Bukele pode soltar metade dos presos ligados a gangues em El Salvador

Nayib Bukele afirmou que avalia soltar metade dos presos por ligação com gangues, mas não definiu prazo nem critérios.

Author
Publicado em 14/10/2026 às 19:37h Publicado em 14/10/2026 às 19:37h por Matheus Silva
Bukele disputará um 3º mandato seguido em 2027 (Imagem: Shutterstock)
Bukele disputará um 3º mandato seguido em 2027 (Imagem: Shutterstock)
🌎 O presidente de El Salvador, Nayib Bukele, sinalizou uma possível mudança no sistema que se tornou sua principal marca política. 
Em entrevista coletiva na Casa Presidencial, em San Salvador, na terça-feira (13), o mandatário afirmou que avalia conceder libertação antecipada e condicional a cerca de metade dos presos que estão no sistema prisional do país por suspeita de ligação com gangues.
Acompanhe todas as notícias pelo celular! Baixe o app
"Estamos avaliando os casos para oferecer uma libertação antecipada condicional a uma grande quantidade de presos", declarou Bukele. 
Segundo ele, os eventuais beneficiados não deixam de ser culpados, mas viviam sob o domínio das facções criminosas que controlavam boa parte do território salvadorenho.

Bukele diferencia presos pelo grau de colaboração com as gangues

Ao justificar a medida, o presidente defendeu que os detidos não podem ser tratados todos da mesma forma. Na visão dele, há diferentes níveis de envolvimento com as organizações criminosas, o que deveria refletir no tratamento dado a cada um.
Para ilustrar o raciocínio, Bukele comparou dois perfis. Segundo ele, não seria possível colocar no mesmo patamar de periculosidade alguém preso por "enterrar um cadáver" e outro que atuava avisando as gangues locais sobre a chegada da polícia.
Apesar do anúncio, o presidente não detalhou quando as libertações começariam a valer nem apresentou os critérios que vão definir quem será beneficiado. A falta de informações deixa em aberto o alcance real da medida.

Regime de exceção levou mais de 91 mil pessoas à prisão

O sistema em discussão é resultado do regime de exceção em vigor em El Salvador desde março de 2022. A medida suspende garantias constitucionais e, segundo o vice-presidente Félix Ulloa, levou à prisão de mais de 91 mil pessoas. 
Desde a adoção do regime, os homicídios no país caíram para níveis historicamente baixos, resultado que transformou Bukele em referência para políticos de diversos países da região.
O próprio presidente descreve a estratégia com uma metáfora médica, como uma espécie de "quimioterapia contra o câncer das gangues". Bukele reconhece que gostaria de suspender o regime em algum momento, mas ainda não há uma política de transição prevista no país.

Organizações apontam inocentes presos e mortes nas cadeias

O modelo, no entanto, é alvo de críticas relevantes, sobretudo em relação aos métodos utilizados. A organização Socorro Jurídico Humanitário afirma que cerca de 30 mil das pessoas detidas seriam inocentes. 
Denúncias locais também apontam que aproximadamente 500 custodiados morreram dentro das unidades prisionais.
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) foi além e indicou, em relatório, que crimes contra a humanidade podem estar sendo cometidos no país, o que reforça o debate internacional sobre os limites do combate ao crime organizado.

Modelo salvadorenho inspira plano de segurança de Flávio Bolsonaro

O anúncio repercute também no Brasil. O modelo de Bukele é uma das inspirações da agenda de segurança pública apresentada pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) em sua candidatura à Presidência. 
Em agosto, o candidato recebeu em São Paulo o ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro, e afirmou que a política salvadorenha inspira seu plano para a área.
Flávio já prometeu criar mais de 500 mil vagas em presídios brasileiros caso seja eleito. Outros nomes da direita, como o ex-governador mineiro Romeu Zema (Novo), também chegaram a defender durante a campanha a adoção de um modelo inspirado nos superpresídios salvadorenhos.

Bukele buscará terceiro mandato seguido em 2027

No campo político, Bukele vai concorrer a um terceiro mandato consecutivo em 2027. A candidatura se tornou possível após uma reforma constitucional aprovada em julho do ano passado, em sessão única. 
📊 As novas regras ampliaram a duração do mandato presidencial de cinco para seis anos e eliminaram o segundo turno das eleições no país.