RLP: o que é o Retail Liquidity Provider e vale a pena ativar?

Entenda como funciona a oferta que permite à corretora ser a contraparte das suas ordens, quais são as regras da B3 e os prós e contras de ativá-la.

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Publicado em 14/01/2021 às 12:58h - Atualizado em 28/10/2026 às 16:10h Publicado em 14/01/2021 às 12:58h Atualizado em 28/10/2026 às 16:10h por Kelly Quintiliano
Com o RLP ativado, a própria corretora pode comprar ou vender do cliente, sempre a preço igual ou melhor que o do mercado. (Imagem: Ilustração criada com Inteligência Artificial)
Com o RLP ativado, a própria corretora pode comprar ou vender do cliente, sempre a preço igual ou melhor que o do mercado. (Imagem: Ilustração criada com Inteligência Artificial)

O que é RLP?

RLP é a sigla de Retail Liquidity Provider, ou provedor de liquidez para o varejo. É um tipo de oferta da B3 que permite à corretora, ou ao banco, atuar como contraparte das ordens dos próprios clientes pessoas físicas.

Normalmente, a corretora apenas intermedeia: sua ordem de compra é casada com a ordem de venda de outro investidor no livro de ofertas. Com o RLP, a própria instituição pode assumir o outro lado da operação, usando sua conta própria.

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Mesmo assim, tudo continua acontecendo dentro da B3. O negócio é registrado na bolsa como qualquer outro e segue as regras de fiscalização do mercado.

Como o RLP chegou ao Brasil

O modelo já existia nos Estados Unidos e foi aprovado pela CVM em 2019, após consulta pública. No Brasil, começou a funcionar em agosto daquele ano, inicialmente como experimento e apenas nos minicontratos de Ibovespa (WIN) e de dólar (WDO).

Em 2022, a B3 passou a oferecer o RLP também em ações, em caráter experimental e para uma lista limitada de papéis. Depois de alguns anos de testes, a CVM aprovou o RLP em definitivo para os minicontratos, enquanto o uso em ações seguiu como experimento, com regras revisadas pela B3.

Como o RLP funciona na prática

A corretora envia ao sistema da B3 uma oferta RLP, que fica oculta no livro de ofertas e só pode ser executada contra ordens dos clientes dela mesma. Os demais participantes do mercado não veem essa oferta.

Quando uma ordem sua encontra essa oferta, o negócio é fechado na B3 a um preço igual ou melhor que o melhor preço disponível no livro naquele momento. Logo depois, a operação aparece normalmente no histórico de negócios (times and trades).

Se a oferta RLP não for executada durante o pregão, ela é cancelada automaticamente no fim do dia.

Como a corretora ganha com o RLP

Ao ser a contraparte do cliente, a corretora pode lucrar com a diferença entre o preço em que negociou com você e o preço em que consegue zerar a posição no mercado, o chamado spread.

Por isso, muitas instituições oferecem corretagem zero para quem ativa o RLP. O ganho vem dessa diferença de preço, e não da tarifa cobrada por ordem.

Principais regras

  • Exclusivo para pessoas físicas: apenas clientes de varejo podem usar o RLP.
  • Adesão opcional: o investidor precisa dar aceite prévio na corretora.
  • Preço igual ou melhor: a oferta RLP não pode ser executada a um preço pior que o melhor preço do livro.
  • Apenas com a própria base: a corretora só negocia via RLP com os próprios clientes.
  • Oferta oculta: a oferta não aparece no livro e só se torna visível depois do negócio fechado.
  • Limite de volume: nos minicontratos, o RLP não pode passar de 15% do volume total negociado. Nas ações, o limite é o menor entre 15% do volume total do papel e 30% do volume de varejo.
  • Ativos elegíveis: minicontratos WIN e WDO e uma lista de ações definida pela B3.
  • Cancelamento no fim do dia das ofertas que não forem executadas.

As operações com RLP são acompanhadas pela B3, pela CVM e pela BSM, braço de autorregulação da bolsa, que monitoram o cumprimento das regras e possíveis práticas abusivas.

Vantagens do RLP

Preço igual ou melhor. Pela regra, a execução via RLP nunca pode sair a um preço pior que o melhor disponível no livro. Em alguns casos, o investidor consegue um preço ligeiramente melhor.

Mais liquidez. Com a corretora disposta a assumir o outro lado, fica mais fácil executar ordens rapidamente, inclusive em momentos de menor movimento.

Menos execuções fracionadas. Sem RLP, uma ordem grande pode ser executada em várias partes, a preços diferentes. A oferta RLP pode absorver a ordem de uma vez, o que simplifica o cálculo do preço médio.

Corretagem zero. Como a corretora ganha com o spread, muitas oferecem isenção de corretagem para quem ativa o RLP. Para quem faz muitas operações no dia, a economia pode ser relevante.

Desvantagens e críticas ao RLP

Conflito de interesses. Com o RLP, a corretora passa a ter dois papéis: intermediar as ordens do cliente e, ao mesmo tempo, negociar contra elas. Desde a consulta pública, analistas e participantes do mercado apontam esse ponto como a principal crítica ao mecanismo.

O conflito fica mais evidente quando a mesma instituição oferece salas de operação, análises ou recomendações de entrada e saída. Ela pode estar orientando o cliente e, ao mesmo tempo, sendo a contraparte da operação.

Menos transparência no livro. Como as ofertas RLP ficam ocultas, parte da liquidez deixa de aparecer para os demais participantes antes da execução. Isso dificulta a leitura do fluxo de ordens por quem opera com base no livro.

Possível efeito na liquidez geral. Parte do fluxo de varejo, que costuma ser atrativo para formadores de mercado, passa a ser absorvido pelas próprias corretoras. Críticos argumentam que isso pode reduzir o interesse desses agentes em oferecer liquidez no livro público ou aumentar os spreads.

Corretagem zero não é custo zero. O ganho da corretora vem do spread. Para o investidor, o custo não aparece na nota de corretagem, mas pode estar embutido no preço em que a operação poderia ter sido executada.

Vale a pena ativar o RLP?

Não existe uma resposta única. A decisão depende de como você opera, de quanto paga de corretagem e de como enxerga o conflito de interesses envolvido.

Para quem faz muitas operações no dia com minicontratos, a corretagem zero e a execução rápida costumam pesar a favor. Para quem opera pouco ou com foco no longo prazo, a diferença tende a ser pequena.

Antes de decidir, vale considerar alguns pontos:

  • Compare o custo total das suas operações com e sem RLP, e não apenas a corretagem.
  • Leia os termos de adesão da corretora e confirme em quais ativos o RLP será aplicado.
  • Verifique se a corretora oferece recomendações ou salas de operação e como trata o conflito com o RLP.
  • Lembre que é possível desativar a função depois, caso ela não faça sentido para você.

Operações com minicontratos envolvem alavancagem e risco elevado. Por isso, quem opera nesse mercado deve usar apenas recursos que pode perder, mantendo a reserva de emergência separada.

Conclusão

O RLP permite que a corretora atue como contraparte das ordens dos próprios clientes, com a garantia de preço igual ou melhor que o do mercado. Em troca, muitas instituições oferecem corretagem zero e execução mais rápida.

Ao mesmo tempo, o mecanismo cria um conflito de interesses e reduz a transparência do livro de ofertas. Entender esses dois lados é o que permite decidir, com consciência, se vale a pena ativá-lo.

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