No centro do debate político, o fim da escala 6x1 conta com um apoio cada vez maior da população brasileira. Porém, enfrenta resistência do lado das empresas. Por isso, exige uma análise estratégica por parte do investidor.
Por que discutir a escala 6x1?
Na escala 6x1, o funcionário tem seis dias de trabalho para um dia de descanso semanal. É o modelo aplicado em setores como o comércio, o turismo e alguns ramos da indústria. E que rege o contrato de trabalho de 14 milhões de brasileiros, segundo o governo federal.
O Congresso Nacional e o Executivo avaliam acabar com esse modelo, para garantir que o trabalhador tenha ao menos dois dias de descanso semanal e, assim, mais bem-estar.
"A proposta devolve tempo aos trabalhadores e trabalhadoras: tempo para ver os filhos crescerem, para o lazer, para o descanso e para o convívio familiar. Um passo para um país mais justo e com mais qualidade de vida para todos", afirmou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao enviar um projeto de lei que prevê o fim da escala 6x1 ao Congresso Nacional.
De acordo com o governo, a proposta ainda pode reduzir os afastamentos por doenças relacionadas ao trabalho e elevar a produtividade do trabalhador, além de aproximar o Brasil da experiência internacional.
O Chile e a Colômbia também aprovaram a redução da jornada de trabalho semanal recentemente. Além disso, a jornada de até 40 horas semanais já é predominante na Europa.
Os custos da mudança
O fim da escala 6x1 conta com o apoio de 71% dos brasileiros, segundo pesquisa Datafolha realizada em março de 2026.
A avaliação dos entrevistados pelo Datafolha é de que a medida será ótima ou boa para a qualidade de vida (76%) e ainda pode trazer algum efeito positivo para a economia (50%).
A proposta, porém, é vista com preocupação pelas empresas, que projetam custos maiores e, portanto, retornos menores a partir da mudança. Logo, deve ser analisada estrategicamente pelos investidores.
Pelos cálculos da CNI (Confederação Nacional da Indústria), a mudança na jornada de trabalho pode elevar em até R$ 267,2 bilhões as despesas com salários.
A CNI ainda sugere que as empresas não devem arcar com esse custo sozinhas. Por isso, diz que a mudança pode levar a uma alta média de 6,2% dos preços cobrados ao consumidor, com as compras em supermercado podendo ficar 5,7% mais caras.
"Antes de ampliar os desafios existentes, é preciso avaliar com responsabilidade o impacto sobre a geração de empregos formais, o preço dos produtos/serviços e a inflação; a perda de competitividade e o aumento das importações, que podem inviabilizar empresas e ocasionar a perda de postos de trabalho; o reflexo no déficit fiscal público; as dificuldades de contratação de horas de trabalho para repor as horas reduzidas na atual situação de 'pleno emprego', assim como o crescente número de inscritos em programas sociais", afirmou a CNI, em um manifesto enviado a parlamentares.
O impacto no balanço
Ao avaliar o impacto nas empresas sob sua cobertura, a Fitch disse que o fim da escala 6x1 deve pressionar a rentabilidade das varejistas.
Estudos preliminares da agência apontam para uma redução de até 15% do Ebitda, além de uma queda de 200 pontos-base da margem dessas companhias, caso a mudança não seja acompanhada por nenhuma medida compensatória.
Já a XP projeta um impacto ainda maior, de até 18% do Ebitda e do lucro líquido, para as varejistas que não conseguirem repassar o aumento de custos para o consumidor.
Os especialistas concordam, então, que a mudança pode impactar os resultados corporativos, caso não seja acompanhada por nenhuma regra de transição.
"É um choque negativo de produtividade que afetará as margens das empresas", diz o economista-chefe da Forum Investimentos, Bruno Perri.
CEO da Magno Investimentos, Olívia Flôres de Brás também prevê alguma revisão de expectativas de lucro e geração de caixa no curto prazo. Porém, não é tão pessimista.
Para ela, a mudança também pode gerar um estímulo econômico no médio prazo, já que daria mais tempo para os trabalhadores investirem em consumo, qualificação e atividades pessoais, o que poderia movimentar as atividades de comércio e serviços.
Os setores mais afetados
Na avaliação de analistas, o fim da escala 6x1 impacta sobretudo as pequenas e médias empresas e os setores intensivos em mão de obra.
