de terras). Ainda assim, a XP vê relação de risco e retorno desfavorável para ambas, com as desvantagens mais pronunciadas para a SLC.
"Embora ambas as companhias estejam expostas a riscos climáticos negativos, as perdas potenciais de produtividade e o cenário mais fraco para o Fluxo de Caixa Livre parecem mais pronunciados para a SLC", aponta o documento.
No campo comercial, a SLC realizou travas para 18,4% da sua colheita de soja a US$ 11,82 por bushel (R$ 134,6 por saca), enquanto a BrasilAgro segue sem proteções financeiras para o ciclo 2026/2027.
3Tentos é a única com cenário positivo no El Niño
A 3Tentos segue no sentido inverso das demais, sendo classificada pela XP como a empresa com o desenho operacional mais promissor diante das projeções climáticas. O Rio Grande do Sul, responsável por cerca de 7% do volume nacional de grãos, sofreu com estiagens crônicas nos anos anteriores.
Como o El Niño historicamente reverte a seca e aumenta o volume de chuvas no Sul, o banco identifica um cenário favorável para o negócio.
"Vemos o fenômeno como assimetricamente positivo para a companhia", afirma o relatório. O estado gerou 52% do faturamento da divisão de comercialização da 3Tentos no acumulado de 2025, além de cerca de 60% do processamento de soja e 65% da comercialização de insumos agrícolas.
📊 A XP projeta que a volta do regime regular de chuvas deve gerar ganhos simultâneos em toda a operação, com lavouras mais cheias expandindo os resultados do esmagamento, originação facilitada no trading e estímulo aos produtores a adquirirem mais insumos e tecnologia.