Neste início de abril, o governo de Donald Trump publicou um relatório que classifica o Pix, uma tecnologia 100% brasileira, como uma séria desvantagem para as gigantes companhias americanas donas de bandeiras de cartão de crédito, especialmente
Mastercard (MA) e
Visa (V).
"O Banco Central do Brasil criou e regula o Pix; stakeholders dos Estados Unidos temem que o Brasil dê tratamento preferencial ao sistema, prejudicando fornecedores norte-americanos de serviços de pagamentos eletrônicos. O uso do Pix é obrigatório para instituições com mais de 500 mil contas", menciona o documento da Casa Branca.
A preocupação de Trump se faz justa, do ponto de vista de seus interesses, uma vez que empresas como Mastercard e Visa arrecadam bilhões de dólares anualmente em receitas geradas a partir de transações internacionais. Já o Pix Internacional deverá apresentar taxas muito mais competitivas, dado que no Brasil o sistema é gratuito.
Em 2027, o nosso Banco Central já prepara o lançamento efetivo do Pix Internacional, indo muito além das funcionalidades limitadas atuais que atendem apenas parcialmente as necessidades de turistas brasileiros e residentes em destinos específicos dominados pela comunidade brasileira no exterior.
O principal gargalo para o Pix Internacional deslanchar de vez é a sua conexão à plataforma Nexus, criada pelo Banco Internacional de Compensações (BIS, na sigla em inglês). Em tal plataforma, o Pix conversaria diretamente com dezenas de outros sistemas de pagamentos instantâneos desenvolvidos por outros países, caso do "Pix Quênia", que já existe há quase 20 anos.
Logo, o Pix Internacional promete em breve o envio e recebimento de dinheiro para em torno de 60 países da América Latina, da Europa, da Ásia e da África, sem depender das estruturas de gigantes financeiros em Wall Street. Atualmente, já é possivel usar o Pix em alguns lugares do mundo populares entre turistas brasileiros, como em estabelecimentos espalhados em Miami, nos Estados Unidos, além de lojas na Argentina, Paraguai, Uruguai, Portugal e França.
Pix Internacional altera geopolítica
Em pleno 2026, os investidores em bolsa de valores aprenderam que não se deve ignorar os efeitos da geopolítica, vide o exemplo atual da
guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã. Sob a alegação de impedir que o regime dos aiatolás desenvolva bombas atômicas, Trump e israelenses atacam a potência regional.
O resultado já é bem evidente: o fechamento do Estreito de Ormuz e a disparada dos
preços do petróleo no mundo. Daí vem a provocação: será que o Pix Internacional, bancado pelo Brasil, pode azedar nossas relações diplomáticas com os EUA?
Afinal de contas, um rival ferrenho de Trump já fez questão de enaltecer o Pix Internacional e ainda provocar o comandante da Casa Branca. Em postagem nas redes sociais, o presidente colombiano Gustavo Petro não só saiu em defesa do sistema de pagamentos instantâneo, como pediu a exportação do Pix ao seu país, vizinho direto do Brasil.
"Peço ao Brasil que estenda o sistema PIX à Colômbia", escreveu o presidente colombiano no seu perfil do X (antigo Twitter).
Criado em 2020, durante a gestão Bolsonaro, o Pix já caiu nas graças dos brasileiros, movimentando cerca de R$ 35,36 trilhões em transferência no decorrer de 2025, muito acima dos R$ 5,21 trilhões registrados em 2021, o primeiro ano completo desde o lançamento.
"Os Estados Unidos fizeram um relatório nesta semana sobre o PIX, disseram que o PIX distorce o comércio internacional, porque o PIX, acho que cria problema para a moeda deles", disse Lula no último dia 2 de abril, durante visita a obras do VLT de Salvador, capital da Bahia.