É o caso do comércio, do
varejo e de serviços como o turismo, os bares e restaurantes -atividades que já enfrentam algumas incertezas, devido aos juros altos e ao elevado endividamento das famílias.
"Esses segmentos, que já operam com margens mais apertadas e custos relevantes com pessoal, tendem a precisar contratar mais gente ou pagar horas extras para manter o nível de atividade, o que aumenta despesas e reduz a competitividade, especialmente em mercados sensíveis a preço", comentou Olívia Brás.
Para a Fitch, os setores mais afetados são os de
varejo farmacêutico, que normalmente operam em três turnos, e aqueles cuja maior parte das operações se dá em shoppings, onde há menor flexibilidade para ajustar horários, como o setor de vestuário.
Restaurantes e similares também tendem a enfrentar maiores pressões de custos, dada a natureza do negócio e o funcionamento de seis a sete dias por semana, segundo a agência de classificação de risco.
Por sua vez, a XP acredita que o maior impacto deve ficar com as empresas que já apresentam maior alavancagem ou
margens mais baixas, como as do varejo farmacêutico e de alimentos.
Grandes empresas também podem se sair melhor nesse cenário, na avaliação do economista Danilo Coelho. Afinal, embora tenham um custo fixo maior devido à quantidade de funcionários, têm condições de diluir esse custo fixo entre as suas operações com mais facilidade.
E o investidor?
Diante desse cenário, a CEO da Magno Investimentos diz que essas incertezas podem se refletir no preço das ações das empresas listadas na B3, enquanto o governo e os parlamentares chegam a um consenso sobre o futuro da escala 6x1.
Ela diz, então, que o momento exige uma análise cuidadosa, menos baseada em generalizações setoriais, por parte do investidor.
Segundo Olívia Brás, o importante para tomar boas decisões neste momento é observar indicadores como eficiência por funcionário, peso dos custos trabalhistas na receita, nível de automação, flexibilidade operacional e capacidade de repasse de preços.
Ou seja, "fatores que permitem diferenciar empresas com maior capacidade de absorção desse choque daquelas mais expostas à deterioração de desempenho".
O debate político
O fim da escala 6x1 está em análise no Congresso Nacional e promete movimentar os debates eleitorais deste ano.
Além do projeto de lei do governo, duas PECs (Propostas de Emenda à Constituição) que propõem o fim da escala 6x1 tramitam na Câmara dos Deputados.
Os textos já receberam um parecer favorável do relator na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), o deputado federal Paulo Azi (União-BA), e teriam a sua admissibilidade votada pela comissão na última quarta-feira (15).
A votação acabou sendo adiada depois que deputados críticos à matéria pediram mais tempo para avaliar o relatório. Porém, já foi remarcada para a próxima quarta-feira (22).
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou que há uma vontade política do Parlamento de aprovar o fim da escala 6x1, por acreditar que a medida trará avanços para o país.
Além disso, o governo Lula (PT) tenta aprovar a proposta até maio, para ter esse trunfo no Dia do Trabalhador e, sobretudo, na corrida eleitoral.
Motta também já indicou, contudo, que a Câmara deve seguir focada nas PECs. Por isso, não deve indicar um relator para o projeto de lei enviado pelo governo.
O que muda em cada projeto?
O projeto do governo prevê a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial e sem regra de transição.
Ou seja, o texto busca consolidar o modelo 5x2, com cinco dias de trabalho para dois de descanso, de maneira acelerada, embora alguns membros do governo já admitam a possibilidade de discutir um tempo de adaptação.
Já as PECs dão um passo além no que diz respeito ao tempo de trabalho, mas já estabelecem um período de transição para a mudança.
Uma das PECs foi apresentada pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) e prevê a redução da jornada de trabalho para 36 horas semanais, com um período de transição de dez anos.
A outra é de autoria da deputada Erika Hilton (PSOL-SP) e prevê a redução da jornada de trabalho para quatro dias por semana, com um prazo de transição de 360 dias.
A tendência é que, ao discutir o mérito do assunto, os parlamentares tentem criar um meio termo entre as propostas, para tentar acomodar os pedidos dos trabalhadores, mas também as preocupações das empresas.