MP das bets: Veja quais setores podem ganhar e perder com a medida

Entre as empresas de varejo citadas estão Assaí (ASAI3) e Magazine Luiza (MGLU3).

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Publicado em 28/09/2026 às 17:19h Publicado em 28/09/2026 às 17:19h por Elanny Vlaxio
A C&A também está no radar (Imagem: Shutterstock)
A C&A também está no radar (Imagem: Shutterstock)
A proibição das bets anunciada pelo governo federal pode provocar efeitos diferentes entre empresas e setores da economia brasileira. Formalizada por meio da Medida Provisória nº 1.394/2026, a medida prevê o fim das operações de apostas esportivas de quota fixa e dos jogos on-line, como cassinos virtuais. 
Segundo André Bobek, consultor financeiro e CEO da Mhydas Planejamento Financeiro, o varejo e o crédito às famílias estão entre as áreas que podem ser beneficiadas indiretamente, enquanto empresas com negócios ligados diretamente às bets ficam mais expostas à perda de receitas. 

Varejo pode sentir efeito no orçamento das famílias

Entre as empresas de varejo citadas pelo especialista estão Assaí (ASAI3), Magazine Luiza (MGLU3), Casas Bahia (BHIA3), Lojas Renner (LREN3) e C&A (CEAB3). A possível melhora, porém, ocorreria por caminhos distintos. No Assaí, a hipótese passa pela recomposição do orçamento destinado à alimentação. 
Já Renner e C&A poderiam captar uma eventual retomada de compras de vestuário que tenham sido adiadas por restrições financeiras. No caso de Magazine Luiza e Casas Bahia, o possível impacto estaria relacionado à recuperação do consumo de bens duráveis, condicionado à capacidade das famílias de assumir parcelas e às condições de crédito.
Bobek ressalta, entretanto, que não se deve transformar essa leitura em uma estimativa automática de aumento de lucro. Uma família que deixe de gastar com apostas pode primeiro direcionar o dinheiro para quitar dívidas ou formar uma reserva, em vez de ampliar imediatamente o consumo.
A dimensão desse possível redirecionamento também precisa ser observada com cautela. O GGR, receita bruta de jogos após a dedução dos prêmios, foi de aproximadamente R$ 37 bilhões em 2025.
O indicador não corresponde ao lucro líquido das operadoras nem representa necessariamente dinheiro que seria transferido integralmente para o varejo, já que os recursos depositados e apostados podem circular novamente no próprio mercado.

Os setores mais expostos 

No lado oposto, a pressão tende a ser mais direta sobre negócios que fornecem publicidade, processamento de pagamentos, dados ou softwares para as operadoras. Entre as companhias listadas, Bobek cita a B3 (B3SA3) como exemplo de exposição comercial potencialmente afetada.
A Neoway oferece soluções voltadas à identificação de apostadores, prevenção a fraudes e conformidade regulatória. Com a proibição, o mercado potencial para essas soluções específicas diminui. Isso, porém, não significa automaticamente um impacto relevante sobre o resultado consolidado da B3, já que seriam necessários dados sobre a receita e os contratos relacionados a essa atividade.
A mesma lógica vale para empresas de pagamentos, cartões, maquininhas e tecnologia, como CSU Digital (CSUD3), Bemobi (BMOB3) e Cielo (CIEL3). Instituições que recebiam pelas atividades de processamento, contas e conciliação podem perder negócios, mas a dimensão desse efeito dependerá dos serviços efetivamente prestados e dos contratos mantidos com as operadoras.
No caso dos cartões, há ainda um ponto de contexto, já que, o uso de cartão de crédito nas apostas reguladas já era proibido desde janeiro de 2025. Por isso, não é possível presumir uma perda uniforme para todas as empresas do segmento.
Ao mesmo tempo, uma eventual recuperação das compras no comércio poderia favorecer os meios de pagamento utilizados nessas transações.

Mídia e tecnologia também entram no radar

A restrição à publicidade e ao patrocínio pode atingir veículos, agências e produtores de conteúdo que mantêm contratos com operadoras. A interrupção dessas receitas pode exigir a retirada de campanhas, renegociação de contratos e busca por novos anunciantes. O efeito sobre as margens dependerá da velocidade dessa substituição e dos custos que permanecerem.
Na tecnologia, fornecedores especializados na operação de plataformas de apostas podem enfrentar cancelamentos, redução na utilização dos sistemas e revisão de projetos desenvolvidos especificamente para esse mercado.
Por outro lado, o combate às operações ilegais pode criar demanda por ferramentas de monitoramento, segurança e prevenção a fraudes, embora não haja garantia de que essas novas oportunidades compensem integralmente os negócios perdidos.
“Eu separaria a análise em dois horizontes. No curto prazo, empresas que atendem diretamente às bets podem enfrentar interrupção de receitas e despesas de adaptação. Para o varejo e o crédito, o benefício depende de mudanças no comportamento financeiro das famílias e exige mais tempo para ser comprovado nos resultados.”

O que acompanhar após a MP das bets

Para medir os efeitos sobre as empresas, o especialista aponta indicadores diferentes conforme o setor. No varejo, entram no radar vendas nas mesmas lojas, estoques e inadimplência. Na mídia, a velocidade de reposição dos anunciantes. Já em pagamentos e tecnologia, ganham importância a concentração de clientes e eventuais rescisões contratuais.
O desempenho também não deve ser atribuído exclusivamente à MP. Juros, renda das famílias e programas de renegociação de dívidas podem interferir nos resultados. 
No caso do Magazine Luiza, por exemplo, a companhia registrou no segundo trimestre de 2026 Ebtida ajustado de R$ 708,8 milhões e prejuízo líquido ajustado de R$ 50,4 milhões. Os números são anteriores à medida e mostram que o resultado final depende também das despesas financeiras e de outros componentes.
Por isso, a análise dos possíveis efeitos da MP passa pela receita efetivamente perdida ou recuperada, pelas margens, pelos custos de adaptação e pela geração de caixa. Além disso, como a medida ainda depende da apreciação do Congresso, o impacto de longo prazo estará condicionado à continuidade e ao desenho final das regras.