Como o desejo de Trump pela Groenlândia chacoalha as bolsas de valores pelo mundo?

Entenda qual é a importância geopolítica do território da Groenlândia para o governo dos EUA.

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Publicado em 20/01/2026 às 12:10h - Atualizado 18 minutos atrás Publicado em 20/01/2026 às 12:10h Atualizado 18 minutos atrás por Lucas Simões
Anexação da Groenlândia já provoca disparada da renda fixa global e queda das big techs (Imagem: Shutterstock)
Anexação da Groenlândia já provoca disparada da renda fixa global e queda das big techs (Imagem: Shutterstock)
Muitos investidores estão atordoados, sem entender como as investidas do presidente americano Donald Trump contra o território da Groenlândia podem impactar sua carteira de investimentos no exterior em 2026. Por isso, vale a pena olhar a situação sob a ótica geopolítica para entender como as bolsas de valores mundo afora reagirão.
A Groenlândia é a maior ilha do mundo, com área total de 2,16 milhões de quilômetros quadrados (maior que a soma dos estados brasileiros de Amazonas e Minas Gerais). Só que mais importante que o seu tamanho em uma eventual anexação pelo governo Trump é a localização desse território no planeta.
Estrategicamente situada no Ártico, entre Canadá e Islândia, a Groenlândia tem o potencial de colocar os Estados Unidos em uma nova rota marítima, à medida que as mudanças climáticas provocam o aumento do derretimento das águas do Oceano Ártico. Há algumas décadas, só era possível navegar pela região durante 20 dias do ano nos meses de verão, mas, atualmente, os navios quebra-gelo já são capazes de operar durante três meses do ano.
Caso Trump tenha sucesso em suas ambições na Groenlândia, considerando que ele já turbinou o orçamento militar dos EUA em 50% e decidiu tarifar oito países europeus que se mostraram contrários ao seu plano de comprar o território, os EUA bloqueariam diretamente um de seus principais rivais geopolíticos: a Rússia. Afinal de contas, o país de Vladimir Putin tem a maior parte de seu litoral banhado pelo Oceano Ártico.
E para quem não entendeu o porquê de os europeus defenderem tanto a Groenlândia, isso se deve ao fato de o território semiautônomo pertencer oficialmente ao Reino da Dinamarca desde o século 19, um país soberano e com um dos maiores PIB per capita do mundo, além de integrante tanto da União Europeia quanto da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
Geograficamente, a Groenlândia faria parte da América do Norte, assim como os EUA, Canadá e México. Todavia, a formação histórica dos groenlandeses está ligada à colonização dos vikings há mais de um milênio, fora que a atual população da maior ilha do mundo já declarou que prefere seguir sob a tutela da Dinamarca para cuidar de suas relações diplomáticas, defesa militar e suporte econômico do que os EUA.

Groenlândia mexendo com bolsas de valores

Uma vez compreendido quem é cada país nesse tabuleiro de 'War' da vida real, é preciso destacar que o território da Groenlândia também é rico em recursos naturais e isso certamente impulsiona Trump a anexar a ilha e, na outra ponta, os europeus em não quererem largar o osso.
Embaixo da espessa camada de gelo que recobre quase 80% do território da Groenlândia estão acumuladas uma das maiores reservas mundiais de minerais críticos e terras raras, além de petróleo e gás natural. Não à toa, o VanEck Rare Earth and Strategic Metals ETF (REMX), que aplica nas maiores mineradoras de terras raras ao redor do globo, entrega valorização de +21% aos cotistas no acumulado de 2026.
Nesta terça-feira (20), as bolsas de valores mundiais registravam fortes perdas nos investimentos em renda variável, especialmente as gigantes de tecnologia americanas (big techs), ao passo que as taxas dos títulos de renda fixa disparavam, uma vez que a nova rodada das tarifas comerciais de Trump a diversos países deve provocar mais déficits aos governos.
A Europa cansou de ser expectadora das ambições geopolíticas de Trump e ameaça a Casa Branca com a “bazuca comercial”, considerando que o presidente francês Emmanuel Macron deseja que a União Europeia acione o instrumento anti-coerção. Tal mecanismo, nunca utilizado pelo bloco e informalmente apelidado de bazuca comercial, impõe restrições à importação de bens e serviços como forma de resposta a pressões econômicas externas.
Por sua vez, as big techs americanas são os principais alvos dos europeus, tanto que o Roundhill Magnificent Seven ETF (MAGS), investimento que replica as Sete Magníficas, caía -2,2% hoje. Só a famosa fabricante de chips Nvidia (NVDA), que faz parte do seleto grupo, via suas ações derreterem -3% na Nasdaq, a bolsa de valores tecnológica dos EUA.
Entre as repercussões na renda fixa global, as taxas disparam, o que provoca fortes perdas na marcação a mercado, embora novos aportes aproveitem juros compostos maiores. O título do governo dos EUA com vencimento em 30 anos saltou 10 pontos-base e se aproxima do rendimento de 5% ao ano. No Japão, o título governamental com vencimento em 40 anos bateu recorde, oferecendo taxa de 4,21% ao ano.