🚀 O que deveria ter sido um negócio histórico para a Mirae Asset Securities se transformou em um dos episódios mais constrangedores do mercado financeiro global em 2026.
A maior corretora da Coreia do Sul ficou de fora da distribuição de ações no
IPO da
SpaceX (SPCX34), operação de US$ 86 bilhões que bateu o recorde de maior oferta pública da história, tornando-se a única entre os 23 coordenadores a não receber nenhuma alocação. A causa foi um mal-entendido sobre o procedimento de envio de ordens.
O caso veio a público por pessoas a par do assunto que preferiram não ser identificadas, por se tratar de detalhes inéditos sobre uma questão privada.
Segundo essas fontes, o equívoco ocorreu durante uma etapa da operação conhecida internamente como "Projeto Apex".
Confusão custou US$ 1,1 bilhão
Em meados de maio, semanas antes do início do bookbuilding, os bancos coordenadores enviaram um e-mail pedindo que os subscritores indicassem a demanda de seus investidores, reunida em uma sala de dados virtual, conforme prática padrão para operações desse porte. A Mirae respondeu ao e-mail acreditando que já havia registrado as ordens firmes de seus clientes.
Para os bancos de Wall Street que conduziam a operação, no entanto, aquelas respostas representavam apenas indicações de interesse, sem caráter vinculante.
As ordens efetivas só seriam registradas em junho, após um segundo e-mail enviado pelos coordenadores, como é praxe nesse tipo de IPO. Como a Mirae não enviou ordens nessa segunda etapa, os bancos entenderam que a corretora não havia coletado demanda de varejo e, por isso, não recebeu nenhuma alocação destinada a esse público.
O resultado foi mais de US$ 1,1 bilhão em demanda de investidores coreanos nunca chegou ao livro de ofertas do IPO.
Corretora tentou alternativa via colocação privada
A situação havia ficado ainda mais complexa em abril, quando ficou claro que a SpaceX não poderia oferecer acesso direto a investidores de varejo coreanos, em parte por razões regulatórias.
A Mirae optou então por captar ordens por meio de colocação privada, direcionada a instituições selecionadas e clientes de alta renda, modalidade sujeita a regras diferentes na Coreia do Sul.
A confiança interna cresceu quando, em 20 de maio, um documento da SpaceX enviado à SEC (órgão regulador do mercado de capitais dos EUA) confirmou que as ações seriam oferecidas na Coreia do Sul por essa via.
A corretora chegou a reunir US$ 1,14 bilhão em ordens de clientes sul-coreanos antes de descobrir, no sistema de um dos coordenadores líderes, que nenhuma ação havia sido alocada à empresa.
"Curvamos a cabeça": vice-presidentes pedem desculpas
A frustração chegou diretamente aos investidores que haviam se inscrito para comprar ações da SpaceX com grande expectativa. Em 15 de junho, os vice-presidentes da Mirae, Kim Mi-seop e Heo Seon-ho, enviaram mensagem de texto a clientes pedindo desculpas pelo ocorrido, conforme reportou o jornal Seoul Economic Daily.
"Curvamos a cabeça e pedimos desculpas por entregar uma notícia tão infeliz e pesada a clientes que participaram da subscrição do IPO da SpaceX com grande interesse e expectativa", disseram os executivos, prometendo revisão do processo e medidas para restaurar a confiança dos consumidores.
Outros investidores coreanos de grande porte, como o Serviço Nacional de Pensão, fundo de US$ 1 trilhão, e a Mirae Asset Global Investments, conseguiram alocações por meio dos coordenadores líderes, o que aprofundou o constrangimento da corretora.
Regulador sul-coreano abre investigação
O FSS (Serviço de Supervisão Financeira) da Coreia do Sul abriu inspeção para verificar inicialmente se os investidores inscritos cumpriam os requisitos de elegibilidade. O escopo do processo foi posteriormente ampliado para investigar também por que a corretora não conseguiu garantir nenhuma alocação.
Lee Chan-jin, chefe do órgão regulador, disse a jornalistas em 22 de junho que considera "incompreensível até agora" o fato de a Mirae ter ficado com as mãos vazias, acrescentando que esperava que investidores profissionais coreanos recebessem alocação "naturalmente."
Os resultados da inspeção ainda não foram divulgados. O processo é mais formal do que uma simples revisão e pode resultar em sanções contra a corretora.
📊 Os coordenadores líderes do IPO, Goldman Sachs, Morgan Stanley e Citigroup, além da própria Mirae, não quiseram comentar o caso. A SpaceX também não respondeu a pedido de comentário.